Enquanto o Congresso discute ampliar a gratuidade no transporte público para agentes de segurança, um novo estudo da Universidade de Brasília (UnB) acende um alerta: no Brasil, quem tem menos paga proporcionalmente muito mais para se locomover e, muitas vezes, deixa até de sair de casa por não conseguir arcar com o custo.
A Comissão de Viação e Transportes da Câmara (CVT) aprovou, no dia 18 de março, um substitutivo a um projeto de lei que prevê transporte gratuito para policiais. A proposta, que ainda precisa passar por outras comissões antes de seguir ao Senado, avança em meio a um debate mais profundo: quem deve pagar pela mobilidade urbana no país?
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O dado que chama atenção: até 19% da renda só para transporte
O estudo da UnB, divulgado em março de 2026, revela um cenário de forte desigualdade. Em Belo Horizonte, famílias de baixa renda chegam a comprometer até 19% do orçamento mensal apenas com deslocamento.
Na prática, isso significa menos viagens, menos acesso a emprego, educação e serviços básicos. Os pesquisadores chamam esse fenômeno de “imobilidade forçada”, quando o custo da passagem limita a própria circulação das pessoas pela cidade.
Direito garantido, mas não para todos
Desde a Emenda Constitucional nº 90, o transporte é considerado um direito social no Brasil, ao lado de saúde e educação. Mas há um problema: na prática, o acesso continua condicionado ao pagamento da tarifa.
Segundo o estudo, isso cria um paradoxo sobre o direito existe no papel, mas que não se concretiza para quem mais precisa.
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Desigualdade que também é racial
A pesquisa mostra que o sistema de transporte não é neutro. Ele reproduz desigualdades históricas:
- Pessoas brancas têm até 2,1 vezes mais acesso a empregos em trajetos de até 30 minutos do que pessoas negras
- Famílias mais pobres fazem menos deslocamentos por limitação financeira
- O acesso à cidade se torna desigual já na origem
Tarifa como “filtro social”
Para os pesquisadores, a passagem funciona como um filtro econômico: quem não pode pagar, simplesmente acessa menos a cidade.
Nesse contexto, políticas de gratuidade mais amplas poderiam ter um efeito direto na redução da desigualdade, funcionando como uma forma de redistribuição de renda e liberando parte do orçamento das famílias para outras necessidades.
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O ponto de tensão no Congresso
É justamente aí que surge o contraste.
Enquanto o estudo aponta para a necessidade de repensar o modelo como um todo, a proposta em tramitação na Câmara segue outro caminho: amplia gratuidades para categorias específicas, como policiais.
Especialistas alertam que esse tipo de medida, sem uma fonte clara de financiamento, pode pressionar o sistema com possíveis impactos em tarifas ou subsídios já existentes.
O debate real: quem paga a conta?
Mais do que decidir quem anda de graça, o Brasil enfrenta uma discussão maior e ainda sem resposta:
- O transporte deve ser financiado principalmente pelo usuário ou pela sociedade como um todo?
- É possível tratar mobilidade como direito social mantendo um modelo baseado na tarifa?
- E, no fim, quem fica de fora quando o sistema não muda?
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Com a proposta ainda em tramitação, o tema deve ganhar força nas próximas semanas. Mas o estudo da UnB deixa um recado claro: o problema não é só quem recebe o benefício, e sim como todo o sistema é estruturado.
FOTOS: Tarifa Zero já alcança cerca de 182 cidades no Brasil
*Com edição de Luiz Daudt Junior.










