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Pesca

Das 38 colônias de pescadores em SC, apenas uma é presidida por mulher

Adriana Linhares conduz a entidade em Balneário Piçarras, no Litoral Norte

10/09/2019 - 12h30 - Atualizada em: 10/09/2019 - 18h48

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Por Ângela Bastos
Muitas vezes, é após o retorno dos profissionais do mar, que Adriana aproveita a conversa na beira do cais para trocar experiências
Muitas vezes, é após o retorno dos profissionais do mar, que Adriana aproveita a conversa na beira do cais para trocar experiências
(Foto: )

Adriana Ana Fortunato Linhares, 31 anos, é presidente da Colônia de Pescadores de Balneário Piçarras, a Z-26. Caso único entre as 38 espalhadas por Santa Catarina. O marido chegou a fazer campanha para o cargo, mas considerou que teria pouco tempo devido às saídas para o mar e, na última hora, a convenceu a entrar na disputa. Além da experiência de pescadora, ela sentiu-se fortalecida pelo aprendizado do curso Jovens do Mar, feito em 2016 na Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri).

O programa foca em temas importantes para o comando de uma associação profissional, como liderança, gestão e empreendedorismo. São trabalhados temas como socialização, identidade, família, gênero, ética, cidadania, legalização da pesca e do mar. Ainda assim, Adriana levou um tempo para perceber a responsabilidade que havia assumido.

A sede estava fechada há meses, havia acúmulo de documentos, material para ser despachado e o espaço se encontrava totalmente desorganizado. Não havia computador e moradores de rua usavam o lugar.

— O primeiro ato foi chamar os 38 associados para uma grande faxina. Conseguimos dar uma melhorada no ambiente e depois lidar com outro desafio, a falta de recursos financeiros.

Adriana reconhece a invisibilidade das pescadoras e acredita que isso depende também de um posicionamento da própria mulher:

Eu sempre falo: quando a gente for fazer alguma coisa, como um cadastro numa loja ou preencher uma ficha na escola do filho, não se deve dizer que somos do lar ou autônomas. Precisamos dizer que somos pescadoras artesanais.

A presidente da colônia também concorda que esta falta de conscientização tem como base a ausência de respaldo na legislação.

— O INSS só reconhece a mulher pescadora que vai ao mar. A grande maioria trabalha em terra, já que não são todas que aguentam 12 horas na pescaria e depois vir para casa fazer todo o serviço doméstico, como cuidar dos filhos, levar as crianças para a escola, manipular o peixe, limpar o camarão, comprar o óleo diesel para embarcação.

Apesar de ser em dobro, diz, este trabalho não é reconhecido: é considerado obrigação.

A pescadora trabalha muito, mas para a sociedade é como se fosse uma obrigação da “mulher do pescador”. Quando a embarcação é puxada para manutenção, por exemplo, somos nós que ajudamos a lixar e pintar.

Para uma das queixas atuais de muitas mulheres, a emissão das carteiras profissionais, Adriana responde que, em setembro, deve se iniciar o recadastramento automático. Com isso, o profissional poderá fazer uma autodeclaração, utilizando o celular. Aquele que não tiver acesso irá procurar a colônia ou associação para regularizar a situação.

"Cada embarcação é uma pequena empresa"

Quanto à escassez de peixes, diz, depende muito do clima. Assim como da poluição. Para Adriana, existe falta de conscientização das pessoas, inclusive dos turistas que, nas férias, vão para o Litoral e sujam as praias com bitucas de cigarros, latas de bebidas e plástico.

Adriana se mostra inquieta com a falta de dados sobre a atividade da pesca artesanal em Santa Catarina. A presidente da colônia de Piçarras entende que isso permitiria apresentar reivindicações ao governo:

— Vamos ter que organizar a frota, que hoje é desconhecida. Não sabemos quantos pescadores somos, nem quanto é pescado. Sequer as toneladas de peixe e camarão capturadas em nossas redes. Poderíamos fazer isso com cada liderança dos municípios — sugere.

Para Adriana, a organização é fundamental para as famílias que vivem da pesca artesanal.

— A gente tem que entender que cada embarcação é como se fosse uma pequena empresa. Nós precisamos acreditar na pesca e num futuro melhor. Nós vamos reescrever a história da pesca no nosso Estado.

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