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Mulheres no mar

"Eu sou uma pescadeira", define Tereza de Jesus Vieira, de Laguna

A pescadora segue a lógica da terminação “eira” presente em outros ofícios, como lavadeira, rendeira. Apesar de o termo ser mais usado para se referir à mulher que vende peixe, o raciocínio recolhe uma expressão comum em Portugal

10/09/2019 - 12h20

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Por Ângela Bastos
Maria Terezinha de Jesus Vieira
Maria Terezinha de Jesus Vieira, a Tereza, 58 anos, 45 como pescadora
(Foto: )

Uma rua de asfalto separa a casa de Maria Terezinha de Jesus Vieira, 58 anos, das águas do mar. Moradora no Canto da Lagoa, às margens da Lagoa de Santo Antônio, em Laguna, Tereza, como é conhecida, é casada, tem cinco filhos e cinco netos. Quando o assunto é a profissão, ela emprega uma palavra que entre uma redada e outra aparece no vocabulário das artesanais catarinenses. 

— Eu sou pescadeira.

Mulher de pouco estudo, Tereza segue a lógica da terminação “eira” presente em outros ofícios — lavadeira, benzedeira, parteira. O raciocínio destampa o baú das memórias dos ancestrais e recolhe uma expressão mais comum em Portugal, berço da nossa língua oficial, que serviu de roteiro para o documentário A Mãe e o Mar (2013) sobre as mulheres-arrais. O vídeo conta a história das pescadeiras, mulheres que décadas atrás desafiaram a tradição, conseguiram licença de pesca e com suas vidas mergulharam num oceano antes só navegado por homens. Popularmente, em algumas regiões do Brasil, a palavra "pescadeira" é usada para se referir às mulheres que vendem o pescado.

A vida de Tereza ajuda a explicar o lugar e o papel das mulheres na pesca artesanal. Ela, que aprendeu a pescar com a mãe e depois de casada aprimorou o conhecimento com o marido, o já pescador Paulo Jovino, ensinou a atividade para os cinco filhos. 

As noras também são pescadoras. Para Tereza, o que faz não é obrigação, apoio, ajuda:

— É trabalho. 

Das águas Tereza tira o alimento, a sobrevivência, a continuidade da vida
Das águas Tereza tira o alimento, a sobrevivência, a continuidade da vida
(Foto: )

Usa a própria rotina como exemplo. Vai ao mar todos os dias, incluindo feriados e fins de semana, levanta-se nas madrugadas, cuida da casa, tira carne de siri, descasca camarão, limpa os peixes.

— A gente coloca as redes no final da tarde, antes do sol entrar. Volta no outro dia, antes do sol nascer. É uma vida bem difícil, mas compensada quando dá peixe — diz a profissional, que acrescenta:

— Vem de mãe e passa para a filha. Eu tenho uma filha que pesca comigo, assim como as noras são pescadoras também.

Pescadeiras

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Fé, sobrevivência e lua de mel na embarcação

Tereza tem uma relação intensa com o mar. Das águas tira o alimento, a sobrevivência, a continuidade da vida. Quando chega à praia, molha a mão e faz o sinal da cruz.

Eu falo com a água e converso com o sol. Quase sempre é um agradecimento por tudo que nos é dado.

Tereza diz sentir uma emoção muito grande pelo trabalho que faz:

— Muitas vezes eu escuto para não ir ao mar, pois a gente é mulher, tem saúde delicada, corpo mais frágil. Mas eu deixo casa, faxina, qualquer serviço em terra para pescar.

A fé faz parte da rotina de Tereza
A fé faz parte da rotina de Tereza
(Foto: )

No dia-a-dia, as parcerias se alternam. Às vezes com o marido, às vezes com uma das filhas. O marido de Tereza se tornou um camarada (companheiro) bastante presente.

— O primeiro filho foi feito na bateira, no balanço das ondas, lá fora. Nós estávamos em lua de mel — recorda. Tudo que a família Vieira possui foi resultado da pesca. Casa, galpão, carro, rancho, bateiras, redes.

O avanço dos anos preocupa os filhos. Eles já sugeriram para a mãe diminuir a frequência de ir ao mar, já que com a aposentadoria dela e do marido a situação da família melhorou:

— O mar é tudo na minha vida. Eu mesma digo para os meus filhos: se acontecer alguma coisa, se eu cair na água e morrer eu vou embora feliz.

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