A bagunça na cozinha da mãe, ainda na Itália, quando Chiara Licocci ainda era pequenininha, foi o incentivo que ela precisava para ver a confeitaria com outros olhos: como, de fato, uma profissão. Uma das lojas mais famosas de Florianópolis, localizada no bairro Santa Mônica, carrega com a chefe de cozinha uma história cheia de momentos desafiantes, desde a barreira linguística até a reinauguração da confeitaria Dolce Chiara Licocci, que aconteceu no último fim de semana.

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Os doces sempre foram elementos muito importantes nos momentos de alegria e união da família de Chiara, com os pais dela sendo grande amantes desse tipo de iguaria. A mãe da jovem sempre a deixou livre para experimentar receitas e espalhar chocolate para todos os lados, pois percebeu que, assim mantinha a menina em casa, junto à família. Para ela, hoje, olhando para trás, “o conceito de família é a responsabilidade porque hoje faço esse trabalho”.

Chiara formou-se em confeitaria e fotografia na Itália e, com os diplomas em mãos, viajou pela Europa, trabalhando em cidades como Londres e Dublin. Aos 24 anos, ela teve a oportunidade de trabalhar como fotógrafa em um cruzeiro e, lá, conheceu um rapaz brasileiro, manezinho, que a fez ficar interessada em vir para a cidade.

Chegando em Florianópolis, em 2016, ela conta que nunca havia se sentido tão bem recebida em um lugar. No mesmo dia em que pisou em território manezinho, foi contratada por uma confeitaria, mesmo sem falar português. A partir dali, Chiara viveu diversas experiências na Ilha, até que resolveu abrir uma empresa que vendia croissants.

Na época, a empresa acabou não dando certo, e ela voltou a trabalhar na área, mas para outra confeitaria. Foi então que Chiara se tornou uma professora de gastronomia e percebeu que seus alunos tinham muito interesse na confeitaria italiana. Entretanto, ela seguiu com medo de abrir uma empresa novamente, achando que não haveria procura por parte da população.

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Mesmo assim, ela resolveu vencer o medo e começou a fazer doces em casa, vendendo para os seus alunos. Ao mesmo tempo, ela foi aprendendo português, diminuindo a dificuldade de comunicação.

A virada de chave veio com a participação no programa Que Seja Doce, da GNT, em 2020. Ela não ganhou o programa, mas conta que ganhou muita visibilidade a partir dele. Entretanto, logo depois, chegou a pandemia da Covid-19, que “mudou o jogo do mercado”, com o uso intenso do delivery para que os doces chegassem até os clientes.

Foi nesse período que ela passou a se dedicar integralmente à venda de doces feitos em casa como sua única fonte de renda. Com isso, a Dolce Chiara Licocci foi crescendo, crescendo e crescendo. Depois de dois anos cozinhando e vendendo apenas em casa, Chiara e seu companheiro, Igor, perceberam que o espaço começou a ficar pequeno, com o sofá dando lugar a um forno. Foi aí que eles resolveram, finalmente, inaugurar a loja física, em maio de 2022.

— Tudo para ver que, no final, seis anos atrás a minha dúvida era se a confeitaria italiana poderia ser procurada e acolhida no Brasil, e hoje te falo que sim — aponta a chefe de cozinha.

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Hoje, a equipe é composta por cinco pessoas no total: ela, um sócio, uma funcionária fixa e duas colaboradoras para os finais de semana.

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Brasileiros interessados em experimentar sabores diversos

Chiara atribui a boa aceitação de sua confeitaria a diversos fatores, como a curiosidade gastronômica dos brasileiros, muito interessados em experimentar sabores diversos de outras nacionalidades, segundo ela.

— Os brasileiros têm uma curiosidade gastronômica que é muito subvalorizada ou não é apreciada. Coisas que para uma italiana que morou muitos anos na cultura italiana é importante — afirma.

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Dados da Embratur revelam que cerca de 15% da população brasileira são descendentes de italianos. Chiara conta que vê isso no dia a dia da confeitaria, onde clientes compartilham histórias de seus avós e bisavós italianos com ela.

Outro diferencial que pode ter influência na aceitação da culinária italiana no Brasil, para Chiara, é o uso de menos açúcar na confeitaria da Itália. Essa é uma característica que não tem relação com o paladar, mas sim à necessidade de conservação, que é menor no clima frio da Itália. Muitos clientes brasileiros apreciam essa característica e elogiam os doces por terem “pouco açúcar”, segundo a chefe.

Doces de sucesso

Chiara conta que os doces mais vendidos e pedidos na confeitaria são o Cannolo e o Tiramisù. Essas sobremesas estão presentes durante todo o ano e representam diferentes regiões da Itália, sendo um do Sul e outro do Norte do país.

O Cannoli é uma sobremesa com uma massa crocante frita em formato de tubo, recheada com um creme de ricota de búfala e açúcar, que Chiara sempre insiste em explicar para os clientes. Já o Tiramisù leva creme Mascarpone, biscotto savoiardo, café e cacau em pó.

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Outros doces também fazem sucesso, como o Pasticciotto, um doce da região da Puglia, feito com amarena, uma cereja típica italiana. O Maritozzo é feito com creme de leite fresco em um pão doce macio, feito com azeite de oliva, aromatizado com raspa laranja e recheado com chantilly.

Já a Sfoliatella é um dos doces mais pesquisados no site da confeitaria por pessoas de todo o Brasil, com interessados de Minas Gerais e São Paulo, por exemplo, querendo saber se ela envia o produto. Chiara afirma que, por enquanto, não envia esse tipo de sobremesa pela necessidade de conservação rigorosa.

Próximos passos

Chiara agora quer consolidar essa nova fase da confeitaria, que iniciou com a reinauguração e ampliação da loja. Outro plano já a vista é a temporada de panetones, prestes a começar com a chegada da época natalina. Ela quer aumentar as vendas em relação ao ano passado.

A chefe de cozinha também conta que pretende estar mais presente com a confeitaria em casamentos e eventos, já que vem percebendo uma procura maior nos últimos tempos, principalmente em casamentos de descendentes de italianos em Santa Catarina.

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