Com temporadas lotadas em diversas cidades brasileiras e mais de 150 mil espectadores, o espetáculo “Prima Facie”, estrelado por Débora Falabella, chega a Florianópolis para curta temporada nos dias 29, 30 e 31 de maio, no Teatro Ademir Rosa, no Centro Integrado de Cultura (CIC).

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A peça acompanha a trajetória da advogada criminalista Tessa, uma profissional bem-sucedida que vê suas convicções sobre Justiça e poder serem abaladas após viver uma experiência traumática. Sucesso internacional, o texto da australiana Suzie Miller provoca reflexões sobre violência sexual, sistema judicial e a forma como a sociedade encara mulheres vítimas de abuso.

Além da repercussão entre público e crítica, “Prima Facie” também acumula importantes premiações no teatro brasileiro. Débora Falabella venceu o Prêmio Shell de Melhor Atriz, o Prêmio APCA de Melhor Atriz de Teatro em 2024 e o Prêmio Arcanjo de Melhor Solo pelo trabalho no espetáculo. A montagem também conquistou cinco troféus no Prêmio APTR: Melhor Atriz, Melhor Direção para Yara de Novaes, Melhor Cenografia para André Cortez, Melhor Iluminação para Wagner Antonio e Melhor Figurino para Fabio Namatame.

Em entrevista ao NSC Total, Débora Falabella contou sobre o impacto de interpretar a personagem, as reações do público ao espetáculo e os debates que a peça provoca sobre violência contra a mulher. Confira a entrevista na íntegra abaixo.

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“Prima Facie” coloca o público diante das falhas do sistema judicial quando o assunto é violência sexual. O que mais te atravessou, enquanto mulher e atriz, ao construir essa personagem?

Primeiro que eu acho que a história que é contada na peça já é uma história muito boa, independente do que está por trás disso. É uma história em que a gente consegue, através da dramaturgia da autora Suzie Miller, acompanhar a vida dessa mulher, que é uma advogada brilhante, que veio de uma família humilde e está em uma fase muito boa da carreira, em que ganha diversos casos dentro do escritório em que trabalha.

Mas eu acho que ela tem uma visão da Justiça e do sistema do qual faz parte diferente. Ela não tem uma visão voltada para toda essa questão de gênero. Ela defende diversos casos, inclusive casos de agressores sexuais, porque realmente acredita que toda pessoa tem direito à defesa a partir do momento em que é julgada. Isso é uma máxima do Direito.

Ela só começa a mudar essa visão a partir do momento em que aquilo acontece com ela. Quando se vê do outro lado, como testemunha e vítima daquela história, ela passa a enxergar como esse sistema jurídico lida com as mulheres. Ela sente isso na própria pele.

O que me atravessou primeiro foi esse texto, que eu acho muito bem escrito. É um texto dramático muito perfeito da Suzie Miller. Quando a gente tem um texto de teatro bom, ele já é metade do caminho. A personagem é maravilhosa porque você acompanha uma mudança de ponto de vista ao longo da história. Você compreende como essa mulher, que vivia nesse mundo muito masculino e acreditava naquele sistema, consegue enxergar o outro lado quando isso acontece com ela.

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E ainda fala de um assunto que assola milhares de mulheres no mundo. Estamos falando de uma em cada três mulheres no mundo que já foi violentada sexualmente. É um número muito assustador. No Brasil, acho que esses números são ainda maiores, principalmente entre mulheres de baixa renda, meninas de 9 a 12 anos e casos em que os agressores estão dentro da própria casa.

Então, é um assunto que tem se tornado muito importante para mim. Principalmente porque, através da arte e de uma boa história, a gente consegue chegar nas pessoas.

Como é para você trazer esse espetáculo e dar vida a essa personagem em um momento em que estamos vivendo uma onda tão forte de violência contra a mulher? Você acha que isso traz um impacto diferente?

Hoje em dia, a gente vive uma realidade muito assustadora. Temos visto muitos casos de violência contra a mulher, e ainda existem muitos que nem são notificados. Esse número deve ser ainda maior.

Ao mesmo tempo, acho que existe hoje um número maior de denúncias e leis que protegem as mulheres, como a Lei Maria da Penha. Mas seguimos ouvindo muitas histórias horríveis, principalmente casos de feminicídio.

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Então, esse deixa de ser um assunto individual e passa a ser um assunto da sociedade. A peça reflete isso. Apesar de falar de um sistema jurídico, ela fala também de como a sociedade enxerga as mulheres. A sociedade julga, tira essa mulher do lugar de vítima e muitas vezes a coloca como culpada.

É algo que a gente assiste se envolvendo muito com a história. Temos um público de muitas mulheres que já passaram por isso e saem muito tocadas e emocionadas. Mas temos também um público masculino, o que é muito importante.

Você já foi marcada por alguma reação da plateia ou por relatos de mulheres depois das apresentações?

Demais. Cada vez mais. Temos o Instagram da peça e também o meu, e muitas pessoas mandam mensagens por ali contando como aquilo as tocou.

Muitas mulheres falam sobre terem revivido experiências próprias. E os homens também ficam muito impactados, porque estamos falando de uma violência causada muitas vezes por alguém que estava dentro da casa da vítima, por um namorado, marido ou alguém conhecido.

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Durante muito tempo, os homens normalizaram esse tipo de violência, como se fosse algo comum. Na peça, inclusive, é falado que há muito pouco tempo o sexo não consensual dentro do casamento não era considerado crime.

A peça também tem uma questão quase didática, de mostrar para as pessoas o que é violência e dizer: “isso é, sim, uma violência”.

A peça é um monólogo. Como é para você carregar essas cenas sozinha no palco, ainda mais tratando de um assunto tão forte?

Primeiro, ela é uma peça muito vibrante. Apesar do assunto sério, é uma peça em que eu conto a história de vários personagens. Eu vivo a protagonista, mas falo de várias outras pessoas envolvidas.

Um dos elogios mais legais que recebo é quando as pessoas dizem: “Nossa, parecia que tinha muito mais gente em cena”. Porque elas enxergam o advogado de defesa, o promotor, conseguem visualizar tudo.

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O monólogo é uma relação muito direta com a plateia. Eu dependo muito de a plateia estar comigo. No primeiro ato, ela reage bastante porque a personagem fala das suas vitórias, da carreira, da vida como advogada. É uma personagem engraçada também.

No segundo ato, quando acompanhamos a queda dessa mulher, eu sinto a plateia indo junto comigo. É muito emocionante.

Claro que é difícil. Estou sozinha em cena, com quase uma hora e quarenta e cinco minutos de texto, sem parar. Mas tenho uma equipe muito presente, então me sinto muito segura.

Na sua visão, o que a peça revela sobre como a sociedade ainda vê as mulheres que denunciam violência sexual?

Acho que revela justamente isso: que ainda existe muito julgamento. Claro que avançamos bastante. Hoje as mulheres têm mais coragem para denunciar e levar isso para a Justiça. Mas o que trava muitas vezes é o medo de ser julgada pela sociedade, pela pessoa que vai fazer o boletim de ocorrência, ou de ter que reviver aquela violência novamente.

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A peça é um reflexo disso. Muitas mensagens que recebo falam exatamente sobre esse sentimento de precisar provar que era vítima e não culpada.

Por mais que tenhamos leis muito importantes, como a Lei Maria da Penha, ainda falta muito chão para avançarmos, tanto na forma como o sistema lida com as mulheres quanto na maneira como a sociedade as enxerga.

Você recebeu um dos principais prêmios do teatro brasileiro por esse trabalho. Como recebeu esse reconhecimento?

Acho que prêmio é sempre resultado de algo que está dando certo. Então ficamos muito felizes.

Para mim foi até um susto, porque em praticamente todas as premiações de teatro do ano passado eu ganhei, e isso é algo que eu nunca tinha visto acontecer comigo. Fiquei muito boba mesmo.

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E não são só os meus prêmios. A peça também ganhou melhor direção, com a Iara de Novaes, que é uma grande companheira artística minha e conduziu esse processo maravilhosamente bem.

Essa peça é um acontecimento muito bonito. Não é sempre que vemos um espetáculo falando sobre esse assunto, com casa cheia, plateias lotadas e tantas pessoas comentando sobre ele. Então o prêmio me deixa feliz também porque é um reflexo de como essa história está conseguindo chegar em muita gente.

O que você espera que o público de Florianópolis leve para casa depois de assistir à peça?

Primeiro, a sensação de ter assistido a uma boa história. Eu falo que “Prima Facie” é uma peça de tribunal. As pessoas vão acompanhar a vida daquela advogada e depois entrar com ela numa audiência. Existe um suspense muito interessante.

E eu espero que o público esteja aberto para aquela história e para a vida daquela mulher. Nem gosto de falar muito para não criar expectativa, mas tenho certeza de que é uma história que vai tocar as pessoas em algum lugar, sejam homens, mulheres ou famílias.

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É uma peça que, se eu estivesse como espectadora, gostaria de ter assistido na vida.

Quer deixar um recado final para o público?

A gente está fazendo uma turnê pelo Brasil inteiro, passando por várias regiões, e é uma alegria muito grande poder chegar em tantas cidades.

É importante que o público vá assistir. É uma peça importante para as mulheres, mas também muito importante para os homens. Acho fundamental que essas pessoas assistam.

Estou doida para ver esse teatro cheio, com esse público lindo.

Antonietas

Antonietas é um projeto da NSC que tem como objetivo dar visibilidade a força da mulher catarinense, independente da área de atuação, por meio de conteúdos multiplataforma, em todos os veículos do grupo. Saiba mais acessando o link.