Samantha Almeida, de 43 anos, é diretora de Diversidade e Inovação dos Estúdios Globo desde 2021, um dos maiores centros de produção de conteúdo do mundo. É lá que nascem novelas, séries, filmes, programas e realities de todos os canais da emissora em TV aberta, fechada e no streaming. Conteúdo que chega diariamente a dezenas de milhões de brasileiros.

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A carioca trabalha para transformar um dos maiores centros de produção de conteúdo no mundo em um espaço cada vez mais aberto para a representatividade de um Brasil real.

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Ela fala sobre a importância de contar boas histórias a partir do olhar de quem as vive. E, quando narra a própria história, a trajetória de Samantha Almeida tem nuances de bons exemplos, superação, mas também muito propósito. Aliás, propósito claro e foco no fazer acontecer são dois princípios que a guiam em cada frase ou projeto.

Quem é Samantha Almeida

Nascida no Rio de Janeiro e criada na comunidade da Rocinha, Samantha formou-se em Moda. Desde cedo, aprendeu a transformar as ausências de infância em potência que impulsionou a carreira, justamente por conta de seu olhar sobre o Brasil real. Traz da mãe já falecida, doméstica e auxiliar de enfermagem, o maior exemplo e inspiração para levar adiante sua missão.

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Nos últimos três anos, tem feito da sua atuação uma ponte para que todo o Brasil conheça não só a sua, mas todas as realidades. Um trabalho minucioso, uma ponte construída por meio de parcerias e pesquisas, para entender o Brasil real e cuidar para que ele seja corretamente representado.

A abertura para novos olhares e narrativas está presente desde os roteiristas, passando por todas as áreas e lideranças da Globo. Resultado percebido cada vez mais nas telas, com a ampliação de grupos anteriormente sub-representados. Protagonistas de novelas, repórteres e apresentadores de telejornais negros, espaço para os povos originários fora das efemérides, personagens PCDs inseridos nos enredos com seus próprios núcleos.

No seu quadro de metas, pautado pelos princípios ESG, a inclusão é prioridade.

— A gente tem que ter cuidado de pensar que a diversidade são os outros ou os não representados. Alguma coisa só é diversa quando você tem um espaço com vários contrapontos. A diversidade que eu acredito contempla absolutamente todos os espectros dentro de uma sala, contanto que eles sejam espectros emancipatórios socialmente — afirma, ao ser questionada sobre como avançamos no tema diante da polarização atual.

Ao longo de uma hora e meia de conversa, falou ao projeto “Antonietas”, da NSC, sobre diversidade, inclusão, inovação, liderança feminina. Ressaltou a força e o papel da TV aberta e de uma rede como a Globo na construção de um futuro mais próximo do Brasil real. Reforçou a importância de áreas pautadas genuinamente para os princípios ESG nas empresas e do suporte das lideranças para que o avanço ocorra.

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Você mediou um painel que discutiu o impacto social e comercial do conteúdo no Festival Acontece 2024. Como a Globo, que chega a milhões de brasileiros todos os dias, pode contribuir para que esse sonho de futuro seja imaginado por pessoas que não são vistas hoje?

— Quero explicar o contexto que levou à criação do festival. Ele é um projeto onde uma consultoria externa se junta com a gente para poder falar sobre como vamos expandir o nosso olhar para abarcar produtores independentes, criativos em início de carreira. Houve um movimento de entender quais eram as nossas lacunas para que a gente chegasse no público.

Juntamos muitas pessoas das áreas de comunicação, marketing, da área interna da Globo, com pessoas externas de vários mercados, para que a gente pudesse pensar num modelo de comunicação integrada e trazer esses talentos para dentro da empresa. Uma das coisas que saiu de insight desse encontro é que, por mais que nós sejamos os grandes influenciadores do mercado audiovisual – já que 50% desse mercado hoje está conectado aos estúdios, à Globo de alguma forma – estamos preocupados também com qualidade.

A gente está em muitas conversas sobre o Brasil real. O que é o Brasil real? No que é que o Brasil real acredita? Acho que a gente está num dilema histórico, falando sobre o que é o Brasil e como representar esses diversos brasis.

Qual é a importância de ter essa diretoria de Diversidade e Inovação em uma emissora como a Globo?

— Para mim, diversidade e inovação são palavras quase similares. Elas são equivalentes porque para mim não existe nenhum tipo de inovação que não vá surgir a partir de demanda ou criação das pessoas. E também não vai surgir nenhuma diversidade que não contenha as próprias relações entre essas humanidades.

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Como é que a gente cria unidade numa sociedade cada vez mais diversa? A diretoria de diversidade é uma área de pontes, de relações, de conhecimento, com a função de se aproximar da semente da empresa, de quem está pensando, quem está sonhando. É uma área com muitos consultores, com pessoas que estão pensando as relações de mundo há muito tempo, pessoas que vêm da academia e da sociedade civil.

A gente tem visto cada vez mais a presença de negros na Globo, tanto no entretenimento quanto na informação. Mas ainda se nota a pouca presença de outras etnias como os indígenas, os asiáticos. A diretoria de Diversidade se preocupa com isso?

— Olhando para nosso primeiro relatório ESG, de 2021, vemos grandes passos na representação estética. Os dados nos levaram a identificar quatro grupos principais onde buscamos maior crescimento e representação, que são os mais emergenciais e com importância de representatividade social muito grande: o grupo das mulheres; o grupo étnico racial, que abrange pessoas negras, indígenas; o grupo PCD; e o LGBTQIAPN+.

Vou fazer três anos de Globo, logo faz três anos que existe um relatório ESG, onde começamos a levantar dados. E no terceiro ano, as pessoas começaram a dizer: “nossa, eu começo a perceber a presença de mais pessoas negras na tela”. Mas essa construção foi feita há 2, 3 anos, que é o tempo de produção de uma dramaturgia longa. Assim como muito do que a gente vai ver nos próximos anos é a construção do que está sendo feito agora.

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O relatório já demonstra um crescimento grande de indígenas participando de produções. Mas é super importante sinalizar que a pauta da negritude já vinha sendo desenvolvida há muito mais tempo dentro da empresa. É uma pauta urgente e que estava com 50% da população. Então essa impressão de que essa pauta ganha notoriedade, é porque também a ausência dela era muito percebida.

Como a gente prepara a empresa para receber líderes que sejam de algum grupo sub-representado e aceitar essa diversidade?

— A primeira coisa é que precisa ter um compromisso das lideranças. Não é um processo fácil, porque a gente fala de encontros de mundos e é muito importante que a gente consiga fazer com que esses encontros estejam alinhados na mesma meta.

Eu não conheço ninguém dentro da Globo que não seja apaixonado pelo que faz. E por causa dessa paixão, estamos em acordo que nós queremos fazer produtos incríveis para essa grande massa que é apaixonada pelo que a gente faz. Acho que nada é mais poderoso que as pessoas que estão na liderança acreditarem nessa transformação.

É muito mais difícil ser líder em lugares onde a sua liderança não é pautada pelo teu cargo. A gente está sendo provocado a colocar na mesa não só mais o olhar técnico, mas o olhar humano sobre aquilo que você faz. E a gente não aprendeu isso na faculdade nem nos cursos de liderança. A gente aprende fazendo.

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Você conseguiu transformar as suas ausências da infância em pontos fortes na sua trajetória como líder. Quando você percebeu isso e qual recado você deixaria para outras jovens para que elas possam transformar essa dificuldade, essas ausências num ponto forte?

— Comecei a carreira como todo mundo, tentando agradar: na faculdade, procurando um estágio, tentando me encaixar. Chegou um momento que eu percebi que independente do que eu fizesse, eu nunca seria parte. Porque o mundo corporativo foi construído para colocar todas as pessoas dentro de formatos que já estavam prontos. Então, você precisa atender ali 80% daquele quadrado. E eu tentei me encaixar nesses 80%, mas para isso deixava de fora não 20%, mas eu deixava de fora os meus 80%, que eram minha visão de mundo, minha vontade, meus questionamentos.

Comecei a perceber que, ou eu criava espaços para que esses 80% de conflitos, de questionamentos pudessem fazer parte desse ambiente, ou eu seria descartada como força de trabalho depois. E fui descobrir muito tempo depois que o meu grande incômodo era porque, majoritariamente, as pessoas que trabalhavam onde eu trabalhava não faziam ideia de realidades como a minha: uma mulher negra, periférica, criada em comunidade.

Quando as pessoas me perguntam quando ‘virei a minha chave’ eu digo que minha chave sempre foi virada. Então, se eu pudesse dar um conselho para as mulheres, para as pessoas negras, LGBTs, os PCDS seria: não pautar as suas carreiras em agradar o mercado. Porque no momento onde a gente tenta acessar o mercado para caber dentro dele, fica muita coisa nova do lado de fora. E essa coisa nova é justamente o que o mercado precisa para dar o próximo passo. 

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Então, o que eu convoco às novas lideranças, especialmente aquelas que não vem dos lugares de onde a maioria das lideranças vêm, é que elas sejam levemente rebeldes, se adaptem o suficiente para viver. Mas é necessário não querer agradar sempre, porque às vezes agradar significa abrir mão daquilo que é definitivo para se manter nos espaços.

Temos um projeto aqui, o Antonietas, que quer promover a maior inclusão de mulheres e a liderança feminina nas pautas e conteúdos. Gostaríamos de saber como você vê o número de mulheres em cargos de alta liderança e como é possível avançar mais?

— Se olharmos os números, não estamos avançando e sim retrocedendo. Vemos com preocupação o número crescente de desligamentos de pessoas negras e mulheres nas lideranças, nas vagas afirmativas, e é preciso ficar atentas. Não dá para esmorecer em relação à pauta feminina e étnico-racial porque elas estão sendo colocadas como algo resolvido.

Quem são os teus espelhos hoje, as tuas inspirações para dar continuidade nesse trabalho?

— Tenho pensado muito em gente comum, sabe? Tenho me inspirado nas lideranças e grupos que se formam por solidariedade, como os corredores humanos no Rio Grande do Sul nesse momento de calamidade. Mas não vou abrir mão nunca de falar que a minha mãe é meu maior espelho. Já não está mais entre nós, mas uma mulher, empregada doméstica, auxiliar de enfermagem que com menos de um salário mínimo, cria uma realidade completamente diferente da que ela viveu para mim, é algo extraordinário.

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