No ano de 2004, falar em “café especial” no Brasil era algo distante. Em Florianópolis, o costume ainda era o de pedir um passado simples no balcão. Foi com a ideia de democratizar o produto com grãos de alta qualidade, de origem controlada e com notas sensoriais complexas, que a mineira Luciana Melo e o californiano Joshua Stevens decidiram abrir uma cafeteria no centrinho da Lagoa da Conceição. O pequeno ponto viria a se tornar o embrião do Café Cultura, uma das maiores redes do segmento do país, com 47 lojas e faturamento anual de R$ 80 milhões.

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A história do Café Cultura é inseparável da trajetória do casal, que se conheceu na Califórnia, nos Estados Unidos, em 2002. Luciana, mineira de Andradas e formada em Administração, foi ao país fazer um curso quando conheceu Joshua, um norte-americano com o sonho de ter uma cafeteria. Juntos, decidiram mudar-se para o Brasil.

— Eu já conhecia Floripa e tinha vontade de morar aqui. Pensei: “Não vou trazer um californiano e botar ele em São Paulo” — relembra Luciana, com bom humor.

A vontade de abrir a cafeteria partiu de Josh, que já vinha desse mercado. Luciana, que já havia trabalhado em multinacionais, ficou seis meses sem conseguir se recolocar no mercado depois que se mudou para Florianópolis. Diante disso, decidiu apostar no sonho do companheiro.

— Meu avô era agricultor, cresci vendo ele trabalhar com café, mas eu nunca tinha pensado em trabalhar com isso. Eu queria ser gerente de produto, queria criar marca, fazer marca, etc. De certa forma, era o que eu estava fazendo ali — diz Luciana.

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Veja fotos do Café Cultura

Torrefação própria é diferencial

A cafeteria tornou-se um ponto de referência em Florianópolis, e o crescimento, como brinca Luciana, seguiu a “lógica das startups” locais: todo ano a empresa dobrava de tamanho. Luciana e Joshua compraram a loja ao lado, e depois uma unidade no Centro da cidade, onde instalaram a própria torrefação, em 2006.

Segundo Luciana, o controle sobre a torra era essencial para garantir a qualidade e a padronização do sabor, um diferencial que consolidou a marca. Atualmente, o House Blend da marca vem da Fazenda Recanto, em Machado (Sul de Minas), com microlotes do Espírito Santo e Paraná.

A torra é feita em Florianópolis, em uma máquina instalada no mezanino da loja na Lagoa:

— O grão chega verde, entra pela máquina e sai torrado. É um perfil, é uma ciência entre o cru e o torrado.

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Desde o início, o casal se dividiu em funções: Luciana cuida da parte de negócios e Josh da parte da qualidade do café. Em 2014, com a operação já consolidada, o casal enxergou no franchising a oportunidade perfeita para expandir. Cada unidade exige um investimento inicial a partir de R$ 450 mil, com taxa de franquia de R$ 60 mil e um retorno estimado entre 24 e 36 meses.

A estratégia de expansão é geográfica, em “crescimento em espiral”. A rede consolidou sua base em Santa Catarina, avançou para o Sul, no Paraná e Rio Grande do Sul e, recentemente, chegou com força no Sudeste, com lojas em São Paulo, Rio de Janeiro e, em breve, no Espírito Santo. O plano para 2026 inclui Minas Gerais e Distrito Federal, com o objetivo de se tornar “a marca favorita de café do Brasil”.

Café como experiência

Com 47 lojas ativas e outras três prestes a inaugurar (Joinville, Vitória e na Arena Pacaembu, em São Paulo), o Café Cultura já serve cerca de 7 milhões de xícaras de café por ano, conforme a empresa. Em Joinville a inauguração acontece na próxima quarta-feira (15), na Rua Otto Boehm.

Atualmente, o Café Cultura se posiciona como uma cafeteria-boutique, com cardápio amplo e produtos de alta qualidade.

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— A gente sempre teve uma oferta culinária democrática, inclusiva. Mesmo quando não se falava nisso, a gente sempre teve produtos para os veganos. Trabalhamos muito do que a gente gosta, que é o “flexitariano”: um dia eu tô saudável, tomando meu suco de manhã, mas eu como meu docinho à tarde — explica Luciana.

Mais do que o produto, o foco é a experiência:

— É uma rede que tem um conceito de inteligência, tem varejo por trás e tem experiência. A gente seleciona as fazendas, seleciona os grãos, traz para dentro da nossa torrefação, faz a torrefação e entrega até a xícara.

Duas décadas depois de começar com uma pequena torra artesanal no centrinho da Lagoa, o Café Cultura se tornou um dos nomes mais fortes do mercado de cafés especiais no Brasil. E, como resume Luciana, sem perder o sabor da origem:

— O café é serviço, é experiência. Quando você vai nas lojas, o que a gente quer que você sinta é a atmosfera do negócio. Porque o negócio começou pelo café de verdade.

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