A densa camada de espuma que cobre partes da Lagoa da Conceição, nesta terça-feira (13), é sintoma de um problema ambiental complexo, de acordo com o professor de Ecologia e Oceanografia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Paulo Horta. Em entrevista à NSC TV, o especialista afirmou que vê um cenário preliminar de eutrofização aguda ou hipereutrofização, ou seja, excesso de nutrientes na água que desencadeia um crescimento descontrolado de algas.

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Esse cenário, na visão do professor, pode ter sido agravado pela obra de dragagem do canal da Barra da Lagoa, concluída em agosto deste ano. A obra ampliou a largura e a profundidade do canal, como forma de aumentar a navegabilidade, segundo a prefeitura.

— A gente tem na região da Lagoa problemas que são conhecidos de poluição crônica, que vem pelas águas e superfície, mas nós também temos uma poluição silenciosa, que vem pela água subterrânea. Todo esse processo de contaminação que se arrasta foi agravado pela dragagem que nós tivemos lá no canal da Barra, disponibilizando nutrientes dissolvidos, fertilizantes para algas que crescem, tudo isso morre. E com a força do vento, isso produz essa espuma de aspecto marrom-claro que foi observado na superfície da água — explicou, em entrevista à NSC TV.

A pedido do professor, na manhã desta terça (13), uma equipe de um laboratório da região coletou amostras da água de pelo menos três pontos da lagoa. A análise é paralela à do Instituto do Meio-Ambiente (IMA), que também fez coletas nesta terça-feira.

— É muito importante esse acompanhamento quando o problema acontece. Por quê? Porque precisamos de um diagnóstico detalhado — afirmou Horta.

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Esse estado de eutrofização aguda ou hipereutrofização tem consequências sérias. Horta alerta que o processo pode estar consumindo o oxigênio da água e abre portas para florações de algas nocivas que podem produzir toxinas, representando um risco ecológico e para a saúde pública.

— É fundamental que, identificando as causas e da onde vem esses poluentes, a gente faça as correções emergenciais necessárias, mas também trabalhe a médio, longo prazo para resolver o problema do saneamento básico, à medida que nós também despoluímos a Lagoa da Conceição com técnicas de bioremediação que nós temos, para não só remover os nutrientes dissolvidos, remover todos os poluentes, mas também para nós produzirmos o oxigênio, que é fundamental para a manutenção da vida e para o tudo aquilo que a gente de fato ama em relação à Lagoa da Conceição — defende.

Veja fotos das manchas na Lagoa da Conceição

Contexto do fenômeno

A espuma apareceu na Lagoa de Baixo no último sábado (11), chamando a atenção pela coloração anormal. O Instituto do Meio Ambiente (IMA) realizou coletas de água para analisar a presença de uma floração de algas e avaliar os seus possíveis impactos ambientais. Até que os resultados estejam prontos e a situação seja esclarecida, a orientação é evitar o uso da lagoa. 

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— O IMA acionou a equipe técnica que já está no local realizando vistorias, coletas de amostras de água e essas análises estão sendo conduzidas pelo laboratório do IMA e também por meio de uma parceria com o Instituto Federal de Santa Catarina. O objetivo é identificar o tipo de ocorrência e entender as causas desse fenômeno — disse o diretor de Controle, Passivos e Qualidade Ambiental do IMA, Diego Hemkemeier Silva.

De acordo com o químico e chefe de Divisão de Políticas e Qualidade da Casan, Felipe Cassini, a espuma não é tóxica.

— A espuma aqui é a floração de uma microalga não tóxica que ocorreu devido à disponibilidade de micronutrientes. A gente teve agora recentemente efeitos climáticos que trouxeram ventos fortes e uma inversão térmica que disponibilizou esses nutrientes e as microalgas tiveram uma floração expressiva. E durante esse processo de exploração ela ocorreu a liberação da mucilagem, que é um muco natural. É um fenômeno biológico natural.

O que diz a Casan?

A CASAN informa que o efluente tratado pela Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) da Lagoa da Conceição não é lançado diretamente na Lagoa. As imagens que mostram a presença de espuma podem estar associadas a ligações irregulares de esgoto na rede de drenagem pluvial, uma situação que não está sob responsabilidade direta da Companhia. No domingo (12) pela manhã, após a ciência do fato, todas as estações elevatórias foram vistoriadas e nenhum problema foi encontrado na infraestrutura da Casan.

Companhia atua de forma colaborativa com os órgãos competentes, como a Floram e a Vigilância Sanitária, que são responsáveis pela fiscalização dessas ligações, e está em contato para auxiliar na identificação da origem do lançamento e contribuir com as medidas necessárias.”

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O que diz a prefeitura?

A Prefeitura de Florianópolis, por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, esclarece que este é um fenômeno natural. A proliferação de algas observada na Lagoa da Conceição é potencializado pelas altas temperaturas e pela elevação na concentração de fosfato na água. O calor intenso ainda favorece o crescimento das algas, enquanto o aumento de nutrientes, como o fósforo, estimula ainda mais esse processo. Amanhã, equipes da Blitz Sanear e do Instituto do Meio Ambiente (IMA) irão até o local para verificar a situação e avaliar possíveis medidas de monitoramento e controle ambiental.

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