Quem passou pela praia do Farol de Santa Marta no domingo (1º) se deparou com uma cena pouco comum: um grande cardume de arraias nadando próximo à costa. O registro feito em Laguna, no Sul catarinense, chamou a atenção de moradores e visitantes e, segundo especialistas, está ligado à dinâmica natural do mar.

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De acordo com o oceanógrafo e coordenador do curso de Oceanografia da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), Rodrigo Mazzoleni, as raias observadas pertencem, provavelmente, ao gênero Rhinoptera, conhecidas popularmente como raias-ticonha. No entanto, ele ressalta que não é possível afirmar a espécie com precisão apenas a partir das imagens, já que a identificação definitiva depende de análises mais detalhadas.

Apesar do impacto visual, o termo “raro” não é o mais adequado para classificar o episódio. Segundo o oceanógrafo, o registro pode estar relacionado ao retorno das populações naturais, já que a captura dessas arraias é proibida há mais de 20 anos.

— O que a gente começa a observar é que essas populações estão se recompondo. Isso faz com que esse tipo de evento passe a ser visto com mais frequência ao longo da costa catarinense — afirma. Registros semelhantes já ocorreram em pontos do Norte do Estado e em municípios como Balneário Camboriú, Bombinhas e Barra Velha.

Ainda segundo o profissional, do ponto de vista científico, esse tipo de ocorrência sempre é relevante, especialmente quando envolve grandes grupos.

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— São animais que se agregam durante movimentos migratórios. Quando a gente observa um número grande assim, é porque alguma condição ambiental favoreceu esse agrupamento — explica.

Época do ano favorece o fenômeno

Mazzoleni explica que esses agrupamentos costumam ocorrer em períodos específicos do ano, principalmente na primavera e no fim do verão e início do outono, quando as condições ambientais são mais favoráveis:

— Temperatura da água, salinidade e disponibilidade de alimento funcionam como gatilhos biológicos. 

O deslocamento observado está relacionado, sobretudo, à alimentação e à reprodução, fatores que influenciam a movimentação de espécies como raias e tubarões, que realizam movimentos migratórios há milhares de anos. Segundo o especialista, esse gênero de arraias é conhecido por formar agregações ao longo da costa e pode percorrer grandes distâncias, embora ainda não seja possível determinar com precisão o alcance dessas populações na região.

A presença dos animais próximos à praia pode indicar boa qualidade do ambiente marinho.

— Para que essas espécies estejam ali, é necessário que o ambiente ofereça condições adequadas para sobrevivência e alimentação. Isso reflete uma qualidade ambiental relativamente boa — avalia.

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Orientação é manter distância

Em relação à segurança, o oceanógrafo afirma que o risco para banhistas é baixo.

— São animais dóceis, que costumam se afastar da presença humana. Apesar de possuírem um esporão, que não é um ferrão. Mas elas não costumam atacar — diz. Segundo ele, acidentes costumam ocorrer apenas quando há tentativa de contato ou provocação.

A orientação, portanto, é simples: manter distância e não interferir.

— Ao identificar um agrupamento de raias, procure sair de perto, não precisa sair apavorado. As arraias estão apenas de passagem, não vão ficar ali muito tempo — reforça. Para pescadores, o alerta também é válido, uma vez que as espécies desse gênero são protegidas por lei e não podem ser capturadas.

Para Mazzoleni, registros feitos pela população ajudam a ciência a compreender melhor a dinâmica do mar:

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— Essas informações são fundamentais para acompanhar a ocorrência das espécies ao longo do ano, especialmente em um cenário de mudanças climáticas, que impactam diretamente a vida marinha.

Confira o registro do cardumes de raias nadando próximo à costa