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    Uso de máscaras

    Em uma época de máscara facial, estamos todos com mais dificuldade para reconhecer rostos

    Os cientistas têm algumas ideias sobre o motivo pelo qual a máscara dificulta o reconhecimento facial, com base no estudo do cérebro de pessoas comuns, bem como do de pessoas que têm dificuldade para reconhecer qualquer rosto

    04/09/2020 - 13h55

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    Por The New York Times
    máscaras
    Na população em geral, a prosopagnosia pode afetar cerca de uma em 50 pessoas.
    (Foto: )

    *Por Elizabeth Preston

    Estamos nos acostumando com a máscara, seja na hora de usá-la ou de descobrir para quem estamos olhando. Ela pode enganar até mesmo aqueles que são especialistas em feições.

    "Na verdade, passei por uma situação hoje", disse Marlene Behrmann, neurocientista cognitiva da Universidade Carnegie Mellon que passou décadas estudando a ciência do reconhecimento facial.

    Ela foi se encontrar com uma colega fora do hospital onde ambas colaboram, e não percebeu que esta estava sentada bem na sua frente, usando uma máscara. Para ser justa, "ela cortou o cabelo bem curto", comentou Behrmann.

    Os cientistas têm algumas ideias sobre o motivo pelo qual a máscara dificulta o reconhecimento facial, com base no estudo do cérebro de pessoas comuns, bem como do de pessoas que têm dificuldade para reconhecer qualquer rosto. Mas, mesmo quando todos ao nosso redor estão incógnitos, ainda temos maneiras de nos encontrarmos.

    "Usamos o reconhecimento facial em todos os aspectos de nossa interação social. No rosto dos outros, encontramos as pistas sobre a personalidade, o gênero e as emoções. Isso é algo fundamental para nossa percepção. E, de repente, o rosto não parece mais o mesmo", observou Erez Freud, psicólogo do Centro de Pesquisa da Visão da Universidade York, em Toronto.

    Foi por isso que Freud e os outros coautores decidiram estudar como a máscara prejudica a habilidade de reconhecimento facial das pessoas. Eles recrutaram quase 500 adultos para completar uma tarefa comum de memória facial on-line. Os participantes viram rostos desconhecidos e depois tentaram reconhecê-los em condições cada vez mais difíceis. Metade dos participantes viu rostos com máscara de estilo cirúrgico, que cobre a boca e o nariz.

    As pessoas tiveram resultados substancialmente piores no teste quando os rostos estavam cobertos por uma máscara. Os autores postaram suas descobertas, que ainda não foram revisadas por pares, de forma on-line, no mês passado.

    Já autores da Universidade de Stirling, na Escócia, publicaram um estudo semelhante em junho, que também não foi avaliado por pares até o presente. Nesse estudo, 138 adultos completaram um teste de correspondência facial on-line. Quando os cientistas cobriram os rostos com uma máscara, o desempenho das pessoas piorou – mesmo quando se tratava de uma celebridade conhecida.

    No estudo de Freud, 13 por cento dos participantes tiveram tanta dificuldade para reconhecer os rostos mascarados que também podem ter sofrido de prosopagnosia, também conhecida como cegueira para feições. Sem máscara, apenas três e meio por cento tiveram pontuação tão baixa.

    Na população em geral, a prosopagnosia pode afetar cerca de uma em 50 pessoas. Algumas têm essa condição durante toda a vida; outras a desenvolvem repentinamente depois de algum traumatismo cerebral.

    Só porque você está confuso ao ver os outros de máscara facial não significa que você tenha a prosopagnosia. Ainda assim, "as pessoas têm uma pequena noção do que significa sofrer dessa disfunção", disse Behrmann.

    Ela acrescentou que, para a maioria dos adultos, o reconhecimento facial é um processo extremamente sofisticado que é acionado quase instantaneamente. Isso é especialmente verdadeiro quando vemos as pessoas que conhecemos bem. "Por ser tão bom, às vezes é difícil entender como ele funciona", comentou a neurocientista. Assim, os cientistas aprenderam muito sobre o reconhecimento facial estudando pessoas com prosopagnosia.

    Outros estudos testaram pessoas sem prosopagnosia. Os pesquisadores desafiaram a habilidade de reconhecimento facial dos indivíduos, apresentando-lhes rostos de cabeça para baixo ou totalmente obscurecidos, exceto por uma característica, ou misturas do rosto de celebridades, como a boca e o nariz de George Clooney fundidos com os olhos de Robin Williams.

    Uma das principais conclusões é que o reconhecimento facial se dá de forma holística ou de uma só vez. Não examinamos as características das pessoas uma a uma. Em vez disso, observamos o rosto todo em um relance. Quando metade do rosto está oculto por uma máscara, o processo fica prejudicado.

    Mas nem tudo está perdido. A pesquisa mostrou que, de todas as características faciais, confiamos mais nos olhos na hora de reconhecer uma pessoa. Mesmo que tenhamos dificuldade de saber para quem estamos olhando, quando somente os olhos estão visíveis, conseguimos obter as informações sobre a identidade e as emoções da pessoa. "Muitas informações são transmitidas pela região dos olhos. Ainda temos acesso a essas informações", observou Richard Cook, psicólogo da Universidade Birkbeck de Londres.

    "Também usamos outras pistas e podemos recorrer a algumas delas se nos forem úteis", disse Behrmann. Por exemplo, podemos reconhecer as pessoas pela maneira como andam ou falam, ou por seus pelos faciais ou penteado (exceto para a colega de Behrmann que havia cortado o cabelo). A prosopagnosia pode contar com esses sinais externos.

    A cultura do observador também pode ser importante. No que os pesquisadores chamam de "efeito lenço na cabeça", os participantes do estudo do Egito e dos Emirados Árabes Unidos, onde as mulheres costumam cobrir os cabelos, tiveram resultados melhores do que os participantes britânicos e americanos na hora de identificar um rosto no qual apenas os olhos, o nariz e a boca estavam visíveis.

    Em alguns países asiáticos, o uso de máscara em público para proteção contra vírus era comum antes da Covid-19. Será que as pessoas nessa parte do mundo se sentiriam mais confortáveis ao reconhecer um rosto coberto?

    "É realmente um ponto interessante", comentou Katsumi Watanabe, cientista cognitivo da Universidade Waseda, em Tóquio.

    Há uma escassez de pesquisas que abordem diretamente a questão, mas estudos anteriores sugeriram que diferenças culturais afetam a maneira como as pessoas interpretam as emoções. "Os caucasianos ocidentais tendem a decodificar as expressões faciais com base na região da boca, enquanto os asiáticos orientais tendem a usar as informações da região dos olhos", afirmou Watanabe.

    Isso pode facilitar para que as pessoas em um país como o Japão se acostumem a interagir usando máscara, especulou Watanabe.

    No entanto, as pessoas que atualmente são muito jovens podem experimentar os efeitos negativos em longo prazo. Os bebês e as crianças que estão cercadas de pessoas com máscara podem não ter a chance de aperfeiçoar sua compreensão holística de rostos, disse Cook. "Se houver algum tipo de efeito duradouro, acho que ele será observado em crianças que estão crescendo agora." Ele se pergunta se a capacidade de reconhecer um rosto pode fazer com que a pessoa sempre tenha um pouco de sotaque, como se fosse uma segunda língua aprendida mais tarde na vida.

    Para Cook, atualmente os adultos estão passando por momentos difíceis. Em seu trabalho com outros pesquisadores que estudam a prosopagnosia, "estamos ouvindo que as pessoas que têm um desempenho normal na hora de reconhecer um rosto estão tendo dificuldades, e as pessoas que normalmente já têm dificuldades estão enfrentando ainda mais dificuldades."

    Isso também significa que, neste momento, muita gente está curtindo sua habilidade de reconhecimento facial, observou Cook. "Elas estão percebendo como é não poder contar com isso sempre."

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