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    Memória

    Entenda porque São Francisco do Sul comemora dois aniversários por ano 

    No dia 5 de janeiro, a ilha "vizinha" de Joinville celebra a mais antiga destas datas 

    05/01/2019 - 06h55 - Atualizada em: 05/01/2021 - 16h10

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    Cláudia
    Por Cláudia Morriesen
    Imagem mostra o Centro Histórico de São Francisco do Sul, com a baía da Babitonga na frente
    A cidade teria sido cenário de uma história curiosa em 1504
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    São Francisco do Sul comemora um aniversário em 5 de janeiro e o outro em 15 de abril. O primeiro faz com que a cidade seja chamada, muitas vezes, de "a terceira mais antiga do Brasil". É nesta data que, teoricamente, a cidade teria sido "descoberta", em 1504.

    Já em 15 de abril, São Francisco do Sul foi elevada da categoria de "villa" a cidade, e isso ocorreu apenas em 1847. Esta é a data oficial de aniversário, e o marco inicial para contagem da idade da cidade. Quando abril chega, São Chico sedia a Festilha - Festa das Tradições da Ilha, com shows, bailes, apresentações de grupos folclóricos e barraquinhas com comidas típicas.

    > Quer receber notícias de Joinville e Norte de SC por WhatsApp? Clique aqui​ Na verdade, 1504 é a data em que a região teria sido visitada pela primeira vez por um europeu. Ou seja: a região da Baía da Babitonga é considerada a terceira mais antiga do Brasil a ser acessada pelos navegadores durante a Era dos Descobrimentos, quando Portugal e Espanha, em especial, buscavam novas rotas comerciais e terras para colonização e exploração. Considerando este marco histórico, São Francisco do Sul celebra em 5 de janeiro a primeira visita de europeus e, posteriormente, o primeiro registro de sua existência nos livros da Europa.

    Maquete no Museu do Mar, em São Francisco, mostra como era a nau de Binot de Gonneville
    Maquete no Museu do Mar, em São Francisco, mostra como era a nau de Binot de Gonneville
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    Por que 5 de janeiro?

    Em 5 de janeiro de 1504, o capitão europeu Binot Paulmier de Gonneville chegou a "uma grande terra" depois de ter partido do Porto de Honfleur, na França, com a intenção de chegar às Índias Orientais. No caminho, tempestades e tormentas fizeram a embarcação — que era chamada de nau — perder a rota.

    Eles foram obrigados "a se deixarem ir, por alguns dias, ao sabor do mar, ao abandono, e perderam a rota; o que muito os afligia", segundo consta nos registros do relato de viagem da expedição, encontrados em 1869 na Biblioteca do Arsenal e cuja tradução foi publicada no livro Vinte Luas, de Leyla Perrone-Moisés.

    Nesta data, no entanto, depois de quase seis meses ao mar e de perder 2/3 da tripulação por escorbuto e outras doenças — entre eles, o piloto principal, Colin Vasseur —, avistaram as terras que seriam, atualmente, São Francisco do Sul. Aportaram apenas no dia seguinte e encontraram uma tribo do povo guarani que, naquela região, tinha como líder o cacique Arosca.

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    Ali, conviveram pacificamente com os moradores, observando seu modo de vida e até suas "guerras" com os povos de outras terras que, de acordo com o relato, "eram apenas excursões de poucos dias". Enquanto isso, a tripulação que sobrevivera às tormentas e doenças no mar consertava a nau para voltarem à França, já que a viagem às Índias para comércio havia sido descartada. Ela tornara-se impossível com tão poucos tripulantes e com as avarias na embarcação.

    Como os guaranis aparentavam grande curiosidade e admiração pelos produtos diferentes que os europeus os mostravam, o cacique Arosca concordou em permitir que um de seus filhos — pelos relatos ele teria 6 filhos homens, entre adolescentes e adultos — acompanhasse Binot de Gonneville e sua tripulação na viagem de volta a Europa.

    Içá-mirim, que teria desenvolvido uma relação melhor com os europeus, foi o escolhido. Gonneville se comprometeu a ensinar a ele sobre artilharia e mostrar o modo de vida na França, e então o traria de volta em "20 luas", o que seria equivalente a um período de menos de dois anos. Outro índio, Namoa, um homem de cerca de 35 anos, também foi levado para a Europa, mas morreu no caminho.

    Por que Binnot de Gonneville nunca voltou a São Francisco do Sul?

    Apesar da promessa ao cacique Arosca, nem Binnot de Gonneville nem Içá-mirim (que os franceses registraram como Essomeriq) jamais voltaram ao Brasil. Como não teve sucesso em sua viagem às Índias, o capitão não conseguiu mais convencer os comerciantes da Normandia para que estes custeassem suas expedições. Sem dinheiro, ele nunca cumpriu a promessa ao cacique.

    A francesa Dorothée Linares posa com a estátua de um menino guarani, feita em homenagem a Icá-mirim
    A francesa Dorothée Linares posa com a estátua de um menino guarani, feita em homenagem a Icá-mirim
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    O que aconteceu com Içá-mirim?

    A vida era difícil para os nativos que eram levados à Europa: eles geralmente eram expostos como animais aos europeus ou viravam escravos em trabalhos forçados nos portos. No entanto — talvez por sentir-se culpado por não cumprir a promessa ao cacique depois de ter sido tratado tão bem em sua estadia em São Francisco do Sul — Gonneville garantiu que Içá-mirim tivesse uma vida confortável. Ele foi batizado de Binot Paulmier de Gonneville II, como se fosse filho do capitão.

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    Na Europa, foi apresentado como "príncipe das terras austrais", conforme pesquisa do historiador Sílvio Coelho dos Santos, publicada no livro Muito Além da Viagem de Gonneville. Já adulto, casou com uma parente do capitão e morreu com mais de 90 anos, na França.

    Descendente de Içá-Mirim no Brasil

    Em outubro de 2018, a francesa Dorothée de Linares, 45 anos, visitou São Francisco do Sul. Ela afirma ser uma descendente de Içá-mirim e, depois de duas décadas dedicadas a uma empresa de energia, decidiu deixar o emprego e pesquisar mais sobre o antepassado brasileiro para escrever um livro. Ela espera que, assim, ajude a preservar a cultura do índios brasileiros.

    — É uma situação dramática. Eles são invisíveis, não estão integrados ao resto do país. Na cidade que visitei, não os vi, a não ser pela família que se revezava entre pedir esmola e vender artesanato para os turistas no porto — contou Dorothée à Folha de São Paulo após retornar para a França.

    Reprodução do documento em português do relato de viagem de Binot de Gonneville
    O documento em português do relato de viagem de Binot de Gonneville
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    Como se sabe que Binot de Gonneville realmente estava em São Francisco do Sul?

    Segundo a historiadora Andréa de Oliveira, de São Francisco do Sul, esta é uma questão muito discutida pelos pesquisadores. O principal motivo para acreditar-se que o local onde a nau francesa aportou em 5 de janeiro de 1504 era São Francisco é que a localização oferecida por Gonneville em seu relato ao retornar para a França coincide exatamente com a cidade catarinense.

    — Ele deu as coordenadas e tudo indica que era nesta região. Até hoje se discute a precisão desta localização. Pode ter sido na Barra do Itapocu, por exemplo, ou na entrada de Tijucas. Não é possível dizer que ele aportou na Baía da Babitonga ou no Paulas, por exemplo, mas a teoria mais aceita é que ele estava em São Francisco do Sul — explica a historiadora.

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    Por que o aniversário de São Francisco do Sul não é comemorado oficialmente em 5 de janeiro e não se fala que a cidade tem 515 anos?

    Apesar de Binot de Gonneville ter permanecido por seis meses na região, ele não fundou uma cidade. Sua tripulação apenas permaneceu o tempo necessário para consertar o navio e voltar para casa.

    — Ele não levantou nenhuma edificação — afirma Andréa de Oliveira —, mas abriu rota para várias outras expedições que, sabe-se, passaram por São Francisco do Sul depois, entre 1504 e 1553. A ocupação de São Francisco do Sul só começaria mesmo em 1658, com a chegada de Manoel Lourenço de Andrade.

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