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Racismo

Entidades, associações e políticos se posicionam contra ataques racistas à vereadora em Joinville

A Polícia Civil instaurou um inquérito por injúria racial e ameaça

18/11/2020 - 20h21 - Atualizada em: 18/11/2020 - 20h22

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Patrícia
Por Patrícia Della Justina
Ana Lúcia Martins é a primeira vereadora negra eleita em Joinville
Ana Lúcia Martins é a primeira vereadora negra eleita em Joinville
(Foto: )

Diversas entidades, instituições e figuras políticas emitiram nota de repúdio durante esta quarta-feira (18) após os ataques racistas e ameaça de morte sofridos pela vereadora eleita Ana Lúcia Martins. Ela é a primeira mulher negra eleita na história de Joinville para compor o Legislativo. 

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Durante esta tarde, Ana Lúcia prestou depoimento na Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso (Dpcami) da cidade. A polícia instaurou inquérito por injúria racial e ameaça, após o boletim de ocorrência ser registrado pelos mesmos crimes. 

A delegada Cláudia Cristiane Gnçalves de Lima disse ao G1 nesta quarta-feira que a polícia ainda não tem a autoria do crime. 

- A priori é isso. O racismo a gente vai analisar posteriormente. Iniciamos agora a apuração dos fatos. Em relação à autoria, a gente ainda não tem - pontua. 

> “O racismo é velado em Joinville”, diz primeira vereadora negra eleita na cidade

Instituições, entidades e políticos prestam apoio à vereadora

O Partido dos Trabalhadores (PT) pelo qual a vereadora eleita é filiada emitiu nota de repúdio e exigiu que autoridades atuem de maneira rápida no intuito de descobrir e responsabilizar os autores, para que sejam levados à Justiça. O partido ainda deve reivindicar proteção efetiva à Ana Lúcia por parte das autoridades de segurança pública do estado, para garantia da integridade física da vereadora. O pedido ainda não foi formalizado. 

Confira o que diz a nota:

"O Partido dos Trabalhadores de Joinville repudia e denuncia as ameaças de morte e tentativa de intimidação motivadas por racismo contra a companheira Ana Lúcia Martins, recém-eleita vereadora, a primeira mulher negra na história de Joinville.

Logo que Ana Lúcia foi eleita, velhas práticas como o uso de violência para amedrontar e silenciar revelam o desespero e o ódio daqueles que não respeitam a diferença. Os comentários publicados nas redes sociais e as ameaças à companheira constituem um mecanismo de silenciamento e invisibilidade para impedir a denúncia, a reflexão e a crítica sobre o racismo.

Diante desse gravíssimo fato, manifestamos nossa solidariedade e apoio à companheira Ana Lúcia Martins e esperamos que as autoridades atuem de maneira rápida no intuito de descobrir e responsabilizar os autores, para que sejam levados à justiça. 

Reivindicamos proteção efetiva à Ana Lúcia por parte das autoridades de segurança pública do estado, para garantia da integridade física de nossa companheira.

Seguiremos na luta contra o racismo, em defesa da democracia e dos direitos humanos."

> Casos de racismo expõem desafios para combater o preconceito em SC

Vereador eleito Alisson Julio (Novo)

Alisson Julio (Novo), vereador eleito com o maior número de votos em Santa Catarina, também se posicionou repudiando o ato criminoso. 

- Ameaça é crime, racismo é crime e quem pratica é criminoso e deve ser punido. Não admito essas práticas com nenhuma pessoa. Minha solidariedade a vereadora eleita Ana Lucia Martins - escreveu em publicação nas redes sociais. 

Compir - Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial

"O COMPIR - Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial, vem a público REPUDIAR as injúrias raciais cometidas contra a recém eleita vereadora Ana Lúcia Martins, que no dia 15/11, alcançou com muita luta, a posição da primeira mulher preta, eleita DEMOCRATICAMENTE como vereadora na Cidade de Joinville. Nesse sentido o COMPIR pede RESPEITO a essa notória cidadã, que atingiu um marco histórico e que por esse motivo causa desconforto em uma parcela da sociedade; que outrora veladamente, mas agora abertamente pelos meios virtuais, - luta para rebaixar a população negra que por mais 300 anos foi tratada como mercadoria e que mesmo após a sua "liberdade" " continua lutando pelo merecido espaço social. Sendo parte dessa luta, o COMPIR se compromete em acompanhar e denunciar a nível federal esses sujeitos (pseudos formadores de opiniões) que estão se opondo a igualdade racial, na tentativa de novamente jogar o povo preto para senzala. TEMOS POR CERTO QUE NÃO CONSEGUIRÃO E DECLARAMOS PARA QUE TODOS SAIBAM QUE ANA LÚCIA MARTINS, É UM ORGULHO PARA O POVO PRETO DE JOINVILLE!"

Centro dos Direitos Humanos de Joinville Maria da Graça Bráz

Nota emitida pelo CDH
Nota emitida pelo CDH
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Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil

"O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) e a Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político, constituída por 96 organizações com forte histórico de compromisso com a democracia, expressam sua irrestrita solidariedade à Ana Lúcia Martins, primeira vereadora negra eleita no município de Joinville/SC.

 Ana Lúcia é reconhecida no estado de Santa Catarina e em nível nacional pelo seu engajamento e compromisso contra o racismo, pelos imigrantes haitianos, impactados pela xenofobia e pela dignidade das mulheres negras, que são as mais impactadas pelas violências racista e patriarcal.

 O resultado das eleições do dia 15 de outubro indica que há um desejo de ruptura com a cultura do ódio e com as polarizações. 

 Exemplo disso, foram os mandatos coletivos - que cresceram e ganharam destaque -, o avanço, ainda que pequeno, de mulheres candidatas e eleitas, sem contar as pessoas trans que conseguiram vagas nas casas legislativas municipais. 

 Entre as muitas surpresas do último processo eleitoral, um deles foi que a associação de candidatos a um “título religioso” não significou vitória automática, nem reeleição garantida. Isso mostrou que os cidadãos e cidadãs estão cada vez mais conscientes de que o voto não deve ser tutelado.

 A segunda surpresa foi a eleição de pessoas que representam grupos socialmente vulnerabilizados e excluídos da política representativa. A eleição de mulheres negras e jovens, de mulheres trans e representações indígenas indicam que há uma mudança social em curso que aponta para a necessidade de ruptura com a política patrimonialista, racista e patriarcal. Entre as variáveis que indicam se uma democracia é forte ou não, é a pluralidade das representações políticas. 

 Historicamente, esta variável indica que nossa democracia é caracterizada pela total ausência de representações que expressam a pluralidade da sociedade brasileira. Talvez esta seja a primeira eleição que aponta a possibilidade de transformarmos esta característica da política representativa.

 O Brasil tem uma dívida histórica com as populações negras, indígenas e trans. Garantir que os espaços institucionais de representação política sejam reflexo da sociedade é um passo fundamental para repararmos esta dívida. Não há democracia em um país representado por uma pequena elite política identificada e comprometida com agendas políticas que não possibilitam as transformações estruturais necessárias para o aprofundamento da democracia.

 Não aceitaremos as ameaças, intimidações e desmerecimento da importância da eleição de Ana Lúcia e de nenhuma outra pessoa e mandato coletivo eleitos pela organização e luta dos grupos vulnerabilizados.

> Você tem direito: Lute contra a discriminação

 Exigimos que as instituições responsáveis por investigar estas denúncias realizem apurações sérias e transparentes e que as pessoas responsáveis pelas ameaças sejam responsabilizadas nos termos da lei. 

 Da mesma forma, repudiamos a tentativa de algumas lideranças políticas, levantar suspeitas sobre o resultado das eleições, insinuando, sem provas, que houve fraude no processo eleitoral.

 Quero me ver no poder, foi a afirmação que animou a luta pela democratização do poder ao longo do processo eleitoral. Agora afirmamos, nos manteremos no poder porque a democracia nos garante este direito."

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