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    Em entrevista, músico catarinense Carlos Trilha fala sobre a carreira e o desejo de retornar para Florianópolis

    O manezinho, que mora há 31 anos no Rio de Janeiro, ficou conhecido nacionalmente tocando com nomes como Renato Russo, Leo Jaime e Marisa Monte

    30/08/2020 - 12h00 - Atualizada em: 30/08/2020 - 14h42

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    Por Janaína Laurindo
    Aos 50 anos, o músico diz viver o momento mais criativo.
    Aos 50 anos, o músico diz viver o momento mais criativo.
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    O músico catarinense Carlos Trilha já rodou o mundo com a profissão que escolheu aos 12 anos. Acompanhando e produzindo músicos como Renato Russo, Léo Jaime, Jerry Adriani, Lobão e Marisa Monte ele vendeu mais de 6 milhões de cópias, ganhou 10 Discos de Ouro, três de Platina, dois de Platina Duplo, um de Platina Triplo e um de Diamante. Recebeu o título de produtor musical brasileiro mais jovem, aos 25 anos, ao chegar na marca de 1 milhão de cópias vendidas.

    Aos 50 anos, diz viver o momento mais criativo. Feliz com o caminho que trilhou na música, o instrumentista celebra também a realização de outro sonho: a aviação. Receberá em setembro o diploma em Ciências Aeronáuticas. Após 31 anos morando no Rio de Janeiro, Trilha em breve desembarcará em Florianópolis com esposa, Alessandra Marfisa, onde deve arrendar um estúdio e planeja construir o próprio avião.

    Os planos “possíveis, mais não fáceis”, movem esse catarinense que assinou a produção do primeiro álbum solo de Renato Russo, The Stonewall Celebration Concert (1994), trabalho que foi um marco no movimento LGBTI no Brasil, pois colocava luz na revolta que aconteceu em 1969, em Nova York, oposto a violência policial contra gays e que deu origem ao Dia do orgulho LGBTI.

    Trilha, a esquerda de Renato Russo, na gravação de The Stonewall Celebration Concert.
    Trilha, a esquerda de Renato Russo, na gravação de The Stonewall Celebration Concert.
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    Em conversa, por telefone, ele falou sobre a trajetória de sucesso, dos grandes encontros que a música o proporcionou, da fase criativa que está vivendo, dos planos para o futuro e também sobre sua paixão pela aviação. Confira:

    Quando começou o interesse pela música?

    Quando consegui ficar em pé, acho que a primeira coisa que fiz foi caminhar até uma pianola, que é tipo um mini órgão de madeira, um instrumento dos anos 1960, que tinha sido do meu irmão. Lembro de ter tido contato com esse instrumento, sem entender nada obviamente, mas sempre interessado pelo som. Aos 9, uma tia minha, que é pianista, me viu tocar e resolveu me levar para aula de piano. Uma vez por semana íamos à casa de uma outra tia, Rita de Cássia Peiter, uma pianista incrível, que era professora, e assim iniciei os estudos de piano e música erudita. Minha família por parte de pai tem origem polonesa e alemã, e tem essa tradição dos pianos em casa e das mulheres tocando. Por parte de mãe é alemã e espanhola - a parte dos Trilha’s – e também eram ligados à música, mais na área da música popular.

    Quando consegui ficar em pé, acho que a primeira coisa que fiz foi caminhar até uma pianola, que tinha sido do meu irmão. 

    Mesmo com essa influência familiar fui o único que passou a viver disso efetivamente. Tenho um irmão economista, que mora na Argentina, e uma irmã que é agrônoma. Eles nunca pensaram em seguir na música, mas ficavam felizes com o meu interesse. Meu irmão mais velho, por exemplo, me influenciou muito na música. Os discos que ele ouvia, eu escutava escondido quando ele saia. Eram os “discos proibidos”. Eram os álbuns do Vangelis, Pink Floyd, esse tipo de música. Já meu pai ouvia muito MPB – Milton Nascimento, Maria Bethania e Chico Buarque. Minha irmã era fã da banda Cor do Som. Então, sempre teve muita música em casa. Meu pai tinha uma coleção bem boa de discos.

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    E em que momento você decidiu que faria isso profissionalmente?

    Com 12 anos decidi o que ia fazer na vida. Eu já tocava. Me achava o pianista da minha rua (risos). Mas lembro que dei uma evoluída bem rápida. Eu me apresentei pela primeira vez ainda aos 9 anos, três meses após começar as aulas. Acostumei logo com aquele estresse da apresentação ao vivo. Quando você é criança e você se envolve com a música de forma intelectual e emocional, a reação das pessoas te incentiva a continuar a fazer aquilo. Foi por isso, que aos 12 anos, quando me perguntaram na escola o que iria ser, disse: “vou ser músico”.

    Aos 13 anos já estava tocando em uma banda de rock. A música sempre foi me levando para as coisas, e tudo foi acontecendo naturalmente. Assim como no início foi minha tia que me levou para as aulas de piano, certo dia eu estava em um aniversário na casa de um vizinho e um menino mais velho, devia ter uns 20, me chamou para tocar na bandinha do irmão dele, que tinha mais ou menos a minha idade. Mas quando me viu tocando disse: “Acho que tu vais tocar na minha banda”. Foi assim que entrei, aos 13 anos, na banda que se chamava Methalmophose.

    A música sempre foi me levando para as coisas, e tudo foi acontecendo naturalmente.

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    Em 1984, com a primeira banda de rock.
    Em 1984, com a primeira banda de rock.
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    Em que momento sentiu necessidade de deixar Santa Catarina?

    Eu estava fazendo faculdade de Música na Udesc, no segundo período, quando fui chamado para tocar com o Leo Jaime. Sempre tive vontade de deixar a cidade – agora estou com vontade de voltar, meu sonho agora é morar em Floripa (risos). 

    Tem planos para o retorno?

    Sim, é um desejo sério. Tem um estúdio grande lá na Palhoça e estou pensando arrendar por uns dois anos e ficar nesse período. Será uma experiência. Porque com esse lance da pandemia, percebi de uma vez por todas que geograficamente, isso não faz mais diferença. Por exemplo, agora estou trabalhando com gente de São Paulo, Recife, Florianópolis, aqui do Rio de Janeiro mesmo não são 10% das coisas que estou trabalhando.

    Você falou que está trabalhando com um pessoal aqui de Florianópolis, pode falar pouco sobre este e os outros projetos que está tocando neste momento?

    Bom, trabalhei nos três últimos discos do Dazaranha, produzi agora o disco do Uniclãs e estou trabalhando também em um projeto de um compositor da Ilha – mas não sei ainda se posso falar (risos). Também estou produzindo com um cara de Joinville. Dos meus outros trabalhos, estou produzindo muito com o Pupillo (que era da Nação Zumbi), que é do Recife, mas está em São Paulo. Tenho outro trabalho com a Nação Zumbi, que chama Los Sebosos Postizos, também em São Paulo e aqui no Rio estou produzindo o disco do Pedro Baby (filho da Baby Consuelo e Pepeu Gomes). Também estou produzindo um disco de uma jovem cantora para a gravadora LGK Music. Estou produzindo um cantor de soul muito incrível aqui no Rio também. Bom, estou num momento bem criativo, com sede de trabalhos que me instiguem musicalmente.

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    Em seu estúdio, no Rio de janeiro, produzindo a banda catarinense Dazaranha.
    Em seu estúdio, no Rio de janeiro, produzindo a banda catarinense Dazaranha.
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    Bom, estou num momento bem criativo, com sede de trabalhos que me instiguem musicalmente.

    Mesmo com as restrições impostas pela pandemia o ritmo de trabalho se manteve?

    O meu trabalho é muito solitário. Ele tem o momento de captação. Por exemplo, o Uniclãs ficou 11 dias por aqui para produção do álbum, depois trabalhei três meses sozinho. Tenho amigos que são ótimos músicos e que possuem estúdios em casa. Agora, por exemplo, produzi uma faixa de uma menina do Paraná, onde ela gravou em Londrina – mandou violão e voz – eu gravei os arranjos, mandei para um amigo baixista, mandei para outro para gravar os violões.

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    Claro, nesse processo vou orientando. Também toco muitos instrumentos – violão, guitarra, bateria, baixo – faço arranjos para cordas, programo... Mil e uma utilidades (risos). O que está acontecendo é que preciso tocar mais. Estou terminando a produção de um cantor que chama Daniel Tendler, que é um execelente compositor. É o primeiro álbum dele e estou tocando vários instrumentos. O baterista gravou e resolvi acrescentar outras peças e acabei tocando uma parte. Está sendo musicalmente mais produtivo esse período. A cabeça, às vezes, fica um pouco ruim, porque a minha esposa viajou (foi ficar com a mãe) e fiquei dois meses praticamente sozinho. Foi nesse momento que surgiu a vontade de voltar para Florianópolis.

    Você apostou em música eletrônica em um período em que poucos músicos investiam nessa área. Essa visão teve a ver com o desafio de desbravar esse espaço ou apenas uma afinidade com a sonoridade?

    Na verdade, sempre tive algumas facetas na música. Comecei tocando música erudita, depois fui tocar em uma banda de rock, ali passei a ter essa vivência de tocar piano rock and roll, mas o que me levou para os teclados foi o fato de que eu era muito fã do Vangelis e Pink Floyd e por isso acabei me interessando muito por essa coisa dos sintetizadores. Quando cheguei ao Rio para tocar com o Leo Jaime, me valeu mais a experiência de pianista de rock. Foi nesse período que me aproximei da turma do rock. A banda que estava tocando com o Leo Jaime era a mesma que tinha tocado antes com o Cazuza, que também eram ligados ao Kid Abelha. Era tudo uma turma só, aqui da Zona Sul. Tive essa sorte, acabei tocando com Kid Abelha e depois com o Legião.

    Em 2019, ensaiando para um concerto em São Paulo.
    Em 2019, ensaiando para um concerto em São Paulo.
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    Podemos dizer que tocar no Legião Urbana foi o ápice da sua carreira?

    Foi, sim. Na verdade, tive vários momentos importantes na carreira. Como falei, a música sempre me levou. Era um telefone que tocava, um convite que surgia. Mas a vinda aqui para o Rio não só desejei, também semeei. Abri o show do Gilberto Gil e emprestei meu setup de teclados para o William Magalhães, que era músico do Gil e fiz amizade com ele. Certa vez ele me chamou para um show que faria com o Léo Gandelman, no CIC, daí já levei um material meu e deixei com eles. Quer dizer, a música foi chamando, mas foi preciso dar uma semeada.

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    Tempo depois estive no Rio com um amigo e entrei em contato com o Gandelman. Por coincidência, um tempo depois o Leo Jaime perguntou para ele sobre um tecladista, e mesmo ele sem nunca ter me ouvido tocar, porque como foi o William que falou de mim, ele me indicou. Então, fui bem indicado, pelo Leo Gandelman, que era o cara. Um músico respeitado.

    Cheguei ao Rio e me adaptei bem ao mercado e ao ambiente musical. Toquei de 1989 a 1991 com o Leo Jaime e nesse período fiz alguns shows grandes, coletivos, tocando com vários artistas, e fui ficando bem conhecido no meio musical. Era bem jovem, tinha bons instrumentos, bem responsável, chegava sempre sabendo as coisas no ensaio, e aí o Mú Carvalho (que era da A Cor do Som) me indicou para tocar com o Legião Urbana. Isso no final de 1991.

    Cheguei ao Rio e me adaptei bem ao mercado e ao ambiente musical.
    Ensaio com Legião Urbana, em 1994.
    Ensaio com Legião Urbana, em 1994.
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    Que lembranças você tem desse período?

    Ah, lembro de absolutamente tudo. Dá para escrever um livro. Lembro que cheguei no primeiro dia de ensaio sabendo uma parte muito grande do repertório e tinha conhecimento em síntese, por conta do meu interesse em música eletrônica. Cheguei com os timbres idênticos aos originais, alguns até com o próprio timbre original, porque dei uma sorte, o disco que eles tinham acabado de tocar, os equipamentos que eles tinham usados eram idênticos aos meus. Renato adorou.

    Foi engraçado porque cheguei para ele e falei: “Olha só, Renato, sou roqueiro, toco simples, mas já tirei todo o repertório e já preparei os sons”. Daí ele respondeu: “Ih, nem se preocupe, nós vamos ficar meses aqui”. Quer dizer, eles não estavam sabendo tocar nada, estavam se reencontrando, iam começar as sessões de ensaio, mas eu já estava preparado.

    Você esteve na produção do primeiro álbum do Renato fora do Legião, The Stonewall Celebration Concert, que foi um marco na do movimento LGBTI no Brasil. O que esse trabalho significou para você, como músico?

    Em 1993, o Renato me chamou para fazer um concerto de piano e voz, que veio se tornar o álbum, para arrecadar fundos para a campanha contra a fome do Betinho. Na época, ninguém falava sobre isso, era um grito de uma voz só. Eu também não tinha essa noção da parte política daquilo que estava participando. Eu tinha a consciência da parte musical. Renato me explicou a história da revolta de Stonewall, mas eu não tinha consciência da importância daquilo que ele estava fazendo, só consegui entender anos depois. Esse trabalho completou a minha formação. Ele foi muito desafiador musicalmente. Eram grandes compositores do cancioneiro americano, coisas bem complexas de harmonia, músicas da Broadway, esse tipo de coisa. Era um universo que eu não tinha absolutamente nenhum contato e que acrescentou na minha construção como músico.

    “O som dos sintetizadores nos tira da realidade, seduz a imaginação, oferecendo um voo livre para ela”, é uma frase sua muito poética e que fala sobre o sentido da música. Você acredita que a música de forma geral tem o poder de tocar as pessoas e de tirá-las da realidade, ser um alento, por exemplo, em momento como este que estamos vivendo?

    A música tem esse poder. Ela nos traz diversas lembranças. Às vezes, podem ser ruins, uma saudade, uma tristeza, uma melancolia, às vezes, uma alegria, mas sempre tem essa ligação emocional, inclusive as coisas que a gente detesta e não quer ouvir de jeito nenhum. Age direto no emocional. Muitas vezes a letra te diz alguma coisa, uma frase que te toca, que é o mais comum – aliás, não ouçam o The Stonewall Celebration Concert com dor de cotovelo (risos).

    Falando no voo da imaginação, também podemos entrar em outra área que você domina que é a aviação. Como começou o contato com esse meio?

    Antes de falar que seria músico dizia que seria piloto de avião. Lá em casa, meu pai e meu irmão, nós sempre falamos sobre a aviação e sempre foi um desejo a minha vida inteira. Quando tinha 23 anos cheguei a fazer um curso teórico, mas até os meus 40 eu ainda não tinha realizado o sonho de pilotar. Aos 37, fiz uma turnê com a Marisa Monte e numa delas cruzei com um sanfoneiro chamado Waldonys, que é piloto acrobata. Ele me levou para fazer um voo em 2007, e isso mexeu muito com a minha cabeça.

    Quando completei 40 anos, minha esposa me deu de presente um voo de planador. Engraçado que no caminho – sem saber para onde estávamos indo, porque foi surpresa – falei para ela, quando passamos no aeroporto, que precisava resolver esse negócio da aviação na minha vida. Nisso se passaram mais uns anos, quando fiz 43, ela colocou a vela com a minha idade embaixo da televisão, e perguntei para ela o porquê daquilo. Ela me disse: “É para lembrares que estais demorando para resolver a tua questão com a aviação”.

    Trilha e a esposa Alessandra.
    Trilha e a esposa Alessandra.
    (Foto: )

    Como já tinha feito o curso anos antes, comecei novamente a fazer o teórico. Fiz um curso oficial em que fui o aluno com o melhor aproveitamento da história, a minha média final foi 98. Agora, estou voando desde 2014 e acabei fazendo curso de Ciências Aeronáuticas, na Unisul, e vou me formar agora em setembro.

    Os desafios te movem?

    Quer ver me ver feliz, é com um equipamento novo para aprender (risos).

    E quais os próximos desafios?

    Tenho vontade de fazer um espetáculo com sintetizadores junto com orquestra e fazer uma excursão pela Europa, Japão e Austrália com o projeto. É um grande sonho. E na aviação é construir meu próprio avião e fazer esses traslados no meu avião (risos). Na verdade, tenho estudado bastante o assunto e o meio, e é tudo possível, porque gosto de ter sonhos possíveis. Tem que ser possível, mas não fácil. O caminho que busco para as coisas não é o mais fácil.

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