Uma funcionária que trabalha na funerária envolvida no erro que levou a troca de corpos em Florianópolis denunciou que, depois que o equívoco foi constatado, servidores públicos do Instituto Geral de Perícias (IGP) teriam sugerido que os corpos permanecessem trocados, sem que as famílias fossem comunicadas, para evitar que o erro fosse descoberto.

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Aline Thaise Nunes Mikna afirmou que, quando foi até à Polícia Científica ao lado do gerente da outra funerária envolvida depois que viu que a documentação entregue para a funerária em que trabalha estavam corretos, mas os corpos das vítimas trocados.

— Foi sugerido a questão de fazer continuar da maneira que estava, esconder o erro. Que lacrasse a urna, entregasse pro velório normalmente para a família e, depois, posteriormente fizesse o sepultamento. Assim nenhum dos três casos seriam descobertos, o erro não seria descoberto. Então a gente se recusou a fazer isso — revelou a funcionária.

Ela, que trabalha há 13 anos no setor funerário, afirmou que “nunca tinha visto” um erro desse tipo.

— Foi extremamente desgastante, você ver o que as famílias estão passando, você como ser humano se colocar no lugar, tem empatia — disse.

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Procurada pela reportagem, a Polícia Científica negou que a proposta tenha sido feita.

Corpos foram recolhidos na mesma viatura

Três homens tiveram os corpos trocados. Juliano Henrique Guadagnin, de 24 anos, morreu em um acidente de moto no dia 9 de abril. No mesmo dia, outros dois homens, Denner Dario Colodina, de 29 anos, e Patrick Nunes Ferreira, de 33, foram encontrados mortos em São José, em casos investigados como homicídio. Os três corpos foram recolhidos pela mesma viatura e encaminhados ao Instituto Geral de Perícias (IGP) da capital.

Dois dos corpos foram liberados pelo Instituto Médico Legal (IML) já no dia seguinte, com direcionamento para as funerárias e, a partir disso, fossem feitas cerimônias de despedida. O corpo de Denner foi sepultado no Cemitério do Rio Vermelho no lugar do corpo de Juliano no mesmo dia. Já o corpo de Patrick foi sepultado no lugar de Denner, ambos em caixões fechados. O corpo de Juliano ficou retido no IML.

Mônica Raquel Guadagnin, mãe de Juliano, disse que recebeu uma ligação da funerária, sendo informada de que havia ocorrido “um problema com o IML”, e que ela precisava retornar à Central de Óbitos.

— Velar e sepultar um filho já é uma dor que não se acaba. Mas eu passei por isso duas vezes. Eu carreguei o caixão de uma outra pessoa achando que era meu filho — relatou Mônica.

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Uma familiar de Denner, que preferiu não se identificar, descreveu a sensação de reviver o processo de enterrar novamente um familiar como “se a pessoa tivesse morrido duas vezes”.

Tudo veio à tona quando a família de Patrick foi até o IML para identificar o corpo. Para o advogado da funerária, a responsabilidade pela conferência e entrega correta dos corpos cabe aos servidores do IML, e não aos agentes funerários. Isso porque os plantonistas do IML afirmam, no Relatório de Plantão do IML, o qual a reportagem teve acesso, atribuem a responsabilidade ao agente funerário.

No documento, os funcionários dizem que, apesar de ter sido indicada a localização correta dos corpos, o profissional teria retirado equivocadamente o corpo de Patrick, acreditando se tratar de Juliano. Isso teria acontecido, segundo o documento, quando uma servidora do IML fazia o armazenamento de cartões de coleta de material genético e a higienização da sala de necropsia.

“Erro operacional”, diz Polícia Científica

Em nota, a Polícia Científica de Santa Catarina reconheceu que houve um erro operacional na unidade de Florianópolis durante a liberação dos corpos. A instituição pediu desculpas às famílias, manifestou condolências e informou que o próprio sistema interno identificou a inconsistência. Segundo a nota, providências imediatas foram tomadas para corrigir a situação e o caso está sob apuração da Corregedoria.

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A Polícia Científica também informou que iniciou revisões nos protocolos e procedimentos de custódia, identificação e liberação de corpos, com o objetivo de reforçar os controles e evitar que situações semelhantes voltem a ocorrer.

Veja na íntegra

“A Polícia Científica de Santa Catarina (PCISC) vem a público reconhecer, com transparência e responsabilidade institucional, que ocorreu um erro operacional na unidade de Florianópolis durante a liberação dos corpos. A PCISC lamenta profundamente o ocorrido e exterioriza suas sinceras condolências e pedido de desculpas às famílias afetadas, que atravessam um momento de dor e merecem todo o respeito e o compromisso desta instituição.

Importa destacar que o próprio sistema procedimental de controle interno da PCISC foi responsável pela identificação da inconsistência. Detectado o equívoco, foram imediatamente adotadas as providências necessárias para a correção da situação, com a devida comunicação e acompanhamento às famílias envolvidas.

O caso encontra-se sob apuração interna, instaurada pela Corregedoria da Polícia Científica de Santa Catarina, com vistas a identificar com precisão as causas do ocorrido, identificar responsabilidades e determinar as medidas disciplinares e preventivas cabíveis. A PCISC reitera seu compromisso com a integridade, a ética e a responsabilidade em todas as suas ações.

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Em decorrência do ocorrido, foram imediatamente iniciadas revisões nos protocolos e procedimentos operacionais relativos à custódia, identificação e liberação de corpos, com o objetivo de reforçar os controles rígidos já existentes e implementar novas salvaguardas. A instituição está determinada a assegurar que situações desta natureza não voltem a ocorrer.

A Polícia Científica de Santa Catarina realiza, anualmente, mais de 5.000 exames de necropsia em todo o Estado, prestados com rigor técnico, profissionalismo, zelo e dedicação por equipes altamente qualificadas. O episódio ora noticiado representa uma exceção lamentável no histórico da instituição, com medidas imediatas adotadas para que algo semelhante nunca volte a se repetir”.