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Pouca chuva

Estiagem impacta abastecimento de água, geração de energia e safra no Oeste de Santa Catarina 

Há transporte de água com caminhão-pipa em Concórdia e Águas Frias

11/03/2020 - 18h25 - Atualizada em: 12/03/2020 - 11h25

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Darci
Por Darci Debona
Transporte de água em Concórdia
Em Concórdia prefeitura leva 220 mil litros de água por dia, para 40 propriedades
(Foto: )

A falta de chuva neste início de 2020 está afetando o abastecimento de água, a geração de energia e também a produção e grãos, principalmente no Oeste de Santa Catarina. Em alguns municípios, como Concórdia, não chove há 16 dias.

Na área urbana o município mais afetado é Águas Frias, onde os dois poços tiveram uma redução na vazão de 20 a 30% e o abastecimento precisou ser complementado com seis viagens diárias de caminhão-pipa, que busca água num hidrante de Nova Erechim e esvazia no reservatório do município vizinho.

Uma das pessoas que sofre com a escassez de água é a catadora de material reciclável Onilda Matozzo. Ela afirmou que já teve dias em que veio água apenas uma hora por dia.

De acordo com o superintendente regional de negócios da Casan, Daniel Scharf, essa é a única cidade atendida pela estatal com problema na área urbana.

- Estamos monitorando a situação das outras cidades mas por enquanto não há problema. Em Águas Frias estamos estudando duas opções, uma é a perfuração de um poço e outra é interligar Nova Erechim com Águas Frias, com uma tubulação – destacou.

Em outros municípios como Seara e Concórdia está sendo feito o transporte para propriedades do interior. Em Seara são 40 mil a 50 mil litros transportados por dia, para 25 propriedades rurais, mais 30 mil litros para consumo humano, atendendo 18 famílias. De acordo com o coordenador da Defesa Civil do município, Carlos Paludo, a situação se agrava a cada dia.

Em Concórdia são 220 mil litros por dia, em dois caminhões, que fazem dez viagens cada um por dia. São cerca de 40 famílias atendidas, para consumo humano e animal, segundo o secretário da Agricultura, Mauro Martini.

— Tem umas dez propriedades que eram sítios e que tinham fontes que secaram e estão sem água para o consumo humano. Outras não têm água para os animais. Já levamos mais de dois milhões de litros de água e fizemos mais de quatro mil quilômetros somente até o final de fevereiro. Se continuar assim não vamos conseguir atender os pedidos. O pessoal também vai ter que rever o alojamento dos animais se não tiver água – disse o secretário.

Agroindústria busca água no lago de Itá

A BRF também está buscando água no lago de Itá para manter a produção. São 35 carretas que fazem seis viagens com 38 mil litros por dia, cada uma. Em nota a empresa afirmou que começou o transporte no dia 19 de fevereiro, devido à estiagem na região, com o objetivo de manter a produção. A empresa disse que está fazendo o uso consciente da água.

De acordo com dados da estação meteorológica da Embrapa Suínos e Aves de Concórdia, não chove desde o dia 26 de fevereiro. São duas semanas sem uma gota de água. E em fevereiro choveram apenas oito dias, sendo quatro com mais de dez milímetros. A maioria da chuva se concentrou em dois dias, 25, com 26 milímetros, e 26, com 39 milímetros.

O pesquisador da área de recursos hídricos da Embrapa e presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do rio Jacutina, Alexandre Mathiensen, disse que o problema é a má distribuição das chuvas.

— Nós tivemos chuva abaixo do normal de maio a setembro do ano passado, depois mais uma estiagem no final do ano e, agora, novamente. Mas o problema é que a chuva tem sido concentrada em menos dias. Fizemos um estudo das três décadas de chuva em Concórdia e, percebemos de, de 1990 a 1999 tivermos 65 dias com chuvas com mais de 50 milímetros, na década de 2000 a 2009 foram 72 dias e, de 2010 a 2019 foram 80 dias – informou.

De acordo com o meteorologista da NSC Comunicação, Leandro Puchalski, o período de análise é curto, o ideal seria de um período de pelo menos 50 anos, mas é um dado que vai ao encontro a uma tendência observada de aumento dos extremos no clima.

Geração de energia é suspensa em alguns períodos

A falta de chuva também está afetando a geração de energia. A usina Foz do Chapecó, no rio Uruguai, entre Águas de Chapecó e Alpestre, tem suspendido a geração de energia até por mais de um dia, por falta de água. E, quando funciona, gera com apenas uma das quatro turbinas, que tem potencial para 855 megawatts. Isso representa 25% da demanda de Santa Catarina.

A hidrelétrica de Itá, também no rio Uruguai, entre Itá e Aratiba-RS, também tem gerado pouca energia. Nos últimos dias a geração tem permanecido abaixo de 200 megawatts, para um potencial instalado de 1450 megawatts.

Em Itapiranga uma balsa encalhou no final de semana devido ao baixo leito do rio.

No campo também há prejuízos. De acordo com a analista do Centro de Socieconomia e Planejamento Agrícola da Epagri, Gláucia Padrão, a quebra da safra de milho, que era estimada em 7,7%, o que representava uma redução de cerca de 200 mil toneladas, vai subir para 9%, ficando em 2,5 milhões de toneladas.

Na soja a quebra será próxima de 5% e ficará em 2,3 milhões de toneladas. As regiões mais atingidas são de Curitibanos, Campos Novos, Concórdia e Chapecó. Mesmo assim ela disse que não será uma safra ruim, pois não atingiram todo o estado.

Previsão de pouca chuva

De acordo com o meteorologista da NSC Comunicação, Leandro Puchalski, a previsão é de pouca chuva para o Oeste.

- Só na semana que vem e mal distribuída. Algo melhor distribuído só na semana seguinte. A tendêcia nos próximos meses é de que teremos distribuição de chuva ainda um pouco abaixo do padrão da época. Lembrando que a média de chuva dos meses de abril e maio é mais baixa dos que nos meses de verão, em torno de 130 a 150 milímetros por mês, abaixo dos 150 a 190 milímetros dos meses de verão - disse Puchalski.

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