Dos muros altos, silêncio e oração à vida de casada. É possível dizer que a história da moradora de Itajaí, Grasiele Loureiro, é cheia de reviravoltas dignas de filme. Ex-freira carmelita de clausura, a agora empresária e esposa divide as curiosidades da rotina que tinha no convento nas redes sociais. Um dos vídeos tem quase meio milhão de visualizações.

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Grasiele tem 43 anos, é carioca, mas se mudou com a família para a cidade litorânea catarinense no começo da adolescência. Criada em um ambiente de muita devoção, sentiu que precisava ser mais presente na igreja. Começou como missionária, mas queria ir além. Em 2008, ela era noiva e formada em Publicidade quando decidiu romper com o companheiro e deixar o serviço público para o qual havia prestado concurso.

— Enquanto missionária eu sentia falta de silêncio, de mais momentos de oração. Aí eu conheci a vida contemplativa. Eu falei: “Nossa, era isso que eu procurava” — lembra.

O tempo, porém, mostrou o contrário.

No Carmelo, as freiras passam a maior parte do dia em completo silêncio, na chamada contemplação. Sem saber o que ocorria do lado de fora, os momentos de conversa entre elas eram poucos e os trabalhos manuais serviam como passatempo, assim como as leituras, nos intervalos das orações.

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— A gente vivia pra rezar. Era uma entrega total, mas também um isolamento completo — lembra.

Com o tempo, passou a se incomodar com situações internas do convento e entrou em um quadro depressivo. Mais de dois anos depois, decidiu voltar para casa. Envergonhada com o “fracasso” e assustada com o mundo fora da clausura, praticamente viveu escondida das pessoas.

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Depois de meses, pediu uma segunda chance e foi para um Carmelo em Santa Catarina. Saiu depois de cerca de dois anos e tentou a última vez em outro em Porto Alegre. Pouco mais de um ano depois retornou ao imóvel dos pais e aceitou que lhe faltava vocação.

Grasiele teve que se reinventar para encarar o mundo real e principalmente o mercado de trabalho. Estudou novamente para um concurso público, tempos depois passou e aos poucos foi se permitindo viver de fato. Um grande amigo se tornou um amor. Logo veio o noivado e mais uma reviravolta.

O ex-parceiro a abandonou no dia do casamento no civil. Quatro meses depois, porém, conheceu um novo pretendente na igreja. Hoje casados, os dois estão juntos há sete anos. Do matrimônio veio o desejo da maternidade, mas um diagnóstico de infertilidade depois de uma perda gestacional mudou os planos. Atualmente o casal está na fila da adoção.

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— Depois do Carmelo você enxerga a vida de outra forma, o trabalho de outra forma… Você vê tudo como um meio e não mais como um fim, entende que só estamos de passagem — reflete.

Apesar de não ser mais freira, Grasiele segue ativa na igreja. Recentemente abriu uma escolinha católica de contraturno, negócio que tem tomado como missão de vida. São os filhos que não teve, descreve. Ela também é dona de uma empresa de marketing digital.

Entre planilhas, reuniões e planos, a ex-freira olha para trás com serenidade. Viveu dois mundos completamente diferentes, mas entendeu que o chamado pode mudar, ainda que o propósito seja sempre o mesmo.