Aos 47 anos, Andreza Mendes sente os sintomas da menopausa há mais de um ano. Os fogachos — os chamados “calorões” —, dores de cabeça e náuseas já fazem parte da rotina. A opção para melhorar os sintomas seria a terapia de reposição hormonal (TRH). Ela procurou pela alternativa há cerca de seis meses no Sistema Único de Saúde (SUS), mas sem sucesso. Isto porque o tratamento não é disponibilizado pela rede pública.

Continua depois da publicidade

Conforme a Diretora de Assistência Farmacêutica Estadual de Santa Catarina, não há programas e protocolos nacionais, dentro do SUS, de medicamentos para o atendimento de pacientes na menopausa.

A solução, então, seria migrar para o particular. No entanto, Andreza, assim como outras catarinenses, esbarram em um problema: o valor elevado dos remédios usados para o tratamento.

Medicamento pode custar até R$ 215

Existem maneiras diferentes de fazer a reposição hormonal, que pode ocorrer por meio de comprimidos, géis ou adesivos aplicados à pele. A ginecologista Maria Luiza Nagel, que atua em Florianópolis, explica que o tratamento é individualizado. Ou seja, os hormônios usados, a dosagem, a forma de administração e o tempo de uso são determinados pelo médico após uma avaliação que leva em conta as necessidades individuais da paciente.

Os remédios, que podem ser comprados em qualquer farmácia, variam nos preços. A combinação dos medicamentos Oestrogel + Utrogestan 200mg, normalmente receitada pela médica, pode sair entre R$ 180 e R$ 210. Já o Natifa Pro, outro medicamento para a reposição hormonal, varia entre R$ 76 e R$ 99. Dos exemplos dado pela ginecologista, a combinação Lenzetto + Utrogestan é a mais cara, saindo por R$ 251.

Continua depois da publicidade

Maria Luiza diz que costuma prescrever também os adesivos. O Systen Conti, por exemplo, fica entre R$ 120 e R$ 170 — a depender da farmácia e região. Já o Systen + Utrogestan, outro tipo de adesivo, pode sair a R$ 169, dependendo da quantidade de cápsulas e da concentração.

Para algumas mulheres, o valor do tratamento pode pesar no orçamento. Andreza Mendes, por exemplo, trabalha como copeira em um órgão público de Florianópolis e recebe R$ 1.500 por mês, morando com os dois filhos de 15 e 23 anos.

Como não consegue arcar com o tratamento, Andreza teve que encontrar outras alternativas para lidar com os sintomas da menopausa, que incluem conversas com amigas que estão passando pela mesma fase e até chás “da internet”.

— Já procurei outras amigas para saber como é que elas estão, e os sintomas praticamente são todos os mesmos. A nossa terapia é conversar uma com a outra sobre isso, e tomar muito chá. A gente pesquisa na internet os que aliviam esses sintomas. Ouvimos falar muito em reposição hormonal, mas o sistema de saúde é demorado. Então a gente faz daquele jeitinho brasileiro, né? Procura na internet — conta.

Continua depois da publicidade

O médico Evaldo dos Santos, do departamento de ginecologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), diz que o uso dos chás, principalmente o de amora branca, é uma alternativa muito comum entre as mulheres que estão na menopausa e não contam com a reposição hormonal. A prática, no entanto, pode ser um problema.

— O chá, como o de amora branca, realmente diminui as ondas de calor, mas ele tem estrogênio na infusão. E as mulheres que têm útero precisam usar o estrogênio e a progesterona, combinados, na reposição hormonal. Eu não indico usar, porque não se sabe como ele impacta [a mulher] sem o hormônio da progesterona, que protegeria o útero. E também, não sabemos a dose [de estrogênio] que têm nesses chás. E nosso medo é esse. Não há um controle — explica.

Além disso, os chás não diminuem os sintomas que são de intensidade moderada, somente os mais leves, segundo Evaldo. No caso das mulheres que têm contraindicação à terapia de reposição hormonal, as bebidas são ainda menos indicadas, por conta do hormônio presente nelas.

Atividade física pode aliviar sintomas na falta de reposição

Conforme o médico, as alternativas para as mulheres que não têm acesso ao tratamento, então, seriam algumas mudanças de estilo de vida:

Continua depois da publicidade

— Existem estudos demonstrando que a atividade física e a dieta balanceada podem ser eficazes para uma melhor condição de saúde das mulheres nessa etapa da vida, e também benéficas no enfrentamento dos sintomas. Trabalhos com acupuntura e técnicas de relaxamento também podem ser promissores.

Há também antidepressivos que ajudam a aliviar os sintomas. Alguns chegam a reduzir cerca de 60% dos fogachos e irritabilidade, diz Evaldo, e são mais acessíveis. O venlafaxina, por exemplo, custa entre R$ 30 e R$ 65.

Já os fitoestrogênios — compostos vegetais com estrutura e ação semelhantes ao estrogênio humano e que podem ser adquiridos na farmácia — reduzem de 35% a 40% dos sintomas em pacientes com incômodos de intensidade leve, segundo o médico. Em média, o preço dos fitoestrogênios em comprimido é de R$ 70.

O Hospital Universitário da UFSC e a Maternidade Carmela Dutra, em Florianópolis, também contam com serviços ou ambulatórios com ginecologistas para o atendimento adequado para rotina de exames e prescrição das terapias para o bem-estar das mulheres na menopausa.

Continua depois da publicidade

Mulheres na menopausa sentem produtividade e foco no trabalho afetados pelas “névoas mentais”

Mais de 30 milhões de brasileiras estão na faixa etária da menopausa

De acordo com dados divulgados no ano passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 30 milhões de mulheres no Brasil estão na faixa etária do climatério e menopausa, que ocorre entre os 45 e 55 anos. Isto representa por volta de 7,9% da população feminina. No entanto, somente cerca de 238 mil foram diagnosticadas pelo SUS.

Em Santa Catarina, não há dados específicos sobre quantas mulheres estão nessa fase, mas considerando a faixa etária de 45 a 54 anos, 504.923 mulheres podem estar passando pela menopausa ou climatério, segundo a estimativa do Censo 2022 do IBGE.

É o caso de Elielza dos Anjos Souza, de 43 anos. A moradora do Morro da Cruz, comunidade de Florianópolis, sente os sintomas da menopausa há pouco tempo, com dores de cabeça que chegam a provocar ânsia de vômito. Ela trabalha em uma empresa de serviços gerais de limpeza e recebe R$ 1.300 por mês, pagando um aluguel de R$ 750. Tem cinco filhos, sendo que o mais novo tem 15 anos.

Ela descobriu que estava na menopausa quando passou mal no trabalho e foi ao Hospital Governador Celso Ramos, no Centro da cidade. Elielza não sabe nem onde procurar a terapia de reposição hormonal, e já teme a próxima fase da vida:

Continua depois da publicidade

— Eu acho que eu vou sofrer muito com esse negócio de menopausa.

Ginecologista defende tratamento para todas as mulheres

Para a médica Maria Luiza, todas as mulheres deveriam fazer a terapia de reposição hormonal, principalmente na fase do climatério, momento que antecede a menopausa.

— O estrogênio, realmente, é o hormônio que rege a mulher, e hoje a gente sabe que a maioria das mulheres não têm contraindicação — pontua.

É o caso de Silvana Venâncio, atualmente com 61 anos, em que a menopausa foi uma fase tranquila justamente pela reposição hormonal.

— Eu vou desde sempre na mesma ginecologista, e nós já vínhamos acompanhando com exames os níveis dos hormônios. Então, para mim, foi uma fase muito tranquila — diz.

Continua depois da publicidade

Aos 37 anos, ela passou por uma histerectomia por conta do aparecimento de miomas, tumores benignos que se desenvolvem no útero. Aos 56, a ginecologista que a acompanhava prescreveu o Sandrena Gel, um medicamento que alivia os sintomas da menopausa e previne a osteoporose. Desde os 56 anos, a pedagoga o adquire na farmácia por R$ 60 mensais.

Mesmo que tenha sido uma fase sem as dificuldades que acompanham a menopausa, Silvana diz que a etapa não é só uma questão de saúde, e sim algo que envolve todo um sistema muito sensível para as mulheres:

— Quando uma mulher começa a ter os fogachos, a ficar irritada, ter a pele e a vagina secas, começa a olhar no espelho e não se sentir mais aquela “belezura” que era, quando o cabelo fica branco, tudo isso é uma transformação que é preciso de muita força para poder suportar.

No entanto, os especialistas alertam que o tratamento precisa de acompanhamento médico, principalmente devido as contraindicações. Conforme o médico Evaldo dos Santos, a terapia não é recomendada nas mulheres com histórico pessoal de câncer de mama, câncer de endométrio, trombose venosa profunda, doença hepática descompensada, porfiria, sangramento vaginal de causa desconhecida, doença coronariana, doença cerebrovascular e lúpus eritematoso sistêmico.

Continua depois da publicidade

Já Maria Luiza, complementa que outros casos, como o risco alto de AVC e trombose, também devem ser bem avaliados antes de dar início à terapia.

PL que buscava gratuidade ao tratamento em SC foi rejeitado

Na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) já houve uma tentativa de garantir o acesso gratuito à terapia de reposição hormonal para mulheres em menopausa. O Projeto de Lei (PL) nº 368/2024, de autoria do deputado Marquito (Psol), chegou a tramitar na Casa, mas foi rejeitado em votação no plenário.

Apesar da negativa, o tema ainda está em discussão. Uma indicação aprovada pelos parlamentares foi dirigida ao governador do Estado sugerindo a adoção de medidas administrativas para a disponibilização gratuita de exames e tratamentos necessários ao diagnóstico, à reposição hormonal e ao acompanhamento das condições associadas ao climatério e à menopausa na rede pública estadual de saúde. A proposta está agora no Executivo, que deve analisar a possibilidade de implementação.

Leis federais tentam garantir acesso gratuito ao tratamento

Já no Congresso Nacional, tramitam propostas que visam assegurar o acesso gratuito à terapia de reposição hormonal e a um cuidado mais amplo para mulheres que enfrentam os sintomas do climatério e da menopausa através do SUS. Entre elas, está o PL 876/25, da deputada catarinense Ana Paula Lima (PT-SC), que determina a oferta do tratamento hormonal na rede pública. A matéria segue em análise na Câmara dos Deputados em caráter conclusivo, o que pode acelerar a aprovação, já que não precisa passar pelo plenário caso seja validada pelas comissões.

Continua depois da publicidade

Também na Câmara, o PL 4504/24, da deputada Silvye Alves (União-GO), propõe a criação da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde e Qualidade de Vida de Mulheres na Menopausa. O texto prevê ações amplas, como a ampliação do acesso a medicamentos, exames e terapias pelo SUS, além de programas de apoio psicossocial e medidas de acolhimento no ambiente de trabalho. A proposta ainda inclui a instituição da “Semana Nacional de Conscientização sobre a Menopausa”, a ser realizada em outubro.

No Senado, o PL 3.933/2023, do senador Mecias de Jesus (Republicanos-RR), estabelece que o SUS deve oferecer tratamento completo para o climatério, contemplando desde medicamentos hormonais e não hormonais até acompanhamento psicológico e multidisciplinar. O projeto também prevê a capacitação de profissionais para diagnóstico e tratamento adequados. A proposta já foi aprovada na Comissão de Direitos Humanos e aguarda análise na Comissão de Assuntos Sociais.

Antonietas

Antonietas é um projeto da NSC que tem como objetivo dar visibilidade a força da mulher catarinense, independente da área de atuação, por meio de conteúdos multiplataforma, em todos os veículos do grupo. Saiba mais acessando o link.

*Sob supervisão de Luana Amorim e Giovanna Pacheco

Leia também

Dor “incapacitante”, cirurgias e demora no diagnóstico: como é a vida com endometriose

SC supera média nacional na vacinação contra o HPV com avanço entre meninos e meninas

SC recebe reforço de profissionais do Programa Mais Médicos para atuação na atenção primária