Antes mesmo do amanhecer, o mar já faz parte do ritual. Todo dia 2 de fevereiro, Garopaba revive uma das tradições religiosas mais antigas do município: a festa e a procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, devoção que atravessa gerações desde 1921 e tem origem entre os pescadores da cidade.
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Celebrada por terra e mar, a procissão reúne fiéis no Centro Histórico, no entorno da Igreja São Joaquim, construção de 1795, tombada como patrimônio histórico. É dali que partem as imagens carregadas nos ombros dos devotos: São Joaquim, padroeiro de Garopaba, e Nossa Senhora dos Navegantes, protetora dos homens e mulheres do mar.
A memória dessa tradição permanece viva em relatos como o de Vanda Lobo, de 95 anos, considerada uma guardiã da história local.
— Nós íamos caminhando, cantando e rezando — recorda. Segundo ela, o respeito ao rito sempre foi marcado também pela forma de vestir. — O pessoal que morava na Gamboa, Siriú e Macacu vinha a pé, com os sapatos nas mãos, para não gastar o solado. Muitos traziam a roupa e tomavam banho de balde — continuou.
Procissão por terra e mar
Em 2026, a programação contou com três momentos de procissão. O primeiro ocorreu na sexta-feira (30), quando a imagem da santa foi levada de um rancho de pescadores, na Praia Central, até a Igreja São Joaquim. No domingo (1º), os fiéis seguiram em caminhada até a Praia da Vigia, onde teve início a procissão marítima.
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A imagem de Nossa Senhora dos Navegantes foi conduzida de barco pela baía, em um trajeto de aproximadamente 1h30 até o Ilhote da Praia do Siriú, antes do retorno à costa. São Joaquim permaneceu em terra, aguardando o reencontro simbólico que emocionou os devotos com aplausos e lágrimas.
Entre os participantes está Marília Dias, que há 36 anos acompanha a procissão. A devoção nasceu a partir de uma promessa feita pela vida do filho, que sofreu um grave acidente na infância e passou por 29 cirurgias.
A fé também faz parte da história familiar de Marília desde a infância.
— Minha vó sempre me ensinou que eu tinha duas mães: a que me concebeu e a Nossa Senhora dos Navegantes — relata. Para ela, participar da procissão marítima em Garopaba tem um significado especial. É como estar mais perto da santa, no lugar onde ela reina: o mar.
Outro destaque da festa é a tradicional Corrida de Canoas de um pau só, que reúne cerca de 120 pescadores de diferentes comunidades do município. A competição consiste em percorrer 250 metros no mar e, ao retornar à praia, correr para tocar o sino, e vence quem completar o percurso em menor tempo.
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As embarcações, muitas batizadas com nomes próprios, representam uma herança cultural que antecede a colonização açoriana. Conforme a guia de turismo Claudete Medeiros, os indígenas já utilizavam essas canoas. Com o tempo, os imigrantes adaptaram o modelo para enfrentar o mar aberto.
Parte da história da festa também está registrada nas fotografias de Manfredo Hübner (in memoriam), que documentou por décadas a vida urbana, rural e cultural de Garopaba. Segundo a filha, Suzana Hübner, as imagens ajudam a compreender a identidade do município:
— Garopaba é pesca, é mar, é essa dependência do oceano como forma de vida, de sustento e também de alegria.
— Meu pai sempre dizia que a fotografia tem dois momentos importantes. O primeiro é quando ela é revelada, ainda com tudo muito fresco na memória, quase como uma extensão do instante vivido. O segundo vem vinte, trinta anos mais tarde, quando voltamos a olhar para aquela imagem e ela passa a revelar muito a época, os modos de viver, as roupas, e até a relação com a natureza. É aí que a fotografia ganha outro valor — recorda Hübner, que também é presidente da Associação Empresarial de Garopaba (Acig).
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Convivência entre devoções
Além da tradição católica, Garopaba também abriga manifestações de religiões de matriz africana. Ainda em 2 de fevereiro, ocorre a Festa de Iemanjá, reconhecida como um momento de reverência à Rainha do Mar.
A celebração, marcada por cantos, flores e oferendas, acontece neste ano a partir das 20h30, na Praia Central, em frente ao Camping Lagoamar. Assim, diferentes expressões de fé compartilham o mesmo espaço e o mesmo oceano, reforçando a convivência religiosa que marca a identidade cultural do município.





