O índice de pessoas com obesidade disparou em Santa Catarina nos últimos anos. A quantidade de catarinenses atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) saltou de 28 mil em 2012, para 398 mil no ano passado. O aumento ultrapassa 1.300% no período, o que representa que em 2022, pelo menos cinco em cada 100 catarinenses estavam com o índice de massa corpórea (IMC) em níveis elevados. Especialistas ouvidos pela reportagem apontam a ascensão das redes sociais, o aumento dos casos de ansiedade e depressão, além da acessibilidade aos alimentos ultraprocessados como fatores para o crescimento do número de pessoas diagnosticadas com obesidade no período.

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Os dados são do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) do Ministério da Saúde, com base na atenção básica, e englobam pessoas com obesidade grau 1, 2 e 3. Esses níveis são estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) a partir da gravidade da doença e dependem do IMC, calculado na relação entre altura e peso da pessoa.

Os desafios de quem vive com obesidade em Santa Catarina

A obesidade é uma doença crônica caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal de forma que pode desencadear fatores de risco para a saúde, ainda conforme a OMS. Estar obeso é uma condição complexa, segundo a endocrinologista Cristina Oliveira. A médica explica que algumas causas da doença podem ir além do controle total do paciente e o aumento do IMC tem relação com fatores genéticos, de sedentarismo, alimentação inadequada, além de questões ambientais e até psicológicas.

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– A doença ainda é confundida como um problema de caráter e não é. “Ah não tem força de vontade”, infelizmente é muito vista assim. Porém, os pacientes às vezes têm alta herança genética. Ainda tem a forma como a gente se relaciona com o alimento e o ambiente em que a pessoa está inserida também pode contribuir para a obesidade – explica a endocrinologista.

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André Trevisol, 33 anos, conta que sempre esteve acima do peso e convive com a obesidade há alguns anos. O professor relata que a própria mãe conta que ele já nasceu “fortinho” e que sempre esteve fora do padrão estético e de saúde. Com o passar do tempo, a vida adulta e a correria da rotina contribuíram ainda mais para o ganho de massa corporal:

– A culpa é minha por ser assim? Não, eu não tenho culpa de ter nascido assim, é minha genética e vou lidar com isso. Está tudo bem, acho que o caminho é encarar o peso e a fisionomia como ela é, desde que isso não prejudique a minha saúde – relata.

Uma mulher de 35 anos, que pediu não ser identificada pela reportagem, afirma que possui obesidade há anos. Ela descreve que passou por processos de emagrecimento para se sentir mais aceita pela família e para ter acesso às roupas que queria. Hoje, ela reconhece que passou por momentos cruéis por conta do peso que estava além do controle pleno dela.

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A distância entre os cuidados com a obesidade como questão de saúde e a pressão social promovida pela gordofobia é uma linha tênue, mas necessária para respeitar o próprio corpo a ponto de entender os limites de cada um e as necessidades para viver com mais qualidade. A nutricionista Bruna Cunha, especialista em pacientes com obesidade, afirma que há diferença entre precisar perder e acompanhar o peso por conta da doença crônica e por estética. Ela explica que os riscos para a saúde começam a partir do IMC 30, quando o corpo inicia o convívio com uma inflamação de baixo grau e a gordura excessiva pode provocar outros danos, como as doenças cardiovasculares.

Porém, nesses casos o emagrecimento exige um acompanhamento multidisciplinar por profissionais médicos, de nutrição e psicologia. Isso porque a obesidade é resultado de fatores associados e geralmente está ligada a uma série de condições biológicas e comportamentais de cada indivíduo.

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Fenômenos da década favorecem a obesidade

Conforme o SISVAN, 33,17% da população catarinense atendida pelo SUS em 2022 estava com algum grau de obesidade. Dez anos antes, esse número era de 25,75% e o sistema básico de saúde acompanhou um crescimento de 28% no público com obesidade. A nutricionista Bruna Cunha ainda observa que, pelas estatísticas dependerem do lançamento de dados no sistema, provavelmente o número está subnotificado e mais pessoas possuem o diagnóstico de obesidade.

Os especialistas argumentam que o aumento de casos está diretamente ligado aos fenômenos que se intensificaram nos últimos anos e foram ainda mais potencializados pela pandemia da Covid-19.

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– A pandemia pegou muita gente em cheio. O estresse desencadeia a produção de cortisol, hormônio de quando estamos em perigo, e por isso altera a forma que a gente se alimenta. E tinha o acesso à comida estocada em casa, a questão psicológica, a falta de socialização. Não tinha o que fazer, se não comer – lembra a nutricionista.

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Os alimentos ultraprocessados contém químicos, muito sal e açúcar para realçar sabores, são chamados de hiperpalatáveis e se tornaram ainda mais acessíveis nos últimos anos. São encontrados em mercados, restaurantes e em aplicativos de entrega. Além disso, também podem ser mais baratos do que opções de alimentação saudável, que muitas vezes têm um valor agregado muito alto.

– Em uma lanchonete, uma salada de fruta custa R$ 15, uma coxinha custa R$ 2. Então, o acesso financeiro também é uma questão. Hoje a gente vê a obesidade entre pessoas de baixa renda e com rendas maiores – observa a nutricionista.

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A inatividade física entre a população também é um fator importante. As profissionais relembram que na pandemia, com a impossibilidade de sair para se exercitar, muita gente acabou se tornando sedentária. Na contramão, o trabalho remoto e o distanciamento social em casa aproximaram ainda mais as pessoas dos alimentos como forma de entretenimento e até mesmo recompensa.

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– O home office foi um fator que aumentou a proximidade das pessoas com o alimento, o delivery também. Então, se você não for muito cuidadoso, pode acontecer um aumento de ingestão calórica – diz a endocrinologista Cristina Oliveira.

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Doenças psicológicas que passaram a atingir mais pessoas, como a depressão, têm contribuição no desenvolvimento da obesidade e na manutenção dela. A nutricionista diz que os estudiosos ainda não têm um apontamento chave sobre qual doença leva a outra, mas ela explica que essas condições possuem mecanismos biológicos compartilhados que provocam um ciclo vicioso difícil de ser quebrado.

A outra questão é o crescimento do uso de mídias sociais, que bombardeiam estímulos para consumo de alimentos a partir de algoritmos que compreendem o que cada usuário gosta.

– O cérebro do indivíduo com obesidade funciona diferente de uma pessoa sem obesidade, porque ele não consegue inibir o impulso em relação às questões alimentares. A pessoa precisa ser treinada para conter a impulsão – indica a nutricionista.

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Como controlar

De acordo com a médica endocrinologista Cristina Oliveira, especialistas consideram que não há cura para a obesidade, mas remissão e controle da doença. Ela esclarece que, para evitar riscos de patologias relacionadas, como hipertensão, diabetes e doenças respiratórias, o emagrecimento é indicado para que a pessoa fique controlada, mas sempre há risco de oscilar.

A médica afirma que o Brasil ainda não tem uma política pública mais abrangente para o tratamento da obesidade como a doença crônica que ela é. A cirurgia bariátrica pode ser feita pelo SUS a partir do IMC 40, opção para quando o tratamento clínico não é efetivo. Porém, a especialista relata que há dificuldades para medicar os pacientes antes desse processo e que é necessário um trabalho multidisciplinar.

– O tratamento é composto por atividade física, reeducação alimentar e tratamento medicamentoso, só que ele ainda não está na lista do SUS. Esses remédios promovem a saciedade e reduzem a gordura visceral. Mas, não há no sistema básico – pontua Cristina.

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