Não importa para que lado Carlos Eduardo olhe. Tudo o que vê é lama, entulho, destruição. A paisagem, triste e desanimadora, não é exclusiva dele. Cerca de 80% de Rodeio foi afetada pelo temporal desta semana. Do jardim de casa, onde já não há nem sinal dos muros, arrancados pela força da água, ele ainda enxerga o clarão aberto na vegetação, trazendo pedras, árvores e barro.

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Carlos, morador da Rua Barão do Rio Branco, no bairro Glória, conta incrédulo o que viveu ao lado da esposa e dois filhos na noite de terça-feira (17). A água criou um rio, que passou levando tudo. Assustados, correram fechar portas e janelas para se proteger. Não teve jeito.

— A água começou a subir e nós ficamos ali dentro. Hoje pensando eu não teria feito isso. Se tivesse arrebentado essas paredes, pode ser que a gente nem estaria aqui — desabafa o morador.

Ao lado da casa de Carlos, um senhor de cabelos branquinhos luta contra a lama que insiste em ficar no terreno. Usa um rodo, arrasta o que dá, mas não vence e desiste. É que em alguns pontos mais baixos, o barro e a água acabaram represados e vai tempo para limpar tudo e tirar o cheiro forte que ficou.

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A prefeitura colocou caminhões para rodar a cidade e recolher os entulhos. Caminhões-pipa lavam o que é possível na área mais central. Voluntários decidiram sair de casa e ir ajudar na reconstrução. O socorrista do Samu Jean Himckel estava de folga depois de uma quarta-feira (18) de atendimentos, em que teve inclusive de medicar uma senhora que não conseguia dormir.

— Ela estava bastante agitada. Com 80 anos, disse nunca ter visto nada igual — conta.

Veja ainda: Rodeio decreta calamidade pública após confirmar três mortes por temporal

Himckel, pela profissão que tem, já viu bastante coisa. Mesmo assim, as lágrimas surgem ao falar da tragédia Rodeio e relembra a não tão distante catástrofe em Presidente Getúlio — de dezembro de 2020. Apesar das proporções diferentes, os cenários pouco se diferem: lama, tristeza e esperança.

Foi a fé no recomeço, aliás, que o motivou a estar ali, erguendo carrinho de mão cheio de entulho enquanto poderia estar no conforto de casa.

— A gente fica comovido, mas chorar não vai adiantar. O que vai ajudar é a gente se unir. Hoje é Rodeio, amanhã é outra cidade. Quem é de outra cidade, vem aqui, se oferece para ajudar em uma casa. Tem muito trabalho — diz o socorrista.

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A poucos quilômetros dali, aos pés do Morro do Pico, onde pai e filha foram achados mortos e a caçula ainda é procurada pelos bombeiros, a situação é devastadora. O acesso é difícil, carro sem tração ainda não passa. Ao final da estrada? Só a pé. Os moradores conversam baixinho como se compartilhassem um segredo. Na verdade, compartilham o alívio de estar vivos quando o perigo passou tão perto.

Uma moradora que prefere não se identificar, conta que já tinha terra cedendo há alguns dias. Agora, estava com dois metros de barro na frente de casa que desceu dos morros, onde as fendas são nítidas à distâncias na vegetação.

— Agradecer que estamos vivos, mas agora fica o medo. Eu não dormi em casa, nem a vizinha da casa azul — conta apontando para um imóvel onde os bombeiros montaram base para buscar pela criança desaparecida.

Foi nesse contexto que a família sepultou Reinaldo Lamim, arrastado pela água no Rio Nova Brasília. Ao mesmo tempo, outra família aguardava angustiada para encontrar outro morador desaparecido durante o temporal.

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