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Lauro Bacca: No "planeta dos humanos", solução da energia verde é apenas paliativa

Em artigo, ambientalista cita o aumento da população mundial nos últimos séculos e as questões que envolvem as “energias verdes”, com menor impacto ao meio ambiente

14/01/2022 - 13h52

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Redação
Por Redação Santa
Trator movimenta farelo de cana-de-açúcar para queima em usina termelétrica
Trator movimenta farelo de cana-de-açúcar para queima em usina termelétrica
(Foto: )

Por Lauro Bacca, ambientalista e presidente da Associação Catarinense de Preservação da Natureza

Depois de milhares de anos com a população humana em relativa estabilidade, entre 200 e 400 milhões de pessoas, algo começou a dar certo para a humanidade e errado para o planeta.

Num mesmo dia, em 12 de fevereiro de 1809 nasciam dois bebês, mais tarde muito famosos, Charles Darwin na Europa e Abraham Lincoln nos EUA (pouco depois, o grande naturalista teuto-catarinense Fritz Müller, em 1822), numa população mundial na casa do primeiro bilhão de habitantes.

Quase sem ninguém perceber, começava um verdadeiro processo de infestação de humanos na Biosfera.

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Em apenas 200 anos a população humana octuplicou, mas, nosso impacto sobre o planeta ficou 100 vezes maior. Em outras palavras, precisaríamos de 100 bilhões de habitantes com o padrão de vida e de consumo da época em que Darwin, Lincoln e Müller nasciam para causar o mesmo impacto hoje.

Para compensar essa esdrúxula situação em que 8 modernos sujam tanto quanto 100 de antigamente, muitas propostas e ações são colocadas sobre a mesa, fontes de energia “verde” entre elas. Uso da biomassa, energia eólica e placas fotovoltaicas estão entre as inúmeras soluções propostas, muitas delas em plena fase de implantação.

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A tal da energia verde seria de fato a solução para o atual drama planetário? Há quem diga que não. Por exemplo, no caso da energia oriunda da biomassa: se os EUA usarem até a última árvore do seu território para obtenção de energia, esta supriria as necessidades do país por apenas um ano. Mais insustentável que isso, impossível.

No caso do Proálcool brasileiro, seu grande mérito foi o de evitar o aumento da dependência externa de petróleo, vantagem mais econômica que ecológica, se formos examinar a fundo suas implicações. O álcool anidro é uma fonte de energia “verde”, ok, mas, até que ponto é 100% sustentável?

Onde originalmente havia florestas agora tem cana de açúcar ocupando aquele espaço. Por outro lado, toda a complexa cadeia de produção e insumos envolvidos na produção do álcool é abastecida na sua totalidade pela própria energia do álcool? Duvido.

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A mineração para obtenção de silício e tantos outros minerais para compor a cadeia de produção de células fotovoltaicas e outros produtos e processos da “solução verde” causa impacto ambiental muito significativo, que, no mínimo, desbotam o “verde” dessas pretensas soluções.

Gigantescos aviões transcontinentais podem voar propelidos por combustível “verde” à base de óleo de cozinha reciclado e misturado ao querosene de aviação. Ora, milhares desses aviões decolam e pousam todos os dias no mundo. Haverá sustentabilidade em todo esse processo?

A solução da energia verde, num mundo onde predomina a forma cancerosa do capitalismo, embora necessária, é apenas paliativa. Cooptada pelo grande capital, não está servindo para salvar o planeta, mas, sim, para manter nosso atual e insustentável estilo de vida. É o que conclui o filme-documentário de Jeff Gibbs e Michel Moore, de onde emprestei o título acima e que recomendo assistir. Dá o que pensar. Acessível neste link.

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