As mulheres estão cada vez mais presentes na liderança das propriedades rurais em Santa Catarina. Dados do último Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2025 mostram que 17,5% das propriedades do Estado são comandadas por mulheres, um crescimento de mais de 26% em relação ao levantamento anterior.

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O avanço reflete uma mudança gradual no perfil do campo catarinense: além de participar das atividades da lavoura e da pecuária, muitas agricultoras passaram a assumir a gestão dos negócios rurais, tomar decisões de mercado e investir em qualificação.

Esse cenário ganha ainda mais visibilidade em 2026, escolhido pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o Ano Internacional da Mulher Agricultora. A iniciativa busca ampliar o reconhecimento do papel feminino nos sistemas agroalimentares e incentivar políticas públicas que fortaleçam os direitos e a permanência das mulheres no meio rural.

No Oeste catarinense, histórias de agricultoras, pesquisadoras e empreendedoras mostram como esse protagonismo se traduz na prática, desde a liderança nas propriedades à inovação científica e ao desenvolvimento de novos negócios.

Liderança que nasce da tradição

Em São Domingos, o amor pela terra acompanha a agricultora Beatriz desde a infância. Filha de agricultores, ela cresceu acompanhando o pai nas atividades da propriedade.

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— Desde pequena eu era muito grudada com meu pai. Se ele ia, eu ia junto. Estava em cima do trator, nas reuniões, no dia de campo, na oficina, no banco. Sempre acompanhando — lembra.

Após a morte do pai, em 2010, Beatriz assumiu a propriedade da família, com 43 hectares. Com trabalho e dedicação, transformou a chácara em uma fazenda moderna. A rotina começa cedo, acompanhando a granja de aves, e segue ao longo do dia entre plantio, manejo de máquinas e administração do negócio.

A mãe observa com orgulho a liderança da filha.

— Eles sempre pedem para ela decidir as coisas. Eu me orgulho dessa força de vontade e espero que continuem sempre unidos — afirma.

Para Beatriz, manter viva a tradição da família é um compromisso.

— Eu sou muito ligada às raízes. Estamos preparando a quarta geração. O que o pai ensinou para nós, com amor e determinação, eu quero ensinar também.

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Outra história de protagonismo vem de Marema, também no Oeste. Na propriedade da família Fontana, onde são criados bovinos de corte em uma área de 47 hectares, os cuidados com os animais ficam com o marido. Já a administração do negócio está nas mãos de Marli. Ela conta que, no passado, não se sentia confortável em participar das decisões.

— Antes eu ficava mais inibida, achando que era trabalho para homem dar opinião. Hoje eu vejo diferente. Eu acompanho cotação, vejo tendência de preço do grão, consigo prever o mercado.

Segundo ela, a chegada da internet às propriedades rurais facilitou o acesso à informação e ao conhecimento.

Para a assessora jurídica sindical da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina (Faesc), Tânia Zanella, o avanço é significativo, mas ainda há desafios.

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— Talvez o nosso grande desafio seja encontrar cada vez mais espaços para a mulher nas tomadas de decisão, não só no agro, mas também no cooperativismo. Precisamos evoluir em políticas que fortaleçam esse protagonismo — pontua.

Ciência no campo

O protagonismo feminino também aparece na produção de conhecimento que ajuda a desenvolver o agronegócio. A pesquisadora da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), Maria Cristina Canale, trabalha há mais de 15 anos com estudos voltados à produtividade agrícola.

Mãe de dois filhos, ela encontrou na agronomia uma forma de unir ciência e agricultura.

— Eu sou uma pessoa urbana, mas gosto da área agrícola. Por isso acabei fazendo engenharia agronômica — conta.

Um dos focos do trabalho dela é o combate a doenças transmitidas por insetos que afetam as lavouras. Um exemplo é a cigarrinha-do-milho, praga capaz de transmitir patógenos que causam grandes prejuízos aos produtores.

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Após um surto que atingiu lavouras catarinenses entre 2019 e 2020, Maria Cristina coordenou um programa de monitoramento do inseto para identificar a presença das doenças e orientar estratégias de controle.

— Hoje já temos cinco anos de monitoramento, com uma série histórica consistente para entender melhor o comportamento da praga.

Na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), a zootecnista e pesquisadora Ana Luiza Bachmann Schogor também trabalha para melhorar a produção agropecuária. No laboratório, ela analisa a qualidade do leite produzido na região Oeste, a principal bacia leiteira do Estado.

A pesquisa ajuda a aperfeiçoar a qualidade do leite e dos produtos derivados.

— Nós fazemos uma grande interação entre universidade, produtor rural e laticínios. Assim conseguimos contribuir com toda a cadeia do leite.

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Dados da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação de Santa Catarina (Fapesc) indicam que há mais mulheres do que homens com títulos de mestrado e doutorado no Estado. Apesar disso, elas ainda são minoria em cargos de liderança em instituições científicas.

A assessora jurídica sindical da Faesc, Andreia Barbieri Zanluchi, aponta que um dos desafios é conciliar a carreira científica com a vida familiar.

— A pesquisa exige dedicação exclusiva e tempo. E muitas mulheres precisam dividir esse tempo entre a carreira e a família. Também precisamos ampliar a presença feminina na gestão de órgãos de pesquisa — argumenta.

Empreendedorismo que nasce no campo

Além de liderar propriedades e produzir conhecimento, as mulheres também impulsionam o empreendedorismo rural. Em Guatambu, a agricultora Carla Denise Luft participa de todas as etapas da produção de queijos na queijaria da família. O dia começa cedo.

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— A rotina começa por volta das cinco da manhã, quando recolhemos o leite. Depois faço as análises e acompanho a produção.

Enquanto o marido cuida da fabricação, Carla também administra o negócio e organiza as vendas. A família apostou em um diferencial para conquistar espaço no mercado: queijos recheados, com cerca de 25 variedades.

— Tem muitos laticínios na região. Então pensamos em fazer produtos diferentes para conseguir espaço.

Carla também está se formando em nutrição, o que deve contribuir para o desenvolvimento de novas receitas. Já em Concórdia, a agricultora Marisete Goetz encontrou nas geleias artesanais uma forma de transformar a produção rural em negócio.

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A ideia surgiu quando ela e o marido moraram por cinco anos na Itália e conheceram a valorização da produção artesanal.

— Eles dão muito valor ao que é produzido artesanalmente e à qualidade.

Quando voltaram ao Brasil, em 2013, compraram um sítio. O que seria apenas um lugar para passar fins de semana acabou se transformando em um projeto de vida. Hoje, além das geleias e conservas, o casal cultiva frutas e legumes orgânicos. Parte da produção é destinada à merenda escolar do município.

Segundo dados da Epagri, a presença feminina nas agroindústrias familiares vem crescendo. Entre empreendimentos criados a partir de 2010, 43,9% têm mulheres como proprietárias, contra 30,8% em 2009.

Raízes que seguem fortes

Seja na gestão das propriedades, na pesquisa científica ou na criação de novos negócios, o protagonismo feminino no campo catarinense segue em expansão. E, para muitas dessas mulheres, a motivação continua sendo a mesma que atravessa gerações: o amor pela terra.

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— A gente ama isso aqui. A nossa vida é a propriedade. A gente estudou, fez faculdade, pós-graduação, mas nunca se desligou da terra — resume Beatriz.

Antonietas

Antonietas é um projeto da NSC que tem como objetivo dar visibilidade a força da mulher catarinense, independente da área de atuação, por meio de conteúdos multiplataforma, em todos os veículos do grupo. Saiba mais acessando o link.

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