Maria Flor e Jean Lucas são dois bebês que morreram na Maternidade Darcy Vargas, em Joinville, em dezembro do último ano. Os casos dos recém-nascidos integram uma investigação de negligência médica iniciada pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) em 4 de fevereiro de 2026. Mas, além disso, marcam com tristeza a história de duas famílias joinvilenses.

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Nayara Dias e seu marido aguardavam com ansiedade a chegada de Maria Flor. A gravidez era considerada de risco, devido ao quadro de asma da mãe. No entanto, a situação estava controlada e nenhum problema de saúde na bebê foi detectado durante os meses de gestação.

Com 38 semanas, Nayara realizou um acompanhamento de rotina em uma Unidade Básica de Saúde da Família (UBSF). Na ocasião, foi constatado que a bebê estava em posição transversal, que torna difícil a realização de um parto normal. Por isso, ela foi orientada a retornar para casa e agendar uma cesárea. A data escolhida foi o dia 3 de dezembro de 2025.

Ao chegar na maternidade na data prevista, a preparação para o parto foi iniciada, mas a família foi surpreendida com o cancelamento do procedimento.

— Nós já estávamos prontos para entrar no centro cirúrgico para fazer a cesariana. E aí, quando foi feito o ultrassom, viram que a Maria Flor tinha encaixado a cabeça e que não estava mais na transversal. Foi nos orientado que estaria tudo bem, que tinha líquido e que estava tudo bem, que era para aguardar em casa o parto normal. Ou se sentisse alguma alteração, procurasse antes. Mas foi feito uma ultra ali muito rápido — conta Nayara.

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A família acolheu a orientação médica e deixou a maternidade. Dez dias depois, Nayara conta que sentiu uma forte contração e decidiu retornar à unidade.

— No sábado, dia 13 de dezembro, eu cheguei lá por volta das 17h, já sentindo que a Maria não mexia tanto como antes. Na triagem a enfermeira me disse que era normal o bebê não mexer tanto naquela idade gestacional e eu fiquei tranquila, achei que tava tudo bem. Ao entrar na sala do médico foi feito o exame do toque e ele tentou fazer a escuta do coração da Maria Flor — relembra.

Após o primeiro atendimento, Nayara aguardou por cerca de 20 minutos a chegada de uma outra médica, com uma equipe especializada.

— A médica chegou, me levaram para uma sala e ali a gente já sabia que tinha alguma coisa que não estava bem. Entrou eu e minha mãe e, simplesmente, a médica só passou o aparelho e disse: “está sem batimentos”. Não teve nenhum cuidado de me dizer algo mais delicado — conta.

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Dois casos denunciados no mesmo dia

Já o pequeno Jean Lucas nasceu no dia 3 de dezembro do último ano e chegou a ficar internado por 11 dias na unidade antes de morrer. O triste desfecho aconteceu após a mãe, Raissa Santana, sofrer um choque anafilático depois de receber um medicamento quando estava com 36 semanas e seis dias de gestação.

— Quando eu cheguei e passei pela triagem informei sobre a minha alergia de dipirona [medicamento analgésico e antitérmico]. Ganhei a pulseirinha vermelha, que indica alergia, e depois fui chamada na sala da médica. Ela fez o exame de toque, viu que não evoluiu [o trabalho de parto], eu ainda estava com dois centímetros de dilatação. Ela me informou que não teria risco de parto prematuro e perguntou de novo sobre minha alergia — recorda.

De acordo com Raissa, cerca de uma hora e meia depois ela foi medicada na unidade. O remédio acabou acarretando em um choque anafilático e, com isso, o parto aconteceu antes do tempo previsto de forma emergencial.

— Eu ficava sem o ar, eles me traziam de volta. A placenta continuou não recebendo o meu oxigênio e ele [o bebê] ficou 15 minutos sem oxigênio. 15 minutos só o tempo que demorou a cesárea, fora desde que eu recebi a medicação, eles não me passaram quanto tempo durou aquilo e eu não tive noção de tempo. Creio que ele ficou bem mais que 15 minutos sem oxigênio — pondera.

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Depois do parto, o menino foi levado diretamente para a Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) da unidade, mas, infelizmente, morreu 11 dias depois.

Investigação do MP

O MPSC abriu um inquérito civil para apurar denúncias envolvendo atendimentos na Maternidade Darcy Vargas, em Joinville. Entre os casos apontados na investigação estão morte de bebê, irregularidades no atendimento, negligência médica e falhas na gestão e na prestação de serviços.

De acordo com o órgão, somente em 2025 foram registradas dez denúncias na 15ª Promotoria de Justiça da Comarca de Joinville, responsável pela investigação.

O que diz a Secretaria de Estado da Saúde

Em nota, a Secretaria de Estado da Saúde (SES) confirmou que Nayara Dias procurou a unidade no dia 3 e 13 de dezembro de 2025.

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“Ao relatar a diminuição dos movimentos fetais, foi submetida a nova avaliação médica e exames, quando foi constatado o óbito fetal. A unidade esclarece que toda a assistência necessária foi prestada e que o caso está sendo tratado como evento sentinela, em investigação interna, conforme os protocolos institucionais e normativas vigentes”, diz a SES.

A pasta também se pronunciou sobre o caso de Raissa Santana, que sofreu um choque anafilático após receber um medicamento.

“Ela possuía histórico de alergia a um medicamento específico de fórmula composta, não se estendendo tal alergia ao princípio ativo administrado de forma isolada. Ressalta-se, ainda, que a paciente já havia feito uso prévio do mesmo medicamento, sem registro de reações adversas”, diz.

Caso segue em investigação

Nos dois casos, as famílias registraram boletins de ocorrência e fizeram reclamações na ouvidoria da unidade. Agora, só esperam que tudo seja esclarecido e os culpados identificados e punidos.

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— A Maria Flor era linda. Eles não vão nos calar, eu tô fazendo isso por ela e por todas as crianças que estão morrendo ainda por eles quererem um parto normal — diz Nayara.

Já Raissa ainda fala que tem esperança de Justiça.

— Eu não estou indo atrás do processo por fama, ser reconhecida ou então por dinheiro. A minha esperança é que essa pessoa seja afastada e que não aconteça com outras pessoas — diz.

*Com informações de Reginaldo de Castro e Walter Quevedo, NSC TV.