Você abriu as redes sociais nas últimas semanas e foi recebido por um anúncio (ou cinco) sobre magnésio em cápsula. Bisglicinato, dimalato, citrato, treonato, taurato. Em pó, gota, cápsula. Combinações com dois, três, quatro ou até cinco tipos diferentes do mineral em uma única embalagem. A propaganda promete de tudo: melhorar o sono, baixar a ansiedade, dar energia, proteger a memória, evitar cãibras, equilibrar hormônios e, em algumas versões, regular tudo o que a vida moderna estraga. Não é fácil entender o que é fato científico, o que é especulação razoável e o que é puro marketing. Pior: boa parte do material informativo disponível na internet vem das próprias marcas que vendem o suplemento, o que cria conflito de interesse importante. O magnésio é, de fato, um mineral essencial para o corpo humano. Mas isso não significa que todas as pessoas precisam suplementar, nem que todas as fórmulas vendidas no Brasil tenham respaldo da Anvisa, nem que todas as alegações que aparecem na propaganda sejam verdadeiras ou autorizadas. A seguir, o que a ciência médica e a regulação brasileira dizem hoje sobre suplementação de magnésio. O texto não substitui consulta médica, e qualquer decisão de suplementar deve ser feita com acompanhamento profissional. Mas as informações abaixo ajudam a chegar mais bem informado à consulta.
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O que é o magnésio e por que ele importa
O magnésio é um mineral essencial ao corpo humano. Está envolvido em mais de 300 reações bioquímicas no organismo, incluindo:
- Produção de energia nas células (síntese de ATP)
- Funcionamento dos músculos e do sistema nervoso
- Regulação dos batimentos cardíacos
- Síntese de proteínas e DNA
- Equilíbrio dos níveis de cálcio, vitamina D e outros nutrientes
- Controle dos níveis de glicemia
- Manutenção da pressão arterial
A recomendação diária de magnésio para um adulto varia conforme idade e sexo, mas fica em torno de 310 a 420 miligramas por dia para pessoas saudáveis, segundo as Recommended Dietary Allowances (RDA) dos Estados Unidos, usadas como referência no Brasil.
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A boa notícia: o magnésio está abundantemente presente em alimentos comuns. As principais fontes são:
- Vegetais verdes escuros (espinafre, couve, brócolis, rúcula)
- Oleaginosas (castanha-do-pará, amêndoa, amendoim, noz)
- Leguminosas (feijão preto, lentilha, grão-de-bico, soja)
- Sementes (abóbora, girassol, chia, linhaça)
- Grãos integrais (aveia, quinoa, arroz integral)
- Peixes (cavala, salmão, hadoque)
- Chocolate amargo (mais de 70% de cacau)
- Banana, abacate, figo
Uma alimentação variada e equilibrada geralmente fornece magnésio suficiente para a maior parte das pessoas saudáveis.
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Quem realmente precisa suplementar magnésio
Apesar do volume de propaganda, a maioria das pessoas saudáveis não precisa de suplementação. A literatura médica e as diretrizes de sociedades como a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) apontam que a suplementação é indicada em situações específicas, idealmente após avaliação médica e exame laboratorial.
Quem pode se beneficiar da suplementação (sempre com indicação profissional):
- Pessoas com deficiência diagnosticada por exame de sangue (magnésio sérico baixo)
- Pacientes com diabetes tipo 2 mal controlado, em que a perda urinária do mineral é maior
- Pessoas com doenças intestinais inflamatórias (doença de Crohn, colite ulcerativa, doença celíaca) que reduzem a absorção
- Pacientes em uso prolongado de medicamentos depletores: inibidores de bomba de prótons (omeprazol, pantoprazol), diuréticos de alça (furosemida), alguns antibióticos
- Idosos com alimentação limitada e perda fisiológica de absorção
- Gestantes, em alguns casos, sob recomendação médica
- Atletas de alto volume com grandes perdas via suor
- Pacientes com enxaqueca recorrente, segundo recomendações da Sociedade Brasileira de Cefaleia
- Pessoas com alcoolismo crônico, em que a depleção é comum
- Pacientes em quimioterapia com certos protocolos
Quem NÃO precisa suplementar, em geral:
- Pessoas saudáveis com alimentação balanceada
- Quem nunca fez exame de magnésio sérico e está suplementando “por precaução”
- Quem decidiu tomar porque viu no Instagram, TikTok ou em propaganda de marca
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Em muitos casos, o caminho mais eficaz e seguro é melhorar a alimentação antes de partir para cápsulas. Um nutricionista pode orientar essa transição sem precisar recorrer a suplementos.
Os tipos de magnésio: o que cada um faz
As cápsulas vendidas no Brasil costumam usar diferentes formas químicas do magnésio, e isso faz diferença real, tanto na absorção quanto nos possíveis usos e efeitos colaterais. Vale entender:
Formas quelatas (associadas a um aminoácido ou ácido orgânico, com alta absorção):
- Magnésio bisglicinato: ligado à glicina, é a forma de maior tolerância gastrointestinal, sem efeito laxativo. Popular entre quem busca relaxamento, qualidade do sono e redução da tensão. Importante: esses usos são populares, não constituem alegação reconhecida pela Anvisa
- Magnésio dimalato (ou malato): ligado ao ácido málico, associado ao metabolismo energético e suporte muscular. Popular entre atletas e pessoas que relatam fadiga
- Magnésio citrato: ligado ao ácido cítrico, tem alta absorção e efeito laxativo conhecido. Usado clinicamente para constipação intestinal, mas também serve para reposição
- Magnésio taurato: ligado à taurina, frequentemente associado à saúde cardiovascular e ao sistema nervoso. Boa tolerância gastrointestinal
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Formas inorgânicas (de absorção mais limitada):
- Óxido de magnésio: baixa absorção (cerca de 4%), efeito laxativo forte. É barato, e por isso muitas marcas o usam para inflar o número de “mg totais” no rótulo sem que o corpo aproveite proporcionalmente
- Cloreto de magnésio: absorção média, conhecido pelo “magnésio P.A.” e pelo “magnésio cloreto” tradicionais. Pode causar desconforto gastrointestinal em algumas pessoas
Magnésio treonato: alerta importante da Anvisa
Uma das formas mais propagandeadas nas redes sociais é o magnésio treonato (ou L-treonato), que vem sendo apresentado como especial para cognição, memória e função cerebral por supostamente atravessar a barreira hematoencefálica. A premissa científica existe (estudos in vitro e em ratos sugerem absorção cerebral), mas há um detalhe regulatório importante para o consumidor brasileiro:
A Anvisa NÃO autoriza a comercialização do magnésio treonato no Brasil como suplemento alimentar.
Em outras palavras: suplementos vendidos legalmente no Brasil não podem conter treonato. Quando uma cápsula vendida no país inclui treonato, ela pode estar:
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- Importada ilegalmente ou em regime de exceção sem registro
- Tendo a Anvisa como fiscalizadora ativa, com risco de apreensão ou autuação
- Vendida com alegações sem respaldo regulatório
Para pessoas que querem tomar treonato com acompanhamento médico, o caminho legal envolve importação individual com receita médica e autorização específica, não simplesmente comprar online.
O que a Anvisa permite afirmar sobre magnésio
Aqui está outro ponto crítico que boa parte da propaganda viola. A Anvisa, por meio da RDC 243/2018 e suas atualizações, regula o que pode e o que não pode ser afirmado sobre alegações de saúde em suplementos. Para o magnésio, as alegações oficialmente autorizadas são:
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- “O magnésio contribui para o funcionamento normal do sistema nervoso”
- “O magnésio contribui para a função muscular normal”
- “O magnésio contribui para a redução do cansaço e da fadiga”
- “O magnésio contribui para o metabolismo energético normal”
Note o vocabulário cuidadoso: “contribui para” e “normal”. A Anvisa não autoriza dizer que o magnésio:
- “Cura ansiedade“
- “Trata depressão“
- “Substitui medicação ansiolítica“
- “Melhora a memória“
- “Previne demência ou Alzheimer“
- “Combate insônia crônica“
- “Equilibra hormônios femininos“
- “Acaba com TPM“
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Quando você ler propagandas usando essas frases ou variações, saiba que isso é provavelmente alegação não autorizada, e o produto pode estar em infração regulatória. O Helpful Content Update do Google em 2025-2026 também passou a despríoizar conteúdos com alegações terapêuticas não comprovadas sobre suplementos.
Os riscos e efeitos colaterais
Suplementação de magnésio não é isenta de riscos, especialmente quando feita sem orientação:
Efeitos colaterais comuns:
- Diarreia (especialmente com óxido, cloreto, sulfato e citrato em doses altas)
- Cólicas abdominais
- Náuseas
- Queda da pressão arterial
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Reações graves (raras, mas possíveis):
- Hipermagnesemia (excesso de magnésio no sangue), que pode causar fraqueza muscular, alteração da consciência, arritmia cardíaca e parada cardíaca. Mais comum em pacientes com insuficiência renal, em que o organismo não consegue excretar o excesso
Interações medicamentosas importantes:
- Antibióticos das classes quinolonas (ciprofloxacino) e tetraciclinas (doxiciclina): o magnésio reduz a absorção, intervalo mínimo de 2-4 horas entre as doses
- Bisfosfonatos (para osteoporose): mesma interação
- Levotiroxina (Puran T4, hormônio da tireoide): magnésio reduz a absorção, intervalo mínimo de 4 horas
- Inibidores de bomba de prótons (omeprazol): uso prolongado pode causar deficiência, mas suplementação concomitante precisa ser monitorada
- Diuréticos: alguns aumentam a perda, outros retêm magnésio
- Insulina e antidiabéticos: magnésio influencia a sensibilidade à insulina
Contraindicações importantes:
- Insuficiência renal crônica: risco grave de hipermagnesemia
- Bloqueio cardíaco
- Miastenia gravis: pode piorar fraqueza muscular
- Doença de Addison
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Pessoas com qualquer dessas condições devem usar magnésio apenas com acompanhamento médico rigoroso.
E os “tetra magnésios” ou “combos” com várias formas?
A combinação de 3, 4 ou 5 formas de magnésio em uma única cápsula virou tendência no mercado brasileiro. A lógica comercial é apresentar a fórmula como “completa”, ou como “o melhor de cada tipo em um só lugar”.
Da perspectiva científica, vale entender:
- Combinar diferentes formas em uma cápsula é tecnicamente possível e seguro, se as quantidades de cada forma estiverem dentro de limites razoáveis
- Não há, hoje, evidência científica robusta publicada em revistas médicas com revisão por pares que mostre que a combinação é superior ao uso da forma isolada mais adequada ao objetivo da pessoa
- O valor agregado dessas fórmulas, muitas vezes, é mais comercial (justificar preço mais alto) do que terapêutico
- A dose total de magnésio elementar importa mais do que o número de formas combinadas
- Para a maioria das pessoas com deficiência leve a moderada, uma forma isolada com boa absorção (bisglicinato ou citrato, dependendo da indicação) resolve, sem precisar de combo
Em outras palavras: a cápsula com quatro formas não é necessariamente melhor que a cápsula com uma forma adequada. O critério principal deve ser a indicação clínica e a forma certa para o problema, não o número de tipos no rótulo.
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O que conversar com seu médico antes de começar
Se você está pensando em suplementar magnésio, vale chegar à consulta médica ou ao nutricionista com algumas perguntas:
- Tenho deficiência diagnosticada ou estou suplementando “por garantia”?
- Minha alimentação está adequada em fontes naturais de magnésio?
- Tenho alguma condição (renal, cardíaca, neurológica) que contraindica?
- Uso medicamentos que interagem com magnésio?
- Qual forma química é mais indicada para meu objetivo (sono, fadiga, constipação, enxaqueca)?
- Qual a dose segura para meu peso, idade e situação clínica?
- Por quanto tempo devo usar e quando avaliar?
- O suplemento que estou pensando em comprar tem registro na Anvisa?
- Como verificar se as alegações da marca são honestas e regulamentadas?
Um mineral importante, mas sem milagre
O magnésio é um mineral fundamental para o funcionamento do corpo humano, e a suplementação tem indicações reais e legítimas em diversas situações clínicas. O problema não é o magnésio em si: é o descompasso entre a propaganda comercial e o uso médico responsável.
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Suplementação não substitui alimentação equilibrada, não é “vitamina para tudo”, e não deve ser iniciada sem avaliação profissional, especialmente em pessoas com condições preexistentes ou em uso de medicamentos. O melhor magnésio é o que o seu corpo realmente precisa, na forma certa, na dose certa, no tempo certo, e por indicação certa.
Antes de comprar a cápsula que apareceu no anúncio, vale uma pergunta simples: será que eu realmente preciso, ou estou comprando porque me venderam um problema que talvez eu não tenha?

