A falsa adolescente de 37 anos, que enganou uma família de Joinville, já cometeu os mesmos crimes em outros seis estados do Brasil antes de ser presa nessa terça-feira (2). Em depoimento, Amanda Maria Souza de Oliveira revelou que mentia seu nome e idade para conseguir “lugar para dormir e comida”. Ela ainda disse que já aplicou o mesmo golpe em Florianópolis e Chapecó.

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Investigada em pelo menos 7 estados

Em contato com corporações de outros estados, a 6ª Delegacia de Polícia de Joinville descobriu que Amanda Maria Souza de Oliveira é reincidente nessa modalidade criminosa e registra antecedentes penais por golpes idênticos.

Após a prisão, a mulher afirmou que já fingiu ser adolescente em cidades como Porto Alegre (RS), Curitiba (PR), Florianópolis (SC), Chapecó (SC), Nova Iguaçu (RJ), além de estados como Minas Gerais, Goiás e Ceará — de onde é natural.

A Justiça de Goiás, inclusive, emitiu um mandado de prisão em desfavor da falsa adolescente na última segunda-feira (1º). No momento da publicação da decisão, o paradeiro da investigada ainda era incerto. Um dia depois, porém, ela foi presa em Joinville, no Norte de Santa Catarina, pelo mesmo crime.

Segundo o delegado responsável pela investigação na cidade catarinense, Rodrigo Bueno Gusso, a Polícia Civil ainda apura a atuação de Amanda nos outros municípios citados por ela em depoimento.

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Como falsa adolescente enganou famílias em sete estados

Em entrevista exclusiva ao NSC Total, uma moradora do Rio de Janeiro relatou as histórias que ouviu e os episódios que vivenciou enquanto ajudava a “menina”. Moradora de Nova Iguaçu, ela e uma amiga foram procuradas por Amanda por meio das redes sociais.

— Em 2023, ela me procurou através do Facebook do “Instituto Mãos que Abençoam Com Amor”, pedindo socorro. Alegou ser do Ceará e que tinha sido obrigada a se prostituir pelo pai, que era bruxo, e que tinha conseguido fugir pedindo carona — relembra a voluntária, que prefere não se identificar.

Junto com uma amiga, a mulher foi até a cidade de Magé, também no Rio de Janeiro, para buscar a “adolescente”, que havia sido abrigada por uma idosa por alguns dias.

— Trouxemos ela para Nova Iguaçu, mobilizamos amigos, alugamos uma casa e cuidávamos dela. Ela parecia ser uma adolescente obesa, com autismo… Falava como criança — detalha.

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Mamadeiras e chupeta

Para sustentar o disfarce ao longo desse período, a mulher ainda alegava ser autista e ter outras condições clínicas. Além disso, para reforçar o papel de criança ela simulava comportamentos infantilizados e lúdicos, como o uso de “cheirinho” para dormir, mamadeira e chupeta.

A estratégia foi utilizada em todas as cidades pelas quais passou. Gusso, delegado responsável pela investigação em Joinville, ainda relatou que Amanda afinava a voz, simulava crises de pânico à noite, carência e outras necessidades geralmente relacionadas à infância.

A farsa no Rio de Janeiro durou pouco tempo. A voluntária do Instituto Mãos que Abençoam Com Amor diz que passou a desconfiar da situação quando percebeu que a “menina” tentava criar intrigas entre ela e a amiga.

Mais de 200 agulhas no corpo

A suspeita aumentou quando algumas agulhas começaram a sair do corpo de Amanda. A voluntária conversou com um amigo, capitão da Polícia Militar do Rio de Janeiro, e combinou de levarem a “adolescente” até um hospital para realizar um exame de imagem.

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— Lá conversamos com o profissional, que se mostrou assustado e disse: “Trabalho há anos no ramo e nunca vi algo igual. Ela tem mais de 200 agulhas pelo corpo” — relata.

A mesma situação foi constatada em Goiás, onde a falsa adolescente passou por novo exame em 2024. O Comando do Policiamento da Polícia Militar de Goiânia chegou a divulgar imagens de um raio-x realizado no Hospital Estadual da Criança e do Adolescente (Hecad).

Na unidade, a equipe médica confirmou a idade real da suspeita e o golpe foi descoberto. Amanda foi liberada e levada para Central de Flagrantes da Polícia Civil do estado.

Amanda Maria Souza de Oliveira chegou a ser presa nos dois estados, mas permaneceu pouco tempo no sistema prisional. Embora tenha sido colocada em liberdade, ela foi condenada em Goiás pelo crime de falsidade ideológica e ainda não cumpriu a pena imposta pela Justiça.

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Golpe em Joinville

Diferentemente do que havia contado em outras ocasiões, Amanda não mencionou as agulhas em seu corpo durante sua passagem por Joinville. Em audiência de custódia na tarde desta quarta-feira (3), a mulher declarou que os ferimentos que apresenta são antigos e resultam de atos praticados por ela mesma.

Na cidade do Norte catarinense, porém, a investigada replicou os comportamentos infantis e chegou a ganhar uma festa de aniversário ao “completar 12 anos”.

O caso “surreal” foi comparado a um roteiro de filme pelo delegado Rodrigo Bueno Gusso. Com mais de 20 anos de carreira, o investigador conta que ainda não havia sido responsável por um caso como este.

Segundo ele, a família foi enganada desde o início e se envolveu emocionalmente com a suspeita, sem desconfiar da farsa. Com idade entre 40 e 50 anos, os “pais” ficaram comovidos com a triste história e a abrigaram. O delegado ainda reforçou que a família foi vítima desde o início.

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Em depoimento, a mãe da família afirmou estar extremamente abalada, pois desenvolveu um vínculo maternal profundo com Amanda, sendo alvo de “severa manipulação psicológica.” Conforme a investigação, a suspeita conseguiu vantagem ilícita, com custeio total de moradia, alimentação,
vestuário e medicamentos de alto custo, como Mounjaro.

Prisão preventiva

Em audiência de custódia, nesta quarta-feira (3), a defesa de Amanda Maria Souza de Oliveira solicitou uma avaliação psiquiátrica da mulher, enquanto o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) requereu a prisão preventiva da investigada.

A Justiça acatou a solicitação do MPSC e decretou a prisão preventiva de Amanda no final da tarde desta quarta. Ela será encaminhada ao Presídio Feminino de Joinville. Procurada pelo NSC Total, a defesa afirmou que identificou elementos que justificaram o pedido de realização de exame de sanidade mental.

“O requerimento foi acolhido pelo Juízo, que determinou a realização de perícia oficial para avaliação de sua condição psíquica. A defesa aguarda a conclusão da perícia técnica, que poderá contribuir para o adequado esclarecimento das circunstâncias relacionadas ao caso e para a adoção das medidas processuais cabíveis”, afirmou o advogado Rafael Luiz Siewert.

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Confira a nota da defesa na íntegra

“Fui nomeado defensor dativo da investigada, uma vez que a Defensoria Pública não atua perante o Juízo de Garantias da Comarca de Joinville.

Após a análise dos autos e entrevista com a custodiada, a defesa identificou elementos que justificaram o pedido de realização de exame de sanidade mental. O requerimento foi acolhido pelo Juízo, que determinou a realização de perícia oficial para avaliação de sua condição psíquica.

Neste momento, a investigada permanece à disposição da Justiça em razão da decisão que converteu a prisão em flagrante em prisão preventiva e da necessidade de realização do exame pericial já determinado.

A defesa aguarda a conclusão da perícia técnica, que poderá contribuir para o adequado esclarecimento das circunstâncias relacionadas ao caso e para a adoção das medidas processuais cabíveis.

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Por respeito ao andamento das investigações e aos direitos da investigada, não serão prestados comentários sobre o mérito dos fatos neste momento.”