Mesmo representando a maioria da população e investindo mais em estudos, as mulheres estão menos presentes no mercado de trabalho e recebem salários menores em comparação aos homens. Conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de participação delas em empregos remunerados era de 53,3% em 2022, enquanto a dos homens era de 73,2%. A remuneração também é um fator que apresenta uma grande disparidade, já que as brasileiras ganham, em média, 21% a menos que os brasileiros.

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Este é um problema histórico e que se arrasta por décadas. No ritmo em que as coisas estão, conforme aponta o último relatório global de disparidade de gênero, as mulheres levariam 131 anos para chegar ao mesmo patamar que os homens.

Para Rosane Silva, secretária Nacional de Autonomia Econômica e Política de Cuidados do Ministério das Mulheres, essa desigualdade no mercado de trabalho é gerada pela sociedade patriarcal e machista a qual estamos inseridos, que determina funções específicas e cria uma “divisão sexual do trabalho”.

Isto também fica evidente quando se analisa a configuração da maioria das famílias brasileiras. Os números mostram que o público feminino destina quase o dobro de tempo que os homens aos cuidados de pessoas e afazeres domésticos. Essas tarefas consumiram 21,3 horas semanais delas contra 11,7 horas deles.

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— Por isso as mulheres, quando têm a possibilidade de uma promoção, abrem mão de sua ascensão por causa dos cuidados com a família. A tal da dupla jornada de trabalho acaba sendo um obstáculo — destaca Rosane.

Os números ainda indicam que 28% das mulheres ocupadas trabalhavam em tempo parcial (até 30 horas semanais), enquanto essa proporção era de 14,4% entre os homens. Outro dado que chama a atenção é que a taxa de mulheres que vive na informalidade, tipo de ocupação caracterizada pelo menor acesso a direitos trabalhistas, é de 39,6% contra 37,6% de homens.

Patriarcado, machismo e desigualdade histórica

Entrar, permanecer e ascender no mercado de trabalho é um grande desafio para as mulheres, principalmente as que possuem famílias e são obrigadas a assumir responsabilidades pré-definidas dentro de casa, como cuidar dos filhos.

— As mulheres precisam conciliar o cuidado no cotidiano das suas casas com o mercado de trabalho. E isso acaba sendo um grande obstáculo porque muitas acabam abrindo mão do trabalho formal já que não tem com quem deixar os filhos e com quem dividir as tarefas — diz Rosane.

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Glaucia Fraccaro, professora do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ainda complementa que a situação das mulheres no Brasil sempre foi marcada pela desigualdade, que é medida pela diferença salarial e a participação do público feminino no mercado de trabalho.

Atualmente, os homens representam sete a cada dez profissionais que desempenham atividades remuneradas, cita a professora da UFSC — situação que não se diferencia muito do cenário vivido em séculos passados. Ela pontua, ainda, que o menor acesso ao mercado formal gera também uma diminuição dos direitos e rendimentos dessas mulheres.

Apesar da paridade salarial entre homens e mulheres ter crescido, o Fórum Econômico Mundial estima que serão necessários 131 anos para alcançar a igualdade. A perspectiva leva em consideração o atual cenário. No entanto, a pesquisadora alerta que ainda há o risco de retrocesso, perda de direitos ou de conquistas no meio desse caminho. Por isso, uma forma de encurtar este tempo é justamente a valorização e divisão do trabalho doméstico.

— É claro que essas tarefas são incontornáveis e fundamentais para a existência de vida, mas é como se coubesse exclusivamente às mulheres o desempenho delas. O maior comprometimento da família, principalmente dos homens, é uma forma de encurtar esse tempo da conquista pela igualdade. Uma outra forma é a participação do Estado, que pode ajudar promovendo ações de igualdade salarial, mas também investir fortemente em equipamentos públicos de compartilhamento de cuidados — argumenta.

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Mais escolaridade, menos valorização

Os dados do IBGE também apontam que as mulheres que vivem no país têm, em média, maior nível de escolaridade que os homens. Em 2022, 35,5% dos homens com 25 anos ou mais não tinham instrução ou não tinham concluído o nível fundamental. Entre as mulheres da mesma faixa etária, essa proporção era de 32,7%. Os percentuais daqueles com nível superior completo, ainda no mesmo grupo de idade, eram de 16,8% entre os homens e de 21,3% entre as mulheres.

Mesmo nessa conjuntura, Glaucia Fraccaro sinaliza que o público feminino não é valorizado como deveria. As mulheres estudam cerca de dois anos a mais que os homens e, para a professora da UFSC, isso prova que o mercado de trabalho não necessariamente se organiza de modo meritocrático ou contrata pessoas de acordo com grau de experiência ou escolaridade.

— A pesquisa também aponta que uma parte dos empregadores diz que é melhor não contratar as mulheres, porque, afinal de contas, vão ter que arcar com licença-maternidade. Ou seja, mais homens são contratados justamente porque as mulheres se dedicam mais ao cuidar dos filhos, das pessoas, da família, dos mais velhos… e acaba que faltam mais no trabalho, pedem mais para sair antes do horário — cita.

A pesquisadora reforça que também cabe aos homens cuidar da família, mas este fato não é considerado pela forma que a sociedade é moldada, jogando essa grande massa de trabalho na responsabilidade apenas das mulheres.

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Política nacional de cuidados

Para além de uma mudança de consciência das pessoas, Rosane Silva, do Ministério das Mulheres, defende a criação de uma política nacional de cuidados em um projeto que considere a importância do cuidado para a subsistência da vida humana, mas que não faça uma divisão sexual do trabalho.

A secretária nacional de Autonomia Econômica e Política de Cuidados alerta, no entanto, que poucos projetos são pensados ou levam em conta a realidade das famílias brasileiras.

— O Estado oferta creche que não é em tempo integral, escola que não é em tempo integral, temos poucas experiências de centros para atender os idosos. O cotidiano da casa não tem nenhuma política e esse trabalho também precisa ser dividido com o Estado, sociedade, empresas e com a própria família — frisa.

Rosane diz que o tema já vem sendo discutido no Ministério e que será levado ao presidente Lula nos próximos meses, junto a um conjunto de ações desenvolvidas pelo governo federal que devem ser estendidas em diálogos com estados e municípios.

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A ideia do projeto é liberar o tempo das brasileiras para que elas possam dedicar-se mais ao que quiserem, seja ao trabalho formal ou, até mesmo, ocupar um espaço político. Para a secretária, uma lei que incorpore as diferentes realidades será um primeiro passo, mas ainda há muito no que avançar, especialmente no que diz respeito a mulheres negras.

— Quando a gente faz o recorte racial, a gente sabe que as mulheres negras são a maioria da população pobre no nosso país, a maioria das chefes das suas famílias. Por isso, tem que ter uma política de Estado séria, que mude a realidade das mulheres negras no nosso país. Não queremos continuar reproduzindo mulheres negras pobres periféricas — diz.

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