Em tempos em que a realidade desaponta, monstros viram príncipes e nos becos digitais do BookTok e do BookGram, encontraram amor e fãs devotos. Vampiros, minotauros, alienígenas, lobisomens, criaturas que antes habitavam os contos do medo agora reinam nos romances.
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Com raízes em A Bela e a Fera e Shrek, o monster romance voltou a ganhar destaque, desta vez embalado pela Geração Z. Com os olhos treinados na tela, os nascidos entre a segunda metade da década de 1990 até o início dos anos 2010, foram quem abriram as portas para o subgênero voltar a evidência em livros e filmes. Rafaella Machado, editora executiva à frente dos selos Verus e Galera Record, do Grupo Editorial Record, vê nessa nova febre uma mistura poderosa de escapismo e reconhecimento.
— Esse é o poder da fantasia, porque ela te leva para outra realidade. E a partir desse lugar de distância você consegue ver a opressão, a injustiça, quais são as questões que os protagonistas estão enxergando e se sentir próximos deles — destaca Rafaella.
Para Rafaella, poucos espaços são tão generosos quanto o da literatura, uma vez que os livros são instrumentos para “brincar, sonhar, para conhecer outras pessoas e para exercitar a criatividade”.
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— Precisamos de um espaço onde possamos voltar a sonhar. Nossa capacidade de sonhar é um mecanismo de sobrevivência e o monster romance não é só um monstrinho que vai te divertir, é outra realidade que vai chegar para alguém que está precisando, que o leitor vai entrar em contato com a própria monstruosidade e vai descobrir ali o seu pertencimento e esse dominador comum que temos com todo mundo, mas que através do diferente é mais fácil de se conectar— pontua.
Ela chama os livros de último reduto de imaginação não interrompida. Nada ali pisca, grita ou vende. É só o texto, o tempo e quem o lê. E, nesse encontro íntimo, em um tempo de cérebros saturados e telas que não perdoam o cansaço, mergulhar em histórias de monstros apaixonados pode ser o equivalente moderno a caminhar pela floresta e encontrar, enfim, uma clareira.
Lua em Touro
É a partir dessa perspectiva que se observa o sucesso de Lua em Touro, de Ruby Dixon, romance entre uma herdeira em ruínas e um minotauro, publicado no Brasil em uma collab entre a Editora Verus e a Galera Record. O livro oferece à protagonista (e ao leitor) uma maneira de reconstruir a dignidade após a queda. Não é a história de um monstro que vira homem. É de uma mulher que aprende a desejar o que antes temia.
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O monstro, mesmo que o mais distante da realidade física possível, encarna traumas, medos, impulsos reprimidos. Ao se apaixonar por ele, o leitor aprende a amar o que negava em si.— O monstro é uma sombra simbólica— diz Rafaella. E o romance fantástico toca feridas como luto, abandono, culpa, desejo de pertencimento.
Garras
Lis Vilas Boas conhece bem o monster romance. Em seu livro Garras, publicado pela Rocco, ela conta a história de Diana, uma bruxa “bastarda” cansada de não merecer nada, até que encontra Edgar, um lobisomem tão bruto quanto vulnerável.
— Eu queria muito uma protagonista que tivesse conflitos familiares, que se sentisse sozinha e não acreditasse que merecia coisas boas, como uma família funcional e amor. Também queria trabalhar a ideia de monstruosidade e questionar: afinal, quem é o monstro da história?— pontua Lis.
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Essa pergunta norteia todo o romance. No cenário inspirado no Rio de Janeiro, ainda que fictício, humanos convivem com lobisomens, vampiros, fadas e faunos. Mas, nesse mundo, os não humanos são tratados como cidadãos de segunda classe. — As bruxas ficam num meio termo entre o monstro e o não monstro. E como Diana é filha bastarda de uma família rica de caçadores de monstros, ela sofre ainda mais rejeição — explica Lis.
Apesar da ambientação fantástica, Garras fala de dores reais. — O monstro é sempre uma metáfora. Hoje a gente tem muitas histórias literárias que estão interessadas em trabalhar a raiva feminina, e eu acho impossível escrever sem trazer esses dilemas humanos. Até quem não é o público-alvo consegue reconhecer essas camadas — comenta a autora.
O romance, contudo, foi sempre a prioridade e todas as decisões narrativas de Lis partiam da relação entre Diana e Edgar. — Se eu precisava escolher entre uma cena de ação e uma cena romântica, eu priorizava o romance. O que importava era como aquilo impactava a evolução do casal —.
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Se em romances o herói costuma concentrar a paixão das leitoras, aqui foi a mocinha quem conquistou as leitoras. — Eu achei que Diana seria uma personagem controversa, mas as pessoas passaram todos os panos para ela — brinca Lis — Homens, mulheres, pessoas não binárias… todo mundo se emocionou com a trajetória dela — finaliza a autora, que já escreve um novo volume, desta vez centrado no irmão de Edgar.
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