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    Esperança

    Morador de Garuva distribui origamis com mensagens gentis durante a pandemia

    Por consequência de uma trajetória escolar marcada pelo bullying, Marcelo Leite foi parar no hospital e aí teve a ideia de transmitir gentileza pelas caixas de correio

    15/04/2021 - 16h31 - Atualizada em: 15/04/2021 - 16h40

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    Patrícia
    Por Patrícia Della Justina
    Marcelo distribui mensagens de motivação nas caixinhas de correio
    Marcelo distribui mensagens de motivação nas caixinhas de correio
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    O morador de Garuva, Marcelo Murilo Leite, de 25 anos, encontrou uma forma de transmitir leveza e gentileza pela vizinhança da cidade do Norte de Santa Catarina. Em forma de origamis, Marcelo distribui mensagens de motivação desde fevereiro de 2020 nas caixinhas de correio. 

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    A inspiração surgiu em um momento de ápice, extremamente difícil, enfrentado por Marcelo. Durante muitos anos ele sofreu bullying na escola. As ações violentas levaram a consequências traumáticas nos anos seguintes. Em 2019, ele chegou a tentar tirar a própria vida. 

    Origamis
    Origamis carregam mensagens motivacionais
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    - A ideia [dos origamis] surgiu na cama da Unidade de Pronto Atendimento. Passei quase dois dias dormindo, quando acordei, veio esse pensamento, de, alguma forma, falar mais sobre saúde mental e bullying nas escolas - contou Marcelo em entrevista ao portal G1.

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    10 mil peças de papel

    Origamis
    Marcelo estima ter feito 10 mil peças
    (Foto: )

    Marcelo já contabilizou 10 mil peças feitas por ele. A arte do origami é tradicionalmente japonesa. São dobraduras geométricas de papel as quais formam representações de objetos sem que seja necessário cortes ou colagens. 

    Segundo o morador, essa é uma forma de levar esperança durante o momento difícil pelo qual todos estão enfrentando com a pandemia. 

    - Eu já recebi mensagens de que as coisas que eu faço melhoraram o dia da pessoa. São palavras que me dão mais força para continuar - destaca. 

    Ele se inspirou em letras de músicas para escrever as mensagens. As canções são as mesmas que serviram de conforto para ele no momento em que enfrentava bullying na escola.

    Trajetória escolar violenta

    Durante o período em que estava na escola, Marcelo enfrentava constantemente episódios de bullying. Ele relata que o período mais delicado foi entre o nono ano do ensino fundamental e o terceiro ano do ensino médio. 

    - No início me excluíram, eu chorava todos os dias porque não tinha amigos, eu não entendia o porquê daquilo. Eles me chamavam de aberração, esquisito. Sofri agressões físicas e psicológicas. Sempre achavam uma maneira de me humilhar. Lembro até hoje das risadas que eles davam quando eu apresentava algum trabalho - relembra. 

    Por conta de uma situação de saúde que o pai enfrentava, Marcelo preferia não falar em casa sobre o que acontecia na escola. 

    - Eu não contava o que estava acontecendo por conta que meu pai estava passando por um momento delicado, ele sofreu um infarto e fazia hemodiálise, minha mãe cuidava dele, eu não queria ser mais uma preocupação, por isso não falei nada, guardei isso só pra mim - conta. 

    "Fiquei de cara com a morte"

    Em 2012, quando conclui os estudos, ele permaneceu enfrentando as consequências dos atos violentos e de humilhação. Marcelo acabou desenvolvendo ansiedade e depressão, não tinha desejo de conviver com pessoas e frequentemente sofria com pensamentos de menosprezo sobre a própria existência. 

    Ele tentou tirar a própria vida, mas foi resgatado por bombeiros e encaminhado ao hospital. Marcelo recebeu diagnóstico de depressão profunda e transtorno bipolar e precisa fazer uso de medicamentos controlados. 

    - Até hoje me pergunto como eu consegui sobreviver, fiquei com um problema de coordenação motora por um período longo, tive convulsões e fiquei de cara com a morte. Nunca consegui compreender que prazer se pode ter ao magoar alguém - completa.

    O desejo de Marcelo agora é estender a ação às escolas assim que a pandemia acabar, especialmente na unidade onde estudou. Marcelo pretende voltar ao local para realizar palestras sobre as consequências desse tipo de violência. 

    Ele defende que as instituições não podem tolerar esse tipo de situação. 

    - Não se cale e não tenha medo. Falar é a melhor solução, não é só uma frase clichê. Se eu tivesse falado mais sobre o que eu estava sentindo na época, não precisaria passar por tudo isso. É algo que às pessoas escondem, por acharem que é fraqueza, ninguém sabe o que se passa pela cabeça de outra pessoa, sempre devemos ser gentis - aconselha. 

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