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Moradores suplicam por passarela em ponto da BR-470 onde mulheres morreram atropeladas

Reivindicação por travessia segura em Gaspar é feita desde 2015; DNIT reconhece necessidade, mas não tem perspectiva para construção

10/11/2021 - 12h17 - Atualizada em: 16/11/2021 - 13h33

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Bianca
Por Bianca Bertoli
Atropelamento matou duas mulheres e deixou um homem gravemente ferido em Gaspar
Atropelamento matou duas mulheres e deixou um homem gravemente ferido em Gaspar
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Uma tragédia anunciada. Para muitos moradores do bairro Margem Esquerda, em Gaspar, assim pode ser resumido o atropelamento com mortes registrado na BR-470 na segunda-feira (8). Vera de Souza Melo, 44, e Cleonice Brizola, 52, atravessavam a rodovia com o marido de Vera para ir ao mercado quando os três foram atingidos por um carro. 

Elas morreram no local. Ele faleceu uma semana depois no hospital de Blumenau.

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Na região em que o acidente aconteceu, o pedido por uma passarela é constante. Uma audiência pública em 2015 oficializou a reivindicação, conforme registros na Câmara de Vereadores. No documento, a passagem para pedestres foi solicitada sobre cinco pontos da BR-470, entre os Kms 34 e 40. Um deles bem diante da Rua Albertina Maba, onde moravam as duas mulheres mortas nesta semana.

Em 2020, um abaixo-assinado reforçou a necessidade de uma nova audiência pública, desta vez com a presença do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). O encontro chegou a ser marcado, conta o morador e vereador Francisco Solano Anhaia, mas teve de ser cancelado com a chegada da pandemia do coronavírus.

À época, a principal demanda era a travessia perto da Rua Albertina Maba. O DNIT reconheceu a necessidade em um documento assinado pela equipe de engenharia e uma visita foi feita pelos representantes da instituição, surgindo a expectativa de que a demanda sairia do papel. Mas não.

Enquanto nada acontece, o trecho segue fazendo vítimas. Uma delas foi Sandra Mara Balzanello, 44, que sobreviveu para contar a história, no entanto não sem sequelas e dor. Era maio de 2019 quando a vizinha de Vera e Cleonice saiu para trabalhar de bicicleta, como sempre fez. As obras da duplicação ainda ocorriam no ponto da rodovia em que ela costumava atravessar para chegar à empresa, bem próximo ao Km 32,9, onde aconteceu o acidente na segunda-feira.

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Sandra subiu na bicicleta e, ao começar a pedalar em direção ao outro lado, foi atingida por um caminhão. A roda passou por cima dela. Uma das pernas quase precisou de amputação. Para evitar a retirada, foram cinco procedimentos cirúrgicos. As cicatrizes nos membros inferiores e posteriores evidenciam a gravidade do esmagamento que sofreu.

— Estou viva por um milagre. Quando me vi daquele jeito achei que não ia voltar, cheguei a me despedir do meu marido no hospital. É uma sensação de morte, algo inexplicável. Só pedia a Deus para não me levar por causa dos meus filhos — lembra Sandra.

Mãe de uma menina de nove anos e um garoto de 14, é com eles que a moradora mais se preocupa. A escola municipal perto da comunidade é a Professor Vitório Anacleto Cardoso. O marido de Sandra leva os filhos de carro, mas nem todos têm condições de fazer o mesmo. 

Ela conta que ver crianças correndo na rodovia com mochila nas costas não é uma cena incomum. Além da unidade de ensino, há outras necessidades do outro lado da BR-470, como um ponto de ônibus e um mercado.

— Ontem estávamos tentando lembrar. Desde que a obra de duplicação começou já foram pelo menos cinco pessoas que morreram. Nosso primeiro pedido é pela passarela e o segundo, controlador de velocidade — pede o vereador.

Na última década, 69 pessoas morreram atropeladas nos primeiros 100 quilômetros da BR-470, ou seja, de Navegantes a Apiúna. O levantamento é da Polícia Rodoviária Federal, feito em agosto deste ano, e considera apenas os óbitos nos locais, não em hospitais. É o quarto tipo de acidente mais comum da rodovia em uma lista com 11 motivos.

Tipos de acidentes com mortes ocorridos na BR-470, entre Navegantes e Apiúna, de 2011 a 2021
Tipos de acidentes com mortes ocorridos na BR-470, entre Navegantes e Apiúna, de 2011 a 2021
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Controle de velocidade

Quando havia lombada eletrônica no trecho, os perigos eram menores, recordam os moradores. Agora, sem controle de velocidade e com as pistas novas e duplicadas, os riscos dobraram.

— Só na Albertina são em torno de 200 famílias. Ali é uma área residencial, tudo que precisam está do outro lado da BR — reforça o parlamentar.

Sandra ficou mais de um mês internada e quase um ano afastada do trabalho. Depois de dezenas de sessões de fisioterapia, conseguiu voltar à rotina, apesar das limitações impostas pelas lesões. A programadora lembra da visita do DNIT, mas lamenta que não tenha resultado em uma boa notícia até o momento.

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— Depois que a duplicação foi entregue ficou mais perigoso, porque os carros correm muito mais. Já tentei atravessar meus filhos a pé, mas não dá, o movimento é ainda maior — conta.

Para ir ao serviço, Sandra continua passando pela BR-470 a pé. Todos os dias sai de casa com medo de não voltar.

— Vou fazer o quê? Preciso pagar minhas contas. A gente vai passar por onde?

Sem previsão

O DNIT reconhece a necessidade de uma passarela em Gaspar e outros trechos da BR-470, como já mencionado em um ofício no ano passado, mas disse, por nota, que o “atual contrato de duplicação da BR-470 não prevê a construção” delas. 

Isso significa que não há orçamento previsto para esse objetivo e um novo projeto precisa ser feito. Ele pode ser acrescentado ao contrato atual ou virar uma obra à parte. Esse detalhe, porém, ainda não foi definido, tampouco o tempo que será preciso para elaborar o novo projeto.

“A demanda já está em fase de estudo na autarquia”, declarou o DNIT na nota.

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