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Violência

Mulher assassinada em praça de São José tinha filho de 11 anos e era querida pelas colegas 

Aline Rodrigues Camargo Pereira, de 37 anos, foi vítima de feminicídio na Beira-Mar de São José nesta quarta à tarde

08/05/2019 - 21h13 - Atualizada em: 09/05/2019 - 18h39

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Lucas
Por Lucas Paraizo
Aline trabalhava como uma das "margaridas" da Comcap, varrendo as ruas de Florianópolis
(Foto: )

“A Aline fez o que podia”, comentaram as colegas de trabalho. Depois das ameaças, da violência, das agressões, ela procurou a polícia e registrou boletins. Ainda assim, assustada e se sentindo perseguida, procurou os chefes e pediu para trabalhar em outro lugar de Florianópolis. O pedido foi atendido. Ela saiu do Norte da Ilha e passou a varrer as ruas do Centro da cidade e da região de Coqueiros. Tudo para manter distância. Estava dando certo, achavam as colegas de trabalho. Aline parecia feliz, havia trabalhado até as 13h desta quarta-feira e foi para São José — onde estava morando. Não chegou em casa.

Em meio a adolescentes e adultos esportistas, alguns até com crianças por perto, à luz do dia, Aline foi morta pelo ex-companheiro. Em uma das regiões mais movimentadas de São José, na Beira-Mar, na praça ao lado da pista de skate, ao menos oito facadas atingiram o pescoço, o abdômen, os braços e a perna da mulher de 37 anos. O sangue manchou o concreto onde sobrou apenas um pedaço rasgado da blusa rosa que ela usava na hora, ali onde horas depois outros adolescentes, crianças e adultos passavam de skate, bicicleta e roller e não seguravam o olhar.

— A mãe dela ficou ali no lado chorando, duas crianças que estavam com o pai na pista também choraram assustadas. Todo mundo aqui ficou apavorado — contou um skatista que viu a rotina calma da praça ser rasgada.

Uma testemunha disse ter visto tudo acontecer. Às 14h05min ele estava na pista com a namorada e tirou uma foto dela no celular. No fundo, em um canto da imagem, Aline aparece conversando com o ex-companheiro na mureta à beira do mar. Parecia cena comum de uma tarde na praça. Instantes depois ele viu a mulher correndo em direção a pista e o homem atrás dela.

O barulho de roçadeiras trabalhando no gramado ocupou o ar e impediu que qualquer pedido de ajuda de Aline fosse ouvido. Somente quando ela já estava no chão, atingida pelas facadas, que as pessoas ao redor perceberam e evitaram que as agressões continuassem. A faca de cabo branco e lâmina grande, usada para cortar carne, chegou a quebrar com a violência dos golpes. O autor do crime, então, foi imobilizado e agredido por algumas pessoas até que um guarda que estava no Centro Multiuso, ao lado da pista, corresse até lá.

feminicídio
(Foto: )

Vítima tinha um filho de 11 anos

Identificado como Luciano Pereira, de 46 anos, o autor das facadas foi preso em flagrante e levado para a delegacia, onde deve ficar até a audiência de custódia às 13h desta quinta-feira, segundo o delegado Manoel Galeno. Ele deve ser indiciado por feminicídio. Parentes da mulher trabalham em uma loja perto do local do crime e foram até a pista e depois até o IML. Ainda não é claro o que motivou o crime e se o ex-companheiro havia seguido ela até o local ou eles haviam combinado a conversa.

Aline trabalhava na Comcap como auxiliar operacional desde 2015. Em uma empresa grande, com centenas de funcionários, conseguiu ser uma unanimidade: colegas diziam que ela era querida por todos. Era uma das chamadas “margaridas” que trabalham varrendo as ruas de Florianópolis e usava a renda para sustentar ela e o filho de 11 anos. Em sua página nas redes sociais, a foto de perfil mostrava o último aniversário do menino. Um bolo com velas de 11 anos, Aline e Luciano com o filho, em uma cena agora impossível de ser repetida.

Em praça pública, no meio da tarde, em um espaço de lazer, Aline morreu envolta em brutalidade. Com a violência que faz estatísticas aumentarem (a 23ª vítima de feminicídio em SC no ano) e quebra famílias. Perto do Dia das Mães, as rodas de skates e bicicletas seguiram girando na pista ao longo do dia, mas nenhum sorriso foi visto perto daquela mancha vermelha. No concreto, só houve espaço para uma mãe que chorou pela filha. A mulher que não chegou em casa onde o filho a esperava.

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