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    TRAGÉDIA NO ALTO VALE

    Mulher perde nove familiares na tragédia de Presidente Getúlio: "um pedaço de mim foi embora"

    Vítimas estavam em casa no momento em que a enxurrada arrasou e destruiu imóveis na localidade mais afetada pelo fenômeno

    18/12/2020 - 04h44 - Atualizada em: 18/12/2020 - 18h49

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    Bianca
    Por Bianca Bertoli
    Dorita olha para o local onde antes havia casas. Agora, há lama e pedras.
    Dorita olha para o local onde antes havia casas. Agora, há lama e pedras.
    (Foto: )

    Enquanto os socorristas procuravam pelas vítimas sob a lama e escombros deixados pela tragédia de Presidente Getúlio nesta quinta-feira (17), uma mulher chorava copiosamente. Segurando as próprias mãos, olhava ao redor como se esperasse por um abraço. De repente, uma bombeira voluntária surge e, parecendo entender o pedido silencioso, envolve Dorita Wiese, 55, entre os braços. A mulher perdeu nove pessoas da família. Filho, nora, mãe, sobrinhos e irmãos. Dos nove, sete foram identificados até a tarde desta sexta-feira (18) e dois continuam desaparecidos. 

    — Por que Deus permitiu isso? Minha família sempre foi unida, de pessoas boas...Por que a minha?

    Ela tenta encontrar a resposta.

    Dorita trabalha em uma malharia da cidade. Na noite desta quarta-feira (16), ao sair da empresa logo após as 22h, não conseguiu chegar à casa em que vive com o marido, a filha e a neta por causa de alguns pontos de alagamento. A chuva já começava a ganhar força e por isso decidiu dormir na residência de uma família de conhecidos.

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    Na manhã desta quinta-feira (17) conseguiu seguir pela Rua Getúlio Vargas, no bairro Revólver, com dificuldade. A via pavimentada se tornou um mar de lama. Alguns trechos cederam. Durante o trajeto a pé, encontrou os bombeiros levando uma pessoa. Nem mesmo a sujeira impediu que reconhecesse aquele rosto. 

    Era a cunhada, Francielli Wiese, que morreu horas depois no hospital. Os socorristas então avisaram que três casas com as famílias dentro foram arrastadas pela enxurrada.

    Uma delas era de um dos oito irmãos de Dorita, marido de Francieli. Daniel Wiese, de 44 anos, estava com a esposa e os dois filhos: Ariel Wiese, de 5 anos e uma menina de 13. Momentos antes da água descer com mais força, ilhado na varanda, Daniel pediu socorro com a luz da tela do celular, relataram vizinhos. 

    Não houve o que fazer. 

    A enxurrada arrastou o que viu pela frente. A menina de 13 anos foi arremessada contra o muro e ficou agarrada à estrutura. Ouviu os pais e o caçula serem levados. Foi a única encontrada com vida até o momento.

    Dos quatro imóveis que deveriam estar nesta foto, restou apenas um.
    Dos quatro imóveis que deveriam estar nesta foto, restou apenas um.
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    Da casa da frente, onde morava a mãe de Dorita, Elsa Wiese, de 82 anos, restou apenas uma grande árvore florida que era o xodó do quintal. Pouco mais abaixo, do outro lado da rua, uma casa permaneceu intacta. Era a do filho mais novo de Dorita, Andrei Bozan, de 28 anos. Ele e a esposa, Bruna Bozan, tentaram deixar o imóvel no momento da tragédia e acabaram carregados pela correnteza.

    — Um pedaço de mim foi embora. Nenhuma mãe deveria perder um filho. Ele era tudo na vida da gente. Trabalhador, queria terminar a casa e ter filhos. Dava banho no pai todos os dias, que é acamado — conta Dorita.

    O outro irmão dela, Dieter Wiese, de 50 anos, a mulher, Adriana Wiese e o filho de 17 também sumiram após terem a casa destruída. Todos viviam na Rua Getúlio Vargas, a mais afetada pelas chuvas. A de Dorita não teve danos significativos. 

    Avalanche de barro

    Em um primeiro momento ninguém conseguia entender como a água havia descido com tanta força. Foram 125 milímetros em cinco horas, mas ainda assim a conta da destruição não fechava. A resposta chegou à luz do dia.

    Deslizamentos aconteceram nos vales que circundam o bairro Revólver. A forte chuva atrelada à terra que cedeu deu origem a uma verdadeira avalanche de barro. Árvores nativas ficaram sobre a rua, pedras gigantes deram lugar às casas. No terreno ao lado do imóvel de Dorita, onde se via o pasto, galinheiro e as casas do irmão e da mãe, havia apenas rochas e vegetação arrancada do morro.

    — Não entendo... Até semana passada esse córrego, que nunca teve mais de um metro de largura, estava seco — constata.

    O ribeirão que corta o bairro e leva o mesmo nome também nunca deu sinais de preocupação. A região não é atingida por enchentes. É vista no ramo imobiliário como um dos melhores pontos da cidade para se viver. 

    Na madrugada desta quinta, porém, tornou-se palco de uma das maiores tragédias climáticas do Estado, já comparada pela Defesa Civil à de 2008, quando chuvas torrenciais atingiram em especial o Vale do Itajaí. No Morro do Baú, em Ilhota, enxurradas e deslizamentos mataram 47 pessoas.

    Rastro de destruição no bairro Revólver, onde morreram todas as vítimas da tragédia.
    Rastro de destruição no bairro Revólver, onde morreram todas as vítimas da tragédia.
    (Foto: )

    O prefeito de Presidente Getúlio, Nelson Virtuoso, 63 anos, garante que a cidade nunca protagonizou uma tragédia como essa. Além do Revólver, os bairros Rio Ferro e Centro também registraram ocorrências. Nestes, famílias perderam tudo o que tinham dentro dos imóveis, mas vidas foram poupadas. A força se concentrou no bairro mais próximo aos morros.

    — A nossa cidade é tão limpa, você não encontra um papel no chão. E agora está assim, destruída. Não dá para acreditar — lamentou o prefeito.

    Pelas ruas, o cheiro forte de lodo se misturava ao de suor. Bombeiros buscavam por corpos e moradores tentavam retirar o que sobrou dos imóveis. Com trouxas e malas improvisadas, levavam roupas para casa de parentes ou em um dos abrigos montados pela prefeitura: no salão paroquial e no ginásio de esportes do município.

    Pessoas gritavam por socorro

    No cenário de guerra, o episódio que não sai da cabeça de muitos é o de vítimas que pediram socorro antes de desaparecer em meio às águas. Clique aqui e confira os relatos.

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