Fazer previsões é sempre muito difícil. Se olharmos o passado analisando previsões feitas e o que realmente aconteceu, veremos que muitas não se tornaram realidade enquanto que outras, que não foram consideradas, acabaram prevalecendo na prática do mercado. Então, o máximo que podemos arriscar são tendências de mercado, observando o direcionamento do consumo e as mudanças em curso.
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O mundo do vinho sempre foi muito dinâmico e acompanhá-lo de forma responsável, sem fazer adivinhações, sempre foi difícil; agora, com a tecnologia de vento e popa e a IA nos deixando muitas vezes comendo poeira, ficou ainda mais desafiador. Tudo o que acontece no outro lado do mundo, temos acesso imediato, e, neste carrossel de informações que gira cada vez mais rápido, acompanhar tudo se tornou um trabalho hercúleo e na prática impossível.
O vinho é uma bebida viva, sensível, cheia de caprichos e fortemente sujeita ao clima e a desastres naturais, como neve, geadas, granizo, ondas de frio e calor fora das estações, queimadas, etc… A mudança climática é um grande fator de transformação, que também traz o aquecimento global, que opera mudanças significativas no mapa vitivinícola mundial.
Fazer previsões neste panorama multifatorial é quase uma roleta russa. Mas podemos fazer algumas considerações a este respeito, observando as mudanças no mercado global, comportamento do consumidor, produção, inovação no setor e produtos:
- Vemos uma tendência importante nos consumidores de vinhos, que já não buscam descrições formais dos vinhos inalcançáveis para a maioria, mas sim uma linguagem técnica acessível que aproxime, onde os vinhos falem por si, através da experiência sensorial vivida, e não vestida de uma formalidade que afasta ao invés de aproximar.
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- Os mercados mais tradicionais de vinhos, como Europa e EUA, enfrentam uma retração no número de consumidores. Isto certamente levará estes mercados a acelerar um movimento de premiunização, apostando em vinhos de maior valor agregado, compensando a retração do mercado, da quantidade para qualidade (preço).
- A preferência dos consumidores por vinhos mais frescos, leves e menos alcoólicos está em alta, e certamente se fortalecerá ainda mais na medida em que uma parcela cada vez maior da sociedade passe a procurar um estilo de vida mais saudável, sustentável e com propósito. Esta preferência de compra levará as vinícolas a alterar todo o processo produtivo para este estilo de vinhos. Isto inclui brancos precisos, rosés de qualidade e tintos menos extraídos, mais leves, e menor teor alcoólico.
- A sustentabilidade deixou de ser ocasional para torna-se uma exigência de quem consome, aumentando consideravelmente o número de apreciadores que optam por rótulos que respeitam o meio ambiente, com os vinhos orgânicos e biodinâmicos ganhando destaque, além de optarem por vinícolas que adotam tecnologias verdes, com práticas sustentáveis para reduzir o impacto ambiental, eficiência energética e controle biológico de pragas. A força deste movimento só cresce e as vinícolas deverão adaptar sua produção desde o manejo dos vinhedos, o processo produtivo dos vinhos e o envasamento, optando por embalagens mais ecológicas, mais leves e de menor impacto ambiental.
- A produção em massa perde o interesse e a história do vinho ganha uma importância que nunca foi muito observada. A experiência transforma o ato de beber um vinho em uma experiência memorável, agregando valor cultural, emocional e técnico, que o paladar não conseguiria transmitir; conectando o degustador às origens, às pessoas e valores por trás do rótulo. A história revela a paixão, a luta ou a tradição de quem produziu o vinho, criando um laço direto entre produtor e consumidor, uma verdadeira conexão emocional, preenchendo a taça com significado.
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- Muito se fala nas mudanças que podem ocorrer no consumo de vinho no Brasil, decorrente do Acordo Mercosul e União Europeia. Menores preços para vinhos importados, aumento da diversidade de rótulos importados disponíveis no mercado e maior competitividade, que traria pressão no mercado interno para os vinhos Sul americanos. Porém, a exportação dos vinhos Sul Americanos seria beneficiada com a eliminação da barreira tarifária na União Europeia. Na verdade, muitos aspectos deste acordo ainda não estão claros nem bem definidos, temos que acompanhar .
Enfim, em 2026, o mundo do vinho deixa claro que não se trata mais de somente produzir, mas de produzir com propósito, identidade, assinatura do terroir de origem, com intenção e sensibilidade, percebendo que o vinho deve ir além da taça. Novos hábitos de consumo se formam, e a busca de significado e conexão é o novo perfil de consumidor, onde o vinho deve reafirmar seu papel cultural e social. É saber ouvir o consumidor, respeitar a terra, traduzir história e entregar autenticidade na taça é a garantia de futuro próspero.
Saúde!
Nea Silveira
@neasommeliere

