Os cômodos são pequenos e as paredes guardam os registros históricos. Um vestido de casamento que nunca mais foi usado, uma máquina de costura que um dia foi novidade, móveis de madeira que viram gerações nascerem e morrerem dentro daquela casa. Quem entra em uma das casas do Museu da Família Colonial, na Alameda Duque de Caxias, no Centro de Blumenau, faz uma viagem no tempo.

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O museu existe desde 1967 e, mais de meio século depois, continua sendo uma das visitas mais procuradas por quem quer entender como Blumenau virou Blumenau. Três casas construídas nos séculos 19 e 20, um acervo bem cuidado com 6.200 peças, um parque botânico, uma atriz viajante que virou uma reclusa apaixonada por natureza e gatos e um cemitério destes mesmos felinos contam a história da propriedade no Centro Histórico.

A Casa 1 foi construída em 1858 pelo imigrante alemão Hermann Wendeburg (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

O que é o Museu da Família Colonial

O Museu da Família Colonial é uma unidade da Fundação Cultural de Blumenau. Ele ocupa três casas tombadas, edificadas nos séculos 19 e 20, e é reconhecido como o endereço das edificações mais antigas ainda de pé na cidade. O acervo foi formado, principalmente, a partir de objetos doados por Edith Gaertner, sobrinha-neta do fundador da cidade, Hermann Bruno Otto Blumenau.

Visita guiada pelo complexo com mediador dura entre 30 minutos e uma hora (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

O objetivo, desde a criação, é preservar a memória e a herança cultural dos imigrantes que se estabeleceram no Vale do Itajaí. Em 2007, o complexo foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o que consolida o status de patrimônio nacional. Uma área de 1.775 metros quadrados, dentro dos primeiros lotes desmarcados da colônia, e uma residência edificada do século 19, foi doada pela última moradora, Edith Gaertner, para a prefeitura, que conservou o espaço como uma casa-museu.

A história de Edith Gaertner

Para entender o museu, é preciso entender Edith. Nascida em 1882, ela foi a caçula de oito irmãos. Aos 20 anos, depois da morte dos pais, fez o que poucas mulheres da época fariam: partiu sozinha do Brasil. Trabalhou como governanta em uma fazenda no Uruguai, mas foi na Argentina em que começou a realizar um sonho: foi parar nos palcos europeus como atriz, como conta a Fundação Cultural de Blumenau.

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Edith Gaertner, sobrinha-neta do fundador da cidade e última moradora da casa (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

Em Viena, em Leipzig, nas cidades que faziam a cultura do Velho Continente, Edith encenou Goethe, Schiller, Molière e Shakespeare, e a crítica a recebia bem. Porém, em 1924, chegou a notícia de que os irmãos estavam à beira da morte. Por isso, voltou ao Brasil e nunca mais pisou em um palco de teatro.

De volta a Blumenau, Edith passou a viver na propriedade da família, solteira, sem filhos e foi se deparando, um a um, com a morte dos irmãos. A ausência familiar cresceu e, para preencher o silêncio, passou a criar gatos. Sepultava cada um deles com direito a cerimônia e cortejo no horto dos fundos. Hoje, o local conta com lápides e esculturas de porcelana feitas pelo artista Miguel Barba.

Quando Edith morreu, aos 85 anos em 1967, a Prefeitura de Blumenau transformou a casa onde ela viveu em museu. Nascia ali o Museu da Família Colonial.

Vista geral do complexo museológico, com área total de 15.000 metros quadrados (Foto: Victor Guerreiro, NSC Total)

As três casas: como é a visita

O Museu da Família Colonial foi ampliado em julho de 2003 e passou a ter três casas, além do Horto Botânico Edith Gaertner. A última residência foi doada por Renata Luísa Dietrich, edificada em 1858, e é considerada a mais antiga de Blumenau.

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A Casa 1 foi construída em 1858 pelo imigrante alemão Hermann Wendeburg, que foi assessor e guarda-livros do Dr. Blumenau e, mais tarde, foi diretor interino da Colônia Blumenau, como mostrou a historiadora Angelina Wittmann, em uma pesquisa pelo acervo na biblioteca da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Com o falecimento de Hermann Wendeburg, a residência foi adquirida pelo imigrante Paulo Schwartzer. A última herdeira, Renata Rohkohl Dietrich, a doou ao município em 1964.

Vista externa do Museu da Família Colonial, na Alameda Duque de Caxias, no Centro de Blumenau (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

Em 1997, quando ela morreu, a casa foi incorporada ao patrimônio da Fundação Cultural de Blumenau. É considerada a edificação mais antiga da cidade. Dentro dela, exposições com objetos das famílias Schwartzer, Rohkohl e Dietrich, que fazem parte do Museu da Família Colonial, como vestidos de casamento, máquinas de costura, peças das décadas de 1920, 1950 e 1970.

Há também uma cozinha típica da região na época, com uma geladeira à base de gelo, espremedor de laranja, formas de bolo feitas de barro, fogão a lenha, panelas de ferro e litro para água.

Interior da Casa 1 com mobiliário e objetos do acervo de 6.200 peças (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

A Casa 2, de 1864, foi construída sob a técnica construtiva enxaimel em um dos primeiros lotes demarcados na antiga Colônia Blumenau. Ela foi residência do comerciante e cônsul da Alemanha em Blumenau, Victor Gaertner, sobrinho-neto do Dr. Blumenau. Veio para Blumenau e se casou com Rosalie Julie Auguste Sametski, conhecida por Rose Gaertner com quem teve oito filhos.

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A última moradora foi uma das filhas dele, Edith Gaertner, que doou ao município a casa, para que fosse preservada. É aqui, nos fundos, que fica o cemitério dos gatos. Por mais que tenha a reconstituição do quarto do Dr. Blumenau, ele nunca morou na casa, já que a residência dele ficava nos fundos daquela mesma propriedade, mas foi destruída durante uma enchente em 1880.

Móveis de madeira escura que testemunharam gerações de colonizadores no Vale do Itajaí (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

Nas casas, podem ser encontrados artefatos pessoais dos moradores e fundadores e fragmentos da história deles no Vale do Itajaí. São mobílias diversas, gramofone, porcelanas, roupas usadas na época, relógios, acessórios e joalheria, cartas e respectivas canetas, óculos, louças e talheres usadas pelas famílias coloniais e até cofre com sete fechaduras que guardava documentos e objetos de importância. As duas edificações foram tombadas pelo IPHAN e pelo Estado de Santa Catarina como Patrimônio Cultural Edificado em outubro de 1996.

A Casa 3, construída em 1920, pertenceu a Reinoldo Gaertner, sobrinho-neto do fundador da cidade. Em alvenaria de tijolos maciços, com varanda em L e telhado de forte inclinação, abriga utensílios do cotidiano daquela época, instrumentos musicais, equipamentos da indústria têxtil e artefatos doados pela comunidade ao longo dos anos.

Equipamentos da indústria têxtil e da família Gaertner no acervo da Casa 3 (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

O acervo: 6.200 peças de uso cotidiano

No interior das casas, o visitante encontra mobiliários, vestimentas, acessórios, utensílios domésticos e maquinários que somam 6.200 peças ao todo. São objetos do dia a dia dos imigrantes que chegaram ao Vale do Itajaí a partir de 1850, doados pelas famílias tradicionais de Blumenau ao longo de décadas.

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A visita é guiada e os mediadores conhecem bem a história de cada cômodo. O tempo médio de visita varia entre 30 minutos e uma hora, dependendo do interesse do grupo. Há audioguia disponível para quem prefere um ritmo mais autônomo.

Detalhe de objeto do acervo cotidiano dos imigrantes que chegaram ao Vale do Itajaí a partir de 1850 (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

O curioso cemitério dos gatos

Nos fundos do terreno, quem atravessa o Parque Horto Botânico Edith Gaertner chega ao cemitério dos gatos, com nove lápides de concreto cinza, cada uma com um nome gravado: Pepito, Mirko, Bum, Peterle, Musch, Schnurr, Sittah, Putze e Mirl. Os gatos de Edith foram amados em vida e, agora, são homenageados na morte.

O parque botânico ao redor tem cerca de quatro mil metros quadrados de mata e guarda espécies raras cultivadas pelo próprio Dr. Hermann Blumenau, fundador da cidade.

Dicas para aproveitar melhor a visita

O Museu da Família Colonial fica a poucos metros de outros pontos culturais do Centro de Blumenau. Vale combinar a visita com o Museu de Hábitos e Costumes, do outro lado da rua, e com o Mausoléu do Dr. Blumenau, no mesmo terreno. Em uma hora e meia, é possível conhecer os três.

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A Casa 3, de 1920, em alvenaria de tijolos maciços, com varanda em L e telhado de forte inclinação (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

O museu está aberto ao público de terça-feira a domingo, das 10h às 16h. Grupos podem agendar visitas com antecedência pelo telefone (47) 9968-9801. Pessoas com alergias respiratórias devem estar atentas porque o cheiro característico de casas antigas pode incomodar.

A entrada inteira custa R$ 12, mas estudantes e professores tem direito a meia-entrada, de R$ 6. Pessoas acima de 65 anos, pessoas com deficiência física (PCD), crianças abaixo de cinco anos ou quem faz parte do Plano Nacional de Educação (PNE) têm direito a gratuidade na entrada.

Veja mais detalhes das casas-museus