Do lado de fora, as paredes narram a trajetória de uma árvore genealógica. São nomes, datas e rostos de uma família que migrou para a colônia Hammonia, atualmente Ibirama, lá em 1904 e passou mais de um século fazendo o que a maioria das pessoas prefere não pensar: cuidar dos mortos.

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Dentro do local, começa o acervo histórico. São ornamentos tumulares, ferramentas de marmoraria, fotografias, negativos de vidro, catálogos, recibos e máquinas que ainda parecem guardar o peso de tudo que ajudaram a construir. O Museu Haas, em Blumenau, é o primeiro do Brasil dedicado à preservação e difusão do patrimônio cultural funerário.

Antigamente chamado de memorial Funerário Mathias Haas, foi inaugurado em 20 de julho de 2017. O museu fica na Rua José Deeke, 751, no bairro Escola Agrícola. O espaço ocupa a antiga moradia dos sogros de Rolf Haas, em um terreno da família, e foi escolhido justamente por ser mais seguro do que a sede da funerária na Rua São Paulo, que historicamente sofre com as enchentes.

A visita é mediada, gratuita e acontece com agendamento prévio. O horário de funcionamento é de segunda a sexta-feira, das 13h às 17h, e aos sábados, das 8h até 12h. 

Elke Haas Fonseca coordena museu e conta a história dos antepassados (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

“Tratar da temática morte não é das tarefas mais fáceis, pois seu significado foi constituído, em grande medida, com aspectos de frieza, de rigidez e de pesar, tais elementos também dizem respeito à rocha, material básico para a construção de túmulos e lápides. No entanto, morte e vida são complementares e essenciais à dinâmica própria da natureza”, diz uma placa logo ao lado da porta de entrada.

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O museu é uma iniciativa privada da família Haas e coordenado por Elke Haas Fonseca desde a concepção do projeto. A ideia surgiu em 2010, a partir da preocupação dos descendentes de Mathias Haas em preservar o acervo que o fundador reuniu ao longo de toda a vida. Levou sete anos até a inauguração. Como já diz o site oficial do museu, é um espaço de reflexão sobre finitude, história e trabalho.

Árvore genealógica estampada nas paredes externas conta a história da família Haas desde a imigração (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

“Se para muitos tratar da morte causa estranheza e medo, para outros é algo cotidiano. A família Haas encara a finitude da vida na rotina de trabalho, seja na construção de túmulos ou no atendimento funerário, depara-se com os sentimentos e valores que circundam a morte”, termina o texto da placa.

A história da família Haas

Tudo começa antes de Blumenau, como explica Elke enquanto caminha por entre fragmentos da história dos próprios antepassados. Em 1904, a família Haas desembarcou no Brasil rumo à colônia Hammonia, hoje conhecida como Ibirama. Vieram com seis filhos, sendo que o sexto ainda estava por nascer.

Fotografias históricas registram a atuação da Marmoraria e Funerária Haas em Santa Catarina e no Brasil (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

O próprio Mathias registrou em diários que a travessia de navio tinha a cabine “feito cova abafada, cheia de pobreza, miséria e fedor”. A chega tampouco foi romântica e, nos mesmos registros, consta que “a nova terra cumprimentamos onde leite e mel correm. Mas, logo ela se revelou em miséria e morte”.

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— Partir sem deixar para trás. Então, eles partem da terra deles, mas a cultura e os costumes se mantêm. Nos documentos, falam da adaptação deles aqui no Brasil, na alimentação e tudo mais. A família da minha bisavó era vegetariana e quando eles vieram para cá, essa alimentação não era possível porque não existia óleo vegetal, só existia a banha para poder fazer alguma comida. Então, eles acabaram introduzindo novamente os produtos animais na dieta deles — elabora Elke Haas.

Revelações de negativos integram o conjunto raro de imagens do início do século XX (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

O pai de Mathias, Anton, era escultor de formação e trouxe da Alemanha o ofício com pedra. O terreno que receberam tinha muita pedra de arenito, o que não servia para a agricultura, mas para a família de escultores funcionou. Em 1911, Anton e parte da família foram para os Estados Unidos, mas Mathias e o irmão José ficaram no Brasil.

A entrada no ramo funerário não foi planejada. Aconteceu depois que uma criança da vizinhança faleceu e a família da vítima, sabendo que os Haas trabalhavam com escultura, encomendou uma lápide. Como esse mercado não existia na região, os monumentos tumulares se tornaram o carro-chefe do negócio.

Museu Haas, em Blumenau, abriga o primeiro espaço do Brasil dedicado ao patrimônio cultural funerário (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

Com o tempo, a família expandiu e a empresa foi oficializada em 1918. Em 1915, a operação foi transferida para Blumenau, com a construção da sede na Rua São Paulo em 1921, endereço escolhido por ficar próximo à estação ferroviária e ao centro da colônia.

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Em 1937, aos 50 anos, Mathias começou a escrever um livro de memórias, intitulado “Livro de Memórias e Trajetória da Marmoraria Haas. Lembrança do passado e do presente, Alemanha/Blumenau, Brasil. Crônica familiar”. O documento se tornou um dos registros mais valiosos do acervo. Rosa também deixou memórias escritas em um caderno, e Elke destaca justamente a raridade disso, uma vez que é difícil encontrar o olhar de uma mulher sobre a vida na colônia. 

Museu Haas funciona na antiga residência da família, transformada em espaço de memória, história e reflexão (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

Durante a campanha de nacionalização do governo Vargas, o alemão foi proibido até nos cemitérios. Em 1938, um decreto exigiu a retirada de qualquer inscrição em língua alemã dos cemitérios em um prazo de 15 dias. A Marmoraria Haas foi obrigada a mudar o idioma de propagandas e letreiros e Mathias também foi multado.

“Em 1942, dada a completamente injusta multa, entendida como assédio dos mentores políticos, deveria eu pagar 100 mil réis como punição por ter fabricado uma lápide com inscrição em língua alemã. Não esbocei reação, pois uma ação tem tanto valor quanto a ela atribuímos”, escreveu Mathias Haas em um diário.

Placa original da Marmoraria foi escondida por Mathias e encontrada mais de quarenta anos depois durante reforma (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

No final da década de 1990, durante uma reforma no telhado da sede na Rua São Paulo, um funcionário encontrou, escondida entre o forro e o teto, a placa original da oficina, escrita em alemão. O item, de cerca de dois metros, também está no museu como parte do acervo. Porém, ela é visível apenas por uma pequena fenda em uma cortina de veludo porque, como explica Elke, permanece escondida, exatamente da forma que foi deixada pelos Haas.

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Rolf faleceu em 2015, aos 77 anos, sem ver o museu pronto. Porém, deixou registros suficientes para que a história fosse contada. São cadernos de viagem, fotos, anotações, catálogos e arquivos da empresa, guardados com carinho por gerações.

Catálogos, recibos e documentos compõem a memória administrativa e comercial da empresa familiar (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

O que tem no acervo

O espaço conta com diversas salas que compõem os cinco módulos expositivos, que passam pela centenária história da Marmoraria e Funerária Haas, desde os escultores dos cemitérios até os tanatopraxistas de hoje.

O acervo é formado por 13 mil itens catalogados, são ornamentos tumulares, fotografias, recibos, desenhos, ferramentas, catálogos, máquinas e as memórias escritas pelo próprio Mathias Haas e pela esposa Rosa. Quem caminha devagar, com um olhar atento e uma mente aberta, entende que a morte não passa de uma consequência da vida e, em vez de temida, deve ser homenageada e refletida.

Sala expositiva reúne memórias escritas por Mathias Haas e sua esposa Rosa (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

O conjunto fotográfico revela registros de diferentes momentos da empresa funerária da família, como do cotidiano, cemitérios de Santa Catarina e diversas localidades no Brasil, além de fotografias do início do século XX de cidades catarinenses, como Ibirama e Blumenau.

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Há também a sala tátil Otto Haas, que é uma exposição interativa e dinâmica, voltada para o público infantil e pessoas com deficiência visual. Otto era filho de Rosa e teve problemas neurológicos depois de uma febre muito forte ainda criança. Ela cuidou dele a vida toda, até falecer aos 91 anos e, por isso, a sala leva o nome dele como homenagem.

Exposição interativa permite o contato sensorial com formas e materiais do acervo (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

O módulo expositivo mais curioso e, quem sabe, desafiador é a “Sala fúnebre”. É uma experiência simbólica da morte, com a exposição de um caixão fechado e fabricado por um marceneiro de Blumenau na década de 1940. Ele o fez para si mesmo e para a esposa, e os dois caixões foram deixados no sótão da casa.

Quarenta anos depois, quando o marceneiro faleceu, a viúva não quis sepultá-lo em um caixão tão antigo, negociou com a funerária e pediu que levassem os dois caixões embora da casa. O resplendor e os cavaletes que compõem a sala são da década de 1930. No mesmo local, há uma parede inteira de giz para que os visitantes possam deixar uma mensagem.

“Sala fúnebre” apresenta um caixão da década de 1940 em experiência simbólica sobre a finitude (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

Essas peças fazem parte da exposição permanente do museu, mas há também exposições temporárias e especiais que passam por ali a cada dois meses. É o caso da exposição “Abstração Celular”, uma mostra de esculturas dos acadêmicos de Artes Visuais da Universidade Regional de Blumenau (Furb), resultado dos estudos práticos desenvolvidos na disciplina de Escultura da Dra. Roseli Moreira.

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São 15 esculturas no total, feitas a partir do concreto celular, um material tradicionalmente ligado à construção civil, mas que ganha novas formas, sentidos e expressões pela técnica da talha. A inauguração aconteceu na noite desta quarta-feira (8) e ficará aberta ao público, de forma gratuita, até 27 de maio.

Mostra “Abstração Celular” apresenta esculturas produzidas por estudantes da Furb (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

Para quem quiser se aprofundar ainda mais na reflexão, o museu tem uma surpreendente playlist própria no Spotify com músicas curadas sobre o tema da morte, que vão de Chico Buarque a Type O Negative. Há também o Projeto Memento Mori, Memento Vivere, que organiza e disponibiliza dados de sepultamentos em cemitérios da região. O nome vem da expressão em latim relacionada à finitude da vida e à importância de valorizar o presente.

Em 2021, o museu foi contemplado pelo Prêmio Elisabete Anderle de Apoio à Cultura pelo projeto “Imagens da morte: identificação e preservação do acervo fotográfico do Memorial Funerário Mathias Haas de Blumenau (SC)”. O objetivo era identificar, catalogar e disponibilizar ao público, via plataforma Tainacan, mil fotografias e 122 negativos de vidro que fazem parte do acervo fotográfico do Memorial Funerário Mathias Haas.

O prêmio é promovido pelo Governo do Estado de Santa Catarina, por meio da Fundação Catarinense de Cultura, desde 2009 e visa apoiar financeiramente projetos culturais selecionados por edital para realizar ações nos campos das Artes, Artes Populares e Patrimônio Cultural. Alguns deles podem ser encontrados através do acervo digital do museu neste link.

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Ornamentos tumulares e documentos revelam técnicas, estilos e simbolismos presentes nos cemitérios ao longo de mais de um século (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

Como visitar

O museu não chama de visita guiada. A palavra usada é mediada, e isso faz diferença na prática. Se é uma turma de crianças, a mediação é elaborada para aquele público. Se é um grupo escolar, a equipe conversa com os professores antes para saber qual tema está sendo trabalhado em sala e conseguir criar uma ligação com a visita, que costuma contar com uma oficina artística no fim. Pedro Silva, historiador, é quem conduz as mediações desde que passou a integrar a equipe. Os QR codes espalhados pelas salas dão acesso a conteúdo multimídia com audiodescrição em português, alemão, inglês e espanhol.

A visita é guiada e gratuita, mas exige agendamento prévio. O contato pode ser feito pelo e-mail contato@haas.museum, pelo telefone (47) 3222-9918 ou pelo WhatsApp (47) 99122-8532. O museu funciona de segunda a sexta das 13h às 17h e aos sábados das 8h até 12h. O endereço é Rua José Deeke, 751, interfone 4, bairro Escola Agrícola, em Blumenau. O estacionamento disponível é próprio do museu e fica ao lado da entrada. Há acessibilidade com rampas de acesso, sala tátil, audiodescrição e piso tátil.

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