A maioria das pessoas que conhecem e que, literalmente, vestem a camiseta não sabem quem é o homem ou a história por trás, mesmo tendo uma rua com o nome dele e a fábrica estando logo ali. A casa feita de madeira e barro que marca a entrada do complexo Hering, no bairro Bom Retiro, já tem mais de 100 anos, mais do que qualquer pessoa viva que visitou o lugar em Blumenau.
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Quem chega à Rua Hermann Hering, 1.740, e empurra a porta do museu pela primeira vez, costuma se surpreender com o que encontra. É gratuito maior do que parece e tem até um jardim no telhado de um dos prédios.
A história que o Museu Hering guarda se inicia bem antes de 2010, quando o espaço foi oficialmente inaugurado. Começa em 1878, quando Hermann Hering chegou a Blumenau com 43 anos, comprou um terreno e instalou um comércio. Comprou um tear circular e um caixote de fios em Joinville e levou um tempo para aprender a operar o equipamento.

Dizer que a história da Hering é, também, a história de Blumenau não chega a ser exagero. Em 1880, o irmão Bruno chegou à cidade e, nesse mesmo ano, os dois fundaram a empresa que levaria o nome da família. O nome, aliás, carrega uma curiosidade que poucos sabem: “Hering”, em alemão, é a palavra para o peixe arenque. Por isso, o logotipo da companhia tem dois peixinhos, um para cada irmão.
O Museu Hering é o mais visitado da cidade, segundo dados do Observatório de Turismo. Nos 10 primeiros meses de 2025, passaram pelo espaço 11.917 pessoas. Hoje, a Cia. Hering conta com 146 anos de existência e é uma das empresas mais antigas do Brasil ainda em atividade.
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A casa que virou museu
O Museu Hering ocupa uma edificação centenária no estilo enxaimel, aquela arquitetura de vigas de madeira aparente trazida pelos imigrantes alemães. O prédio é oficialmente reconhecido como patrimônio estadual de Santa Catarina desde 2002, mas a história do prédio em si já é curiosa antes mesmo de virar museu.
Ele fez parte da antiga Vila Operária da Cia. Hering, um conjunto de mais de 60 casas construídas pela empresa para abrigar os funcionários. O complexo tinha também uma cooperativa, que funcionava como um mercado exclusivo para os colaboradores, com preços menores. A cooperativa e a Hering nasceram juntas, no mesmo terreno em que o museu está hoje.

O contraste arquitetônico que o visitante encontra no conjunto é outro detalhe que chama atenção. A casa enxaimel histórica divide espaço com construções assinadas por Hans Broos, arquiteto de estilo brutalista, que expõe o concreto e foca em formas geométricas rígidas. Quem chega sem saber o que vai encontrar acaba saindo com uma camada a mais para pensar.
A missão declarada do museu é “promover interações e reflexões sobre o futuro da moda, valorizando o legado da Cia. Hering e de todos que se dedicaram a essa construção coletiva, estimulando o empreendedorismo e contribuindo para a formação do capital socioeconômico e cultural da humanidade”. Isso fica claro em uma visita que percorre mais de 140 anos de história da companhia e da peça mais básica do guarda-roupa brasileiro, a camiseta.
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A exposição cobre temas que vão desde a história da família e os movimentos migratórios que trouxeram os Hering ao Brasil até o protagonismo feminino na indústria têxtil, a evolução da moda, a arquitetura e a sustentabilidade.
O que tem dentro do museu
A visita ao museu é também um passeio físico por uma linha do tempo. As luzes amarelas e focais acompanham o visitante pelos ambientes enquanto ele caminha entre anúncios e peças que se organizam cronologicamente, de 1880 até 2010. A cada década, uma camiseta que marcou. Misturado às peças, documentos originais e em um arquivo deslizante que fica em um dos ambientes, está todo o acervo histórico guardado desde o início daquela história.

Mais de 150 mil itens catalogados, entre câmeras fotográficas, documentos, pinturas e objetos de todas as épocas da empresa. Existe também, em um dos ambientes, uma árvore genealógica da família Hering produzida pela fundação a cada 10 anos, sendo a última é de 2020. Hermann e Minna Hering tiveram 10 filhos e a família foi crescendo ao longo das gerações representadas no painel.
Um dos itens curiosos do acervo é o Kit Criatividade, um produto vendido pela Hering nos anos 1970 em que vinha junto de uma camiseta branca, tintas e pincel, para que o comprador criasse a própria estampa. As melhores criações tinham os direitos comprados pela empresa e viravam produtos vendidos nas lojas. Uma das estampas criadas assim, que leva a frase “Não Tem Grilo” em uma regata, está exposta no museu até hoje.
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Na última sala, ao lado do espaço dedicado ao metaverso, fica o projeto Retrama. A fundação recebe excedentes de tecido que sobram da produção da Cia. Hering e esses materiais são transformados em novos objetos em parceria com costureiras e cooperativas. Em breve, o projeto vai passar a trabalhar também com artesãos de Blumenau para ampliar o que já produz.
Museu Hering Experience e metaverso
Em fevereiro do ano passado, quando a Fundação Hermann Hering completou 90 anos, dois projetos novos foram lançados ao mesmo tempo. O primeiro foi o Museu Hering Experience, um tour guiado e teatralizado, com atores caracterizados com roupas de época que contam a história da companhia com falas, jogo de luzes e efeitos especiais dentro do próprio museu.

A experiência ocorre mediante a agendamento prévio às 10h, com duração de duas horas, e o roteiro inclui os bastidores da produção, a exploração do Centro de Memória Ingo Hering e uma jornada pela evolução da moda desde 1880 até os dias de hoje.
O segundo lançamento foi o Museu Hering no Metaverso, projeto foi desenvolvido pela Metaverso VX, startup de Florianópolis. A experiência usa realidade virtual, inteligência artificial e gamificação. No centro dela, uma aposta inusitada: Hermann Hering, que viveu de 1835 a 1915, volta a aparecer em holograma para contar a própria trajetória em primeira pessoa, com expressões faciais e movimentos recriados por IA a partir de fotografias antigas. A tecnologia também apresenta a esposa de Hermann, Minna, e o irmão Bruno.
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O acervo digital equivale a pelo menos cinco vezes a área do museu físico, que tem 2,2 mil metros quadrados de área total. O acesso ao museu no metaverso é feito pelo site oficial através deste link, por aplicativo disponível na Play Store ou por óculos de realidade virtual, próprios ou disponíveis no próprio museu.

Centro de Memória Ingo Hering
Os documentos originais ficam no Centro de Memória Ingo Hering, dentro do mesmo complexo, mas em um prédio brutalista de concreto vindo direto da mente de Hans Broos. O local é dedicado a guardar e pesquisar objetos que representam mais de 140 anos de memórias ligadas à moda brasileira.

O nome é uma homenagem a Ingo Hering, que, já em 1980, expressou o desejo de que os materiais de valor para a Cia. Hering fossem devidamente preservados, o que eternizaria a memória da empresa.

O acervo é composto por itens que vão desde o século XVIII e trata da memória da família Hering, da empresa, patrimônio construído e inúmeras pessoas históricas que têm a trajetória de vida pessoal ou profissional representada no acervo da instituição.
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É possível encontrar fotografias, indumentárias, maquinários, quadros, materiais em papel, audiovisuais e demais outros itens curiosos que servem como uma forma de “espiar” o passado da empresa.
Confira algumas fotos do acervo e antigas propagandas
Como visitar o Museu Hering
O museu funciona de segunda-feira a sábado, das 10h às 16h, e permanece fechado aos domingos. A entrada é gratuita. Para o Museu Hering Experience, é necessário agendamento prévio pelo site da Fundação Hermann Hering através deste link. O espaço fica na Rua Hermann Hering, 1.740, no bairro Bom Retiro, em Blumenau. Para mais informações, o contato pode ser feito pelo telefone (47) 3321-3340 ou pelo e-mail museuhering@fhh.org.br.
O museu conta com acessibilidade através das rampas de acesso, piso tátil, cadeira de rodas, banheiro semi-adaptado a cadeirantes, elevador e Libras em audiovisuais. A Fundação também trabalha com projetos de acessibilidade aprovados via leis de incentivo à cultura.
Veja mais fotos do Museu Hering e Centro de Memória
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