Quem frequenta o Mercado Público de Florianópolis já deve ter visto ou ouvido a voz marcante de Neném Maravilha. Aos 71 anos, o músico é presença constante nos fins de tarde da capital catarinense, mais precisamente no “Bar Balcão Mané”, ponto onde construiu uma das trajetórias mais longevas da cena musical local, com mais de 50 anos de carreira.

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Dijalma Rita nasceu em 1954, no Morro da Mariquinha, em Florianópolis, sendo filho de Risoleta Rita, empregada doméstica, e de Djalma do Pandeiro, que já faleceu. Casado com Dagmar, é pai de sete filhos — três deles também músicos: Dago, vocalista; Akauã, baterista; e Thainá, violonista.

A música, aliás, atravessa gerações na família: o avô paterno, que morreu quando Neném tinha entre três e quatro meses de idade, já nutria paixão pela música. Depois, com Dijalma, a tradição continuou.

— Foi tudo com o dom de Deus. Ninguém da minha família foi para a escola de canto nem de violão. Eu ensinei para minha filha uma nota só, sequência de dó maior. Quando fui ver, ela já estava tocando quatro, cinco músicas sozinha — conta ele.

O nome artístico, Neném Maravilha, surgiu nos anos 1980, durante uma participação em um programa de rádio apresentado pelo radialista Aldírio Simões, figura importante da cultura popular e do carnaval de Florianópolis. O comunicador, na época, apresentava os programas “Clube do Samba” e “Fala Mané”.

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Até então, Dijalma Rita era conhecido apenas como “Neném”.

— Eu sempre comecei com o nome de Neném. Aí um dia fui cantar no programa dele, e ele falou: “Tu não é só Neném, tu é uma maravilha”. Depois voltou a dizer no ar: “Pessoal, vamos deixar Neném Maravilha”. Eu achei legal e ficou. Foi pegando, pegando, e até hoje é assim — relembra.

Para o músico, Aldírio teve papel decisivo em sua trajetória.

— Ele abriu muitas portas de festas e bares para mim. Sou suspeito para falar dele, porque teve uma importância muito grande na minha carreira musical — diz, com carinho.

Veja fotos de Neném Maravilha

A trajetória de Neném Maravilha começou cedo: aos 15 anos, fez a primeira apresentação pública em 6 de janeiro de 1974, na inauguração de um quiosque na praia de Jurerê, no Norte da Ilha.

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— Comecei tocando bateria com 14, 15 anos. Depois, comecei cantando e pegando o violão. Quando fui ver, eu já estava no meio dos músicos bons daqui. Faltavam músicos, me chamavam para cantar uma música, e eu acabava ficando até uma da manhã no palco — relembra.

A partir dali, passou a circular por bares tradicionais da Capital, como o Manézinho, Escadão Bar e “Um, dois, feijão com arroz”, tornando-se uma figura frequente da boemia local. Foi no Mercado Público, no Bar Balcão Mané — onde toca até hoje —, porém, que sua história ganhou outra dimensão.

— Ali foi a minha história. O dono do bar comprou uma caixa e um banquinho para eu tocar violão. Ali começou muita coisa bacana na música — conta.

Criado entre os morros e os espaços tradicionais da boemia da Capital, Neném diz que sua relação com Florianópolis sempre foi marcada pelo afeto.

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— É cantar e passar alegria para os turistas e para o pessoal da terra. A porta do meu coração sempre esteve aberta para Florianópolis e para Santa Catarina. Eu adoro as comunidades, adoro o pessoal daqui. Nasci no Morro da Mariquinha e foi ali que começou toda a minha história.

Apesar da fama conquistada ao longo dos anos, ele afirma manter um perfil discreto:

— Sou muito na minha, acanhado. Acho que quando entro no palco com o violão é que me solto mais.

A voz que abriu para grandes nomes da música brasileira

Na década de 1980, Neném ganhou espaço em casas noturnas e restaurantes que marcaram época em Florianópolis, como a Boate Dizzi, Chaplin, Sorrentino, Espetinho, Koxixos Bar, Bar do Cal, além de espaços como o Lira Tênis Clube e o LIC. Nesse período, formou a banda Kinas de Bambas, considerada uma das mais requisitadas para eventos e aberturas de shows nacionais.

O grupo chegou a abrir apresentações de nomes como Djavan, Luiz Melodia, Zeca Pagodinho, Raça Negra e Elba Ramalho.

— Quando fui ver, eu já estava abrindo show de Djavan, de Leci Brandão, de Zeca Pagodinho… Porque na época não tinha muita banda de samba e pagode aqui. Meu repertório sempre foi versátil: samba, forró, reggae, MPB. Era uma salada maravilhosa de música — diz ele, com bom-humor.

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Ao longo da carreira, Neném também participou de eventos da cultura popular da cidade, como o Ricaldinho da Ilha, e recebeu diferentes premiações, entre elas o Troféu Manezinho, a Medalha Zumbi dos Palmares, o Troféu Luiz Gama, a Comenda Legislativa e a Medalha Biguaçu África, recebida em 2022.

Além da atuação como intérprete, Neném também assina composições. Entre elas, “Ser Negro” e “Saudade”, presentes no álbum/CD “Fala Mané”, além da canção gospel “Portas Abertas”, executada em ministérios de louvor em Biguaçu.

Ouça à música “Saudade”

Nos últimos anos, Neném manteve a agenda ativa em diferentes frentes, incluindo a inauguração do Pier 33 e apresentações no Bar Saragaço, no antigo mercado de Biguaçu, além de participações em eventos municipais como o Big Fest e a Praça Cidadã.

Em 2019, também atuou como ator no curta-metragem “Ratoeira”, produção do cinema catarinense premiada como melhor filme, que teve a música “Saudade” em sua trilha sonora.

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Mesmo após cinco décadas de carreira, Neném diz que continua aprendendo com os músicos mais jovens da cidade.

— Essa juventude está representando maravilhosamente a música popular brasileira. Eu aprendo muita coisa com eles também. Os pais levavam os filhos para me ver cantar no Mercado Público. Hoje muitos desses meninos já estão no palco também. Isso é muito bonito — fala ele.

Aos 71 anos, Neném garante que ainda não pensa em parar. Além de seguir se apresentando regularmente, trabalha em novas composições e planeja voltar ao estúdio.

— Eu já escrevi outras músicas, mas ainda não coloquei melodia. Tenho duas na pauta para trabalhar e quero ver se consigo gravar este ano.

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Embora evite fazer grandes planos, ele diz que continua motivado pela música.

— Acho que tudo é no tempo de Deus. Não sou muito de planejar o futuro, mas gosto de pensar que ele pode ser feliz. A música é um casamento que deu certo. Eu amo a música e sinto que ela me ama também.

Entre uma apresentação e outra, o artista também amadurece a ideia de registrar suas memórias em um livro.

— Minha história é muito grande. Tenho muita coisa bacana para contar. Às vezes até penso em escrever um livro — reflete.