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    Entrevista

    "Nós não somos iguais, esse país nunca nos tratou igual", afirma AD Júnior ao falar sobre o combate ao racismo

    Influenciador digital AD Júnior defende a educação como forma de transformação e consolidação do movimento antirracista que ganha força no país: “os brancos brasileiros precisam se colocar no lugar de escuta”, defende

    21/06/2020 - 13h00 - Atualizada em: 21/06/2020 - 20h40

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    Everton
    Por Everton Siemann
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    Aos 34 anos, AD Júnior é um dos sócios na criação do primeiro canal de conteúdo negro que se prepara para chegar às operadoras de TV a cabo no Brasil
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    Nem sempre a gente se prepara como deve para as tarefas que temos pela frente. Isso aconteceu comigo na última semana, na hora de entrevistar o apresentador de TV e influenciador digital AD Júnior. A pesquisa que fiz para formular as perguntas se mostrou frágil logo no início da conversa. Gentil, ele prosseguiu o bate-papo. Até que encerramos.

    Na sequência, uma série de mensagens enviadas por ele, me fez refletir. Pedi desculpas e ele topou ceder uma nova entrevista. AD Júnior é jornalista, ativista social e consultor de estratégias de marketing digital. Tem um canal no YouTube onde fala sobre diversos assuntos ligados à cultura afro-brasileira. Nas redes sociais, reúne centenas de milhares de seguidores.

    O jovem natural de Juiz de Fora (MG) passou a viver fora do país a partir dos 18 anos. Desde 2008, mora na Alemanha, mais precisamente na cidade portuária de Hamburgo. Ministra palestras para falar sobre racismo estrutural e formas de superá-lo. Aos 34 anos, é um dos sócios na criação do primeiro canal de conteúdo negro que se prepara para chegar às operadoras de TV a cabo no Brasil.

    Nos últimos dias, ele passou a dividir a conta da atriz Mônica Iozzi no Instagram, com mais de 4 milhões de seguidores, para falar sobre as desigualdades raciais. E se diz satisfeito feliz com o impacto que a ação tem causado:

    – É muito positivo que as pessoas brancas, que têm muita visibilidade, que elas comecem a se posicionar. A gente nunca teve tantos brasileiros brancos hoje discutindo racismo – afirma.

    Na entrevista ele fala sobre o racismo estrutural no Brasil, a violência contra os negros e outros temas. Confira a seguir:

    O Brasil foi um dos últimos países a abolir oficialmente a escravidão, em 1888. Qual é o peso que esse fato tem para o racismo estrutural que temos no nosso país?

    É um dos últimos e o país que teve o período de escravidão mais longevo na história recente da humanidade, uma das mais cruéis e com o maior número de escravizados. O que vai determinar o maior peso disso é como o Brasil vai lidar com os negros no final do período da escravidão. Começa com a ideia de higienização do país, trazendo europeus para trabalhar no lugar de gente preta, com ideias de eugenia, com decretos no início do século 20, ele não discute a divisão de terras, não dá nenhum suporte. Então, a gente vai aglomerando esses negros nos bolsões de pobreza, encarcerando, tirando. Portanto, hoje, o dia que gente vive hoje, é o 14 de maio de 1888: é o dia que a gente nem conseguiu discutir o final da escravidão ainda, para entender que é lá o que ocasiona todos os problemas que nós temos hoje.

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    A abolição da escravidão, aquela carta tem só um parágrafo, não tem mais nada. Se a gente tivesse tido vários outros parágrafos, páginas, que abordassem sobre como integrar essas pessoas na sociedade a gente não estaria aqui hoje discutindo tanta violência, tanta morte, tanta falta de cuidado com a população afro-brasileira.

     

    Qual o papel da polícia e da justiça na manutenção das diferenças sociais e do racismo no Brasil?

    Como a gente teve uma abolição mal feita, só de jogar as pessoas nas ruas, sem nenhuma ajuda, a polícia e o Judiciário vão trabalhar, mesmo que de forma implícita, durante um tempo, com o viés racial de que esse grupo precisa ser reprimido, que esse grupo é o que começa a cometer crimes, é o grupo que a gente precisa aniquilar se não estiver andando na ordem. A primeira lei que trata dos negros é de 1890, é o decreto 847, dos vadios e capoeiras, que diz que quem estiver andando pela rua ou praticando esportes como a capoeira, vai preso. Então, a primeira lei que a gente tem para falar de negro depois da abolição da escravidão não fala de inserção, de escola, de educação, fala de prender.

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    E no Judiciário a mesma coisa. O Brasil só vai permitir que as pessoas negras votem em 1934. E mesmo assim, com muita dificuldade esse discussão acontece. Então, o Brasil é um país que sempre permeou nesse lugar do “ah, deixa disso”, “não vamos falar sobre isso”, e sempre reforçava a eugenia, dentro da literatura, dentro da medicina, principalmente a medicina. A gente tem casos exemplares, como o dr. Renato Kehl, que foi um dos presidentes da Sociedade Eugênica do Brasil, e acreditava na limpeza racial. Aqueles manicômios que a gente tinha, com muita gente negra. O livro da jornalista Daniela Arbex chamado “O holocausto brasileiro”, mostra exatamente como 60 mil negros desapareceram em um manicômio no interior de Minas Gerais. E pra concluir, lembro de uma juíza de Campinas (SP), que em 2016, aplicou uma sentença no qual ela dizia o seguinte: “Vale notar que o réu não possui o estereótipo padrão de bandido, possui pele, olhos e cabelos claros”. Ela vai aplicar a lei, apesar de a pessoa não merecer, porque a cor dela não pratica esse tipo de crime?

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    E como mudar esse cenário?

    A gente vai mudar esse cenário quando os brancos brasileiros começarem a se colocar no lugar de escuta. Escutarem o que a gente está falando. Porque eles têm uma história incrivelmente meritocrática e mentirosa sobre a vida deles. Eles não contam a história de como o Brasil fomentou políticas públicas para que os europeus viessem para o Brasil com passagens pagas, pedaços de terra, colônias.

    Então, a primeira coisa é: nós não somos iguais, esse país nunca nos tratou igual. O lema “Ordem e Progresso”, ele significa duas coisas completamente diferentes. Ele significa ordem para pretos, pobres, periféricos, doentes, e progresso para todo europeu que chegava aqui no Brasil. Significa duas coisas diferentes, para dois grupos diferentes. Então, a gente precisa se educar. Os brancos se educando sobre como o processo de racialização de pessoas transformou esse país num dos países mais desiguais do mundo, se não o mais desigual.

    Como você vê as manifestações e o Movimento Vidas Negras Importam?

    É incrivelmente importante. Quando você fala “vidas negras importam”, é porque a gente está dizendo que as vidas brancas já importam mais. A gente parte do pressuposto que a vida branca importa tanto, que a polícia quase não atira nela, quase não a encarcera. A minha pergunta é: esse movimento vai trazer uma reflexão? Porque é muito triste que o Jornal das 22h, da GloboNews, só foi ter uma bancada toda negra depois que morreu alguém. Então, toda vez que a gente quiser avançar, alguém vai ter que morrer?

    O Movimento Vidas Negras Importam é para que possamos, de forma definitiva, parar de tapar o sol com a peneira e ver que a gente tem realmente um grupo que morre, que não importa, que é o que a gente chama de “a classe dos matáveis”. Os negros são classe dos matáveis. Os números são muito claros: 76% das pessoas mortas com armas de fogo no país são jovens, negros, com idade entre 15 e 29 anos. O Movimento Vidas Negras Importam é um chamamento à reflexão: importam mesmo? Quando você pensa no futuro, você consegue ver pessoas negras nesse futuro?

    Você vê o caso do menino (Miguel, que morreu após cair de um prédio, em Pernambuco), né? A patroa simplesmente apertou o botão (do elevador). Quer dizer, um menino de cinco anos ele já tem que aprender que ele tem que se virar. Vidas negras importam, as pessoas precisam entender que a gente precisa de carinho, que nós não podemos viver só na pauta da dor, da miserabilidade. A gente quer ter uma vida plena, justa, uma vida digna. Os salários precisam importar também. A gente precisa tanto quanto (os brancos). A gente precisa de oportunidades iguais. O Movimento Vidas Negras Importam é uma expressão de muitas outras coisas.

    Você é sócio de uma plataforma multimídia de conteúdos sobre diversidade cultural, a Trace Brasil. Na TV, você é um dos apresentadores do programa Trace Trends, na Rede TV! Qual é a importância desses espaços no combate ao racismo?

    O nosso objetivo é trazer mais representatividade de forma que não seja caricata. O Trace é um canal que existe na África e na Europa, é a maior plataforma de conteúdo negro do mundo, com mais de 16 canais, mais de 300 milhões (de pessoas) de audiência mundial. Então, ela chega no Brasil, quando o Brasil, muito atrasado, deseja começar a discutir também esse ponto. A gente chegou bem antes do caso George Floyd. A marca chegou ao Brasil no ano passado, depois de ficar 12 anos tentando entrar no país. Estou muito feliz de fazer parte desse projeto. Nosso programa está lá, na Rede TV!, todas as terças-feiras, às 22h30min, e agora a partir do próximo mês a gente entra com canal 24 horas no ar nas operadoras de TV a cabo.

    É muito legal uma criança preta ligar a TV e se ver no programa. Liga a televisão e vê um médico negro, olha e pensa: “Poxa, olha que legal”. Vê que não é só a violência, não é só o documentário que mostra a violência, não é só o filme que está mostrando, na ficção, a violência. A gente está contando a história de um médico negro. Isso pode ter um impacto superpositivo. Quanto mais exemplos positivos você traz, mais você pode projetar um país em que as pessoas podem almejar em estar naquele lugar.

    Nós precisamos mostrar para esses jovens que eles têm valor, que a voz deles pode ser amplificada. Não é dar voz a ninguém, não. Porque eles têm voz, eles só não estão sendo ouvidos. E eles só não estão sendo representados como eles merecem e precisam estar dentro da mídia, de forma positiva. E isso é falar contra o racismo. Eu não precisão falar racismo, não preciso gritar nada, só preciso colocar pessoas que sejam tratados como cidadãos em uma sociedade que se deseja equânime.

    Você assumiu recentemente a conta do Instagram da atriz Mônica Iozzi, que tem mais de 4 milhões de seguidores, para falar de questões raciais. Como tem sido essa experiência?

    Tem sido superlegal. A Mônica e eu, a gente se dá muito bem. Assumi mais ou menos, né. Eu e ela estamos dividindo a conta. Ela faz um post, eu faço um post. A gente se conheceu nessas discussões raciais. Ela me seguia, gostava do meu conteúdo, me mandou uma mensagem e a gente começou a conversar. A resposta tem sido muito positiva, estou superfeliz e acho que isso é muito legal.

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    Muitas pessoas que têm milhões de seguidores estão abrindo a oportunidade para a gente falar com outro público e isso é um grande exemplo de como sair da bolha. Porque às vezes esses artistas falam para uma bolha que não escuta o que a gente está falando. É muito positivo que as pessoas brancas, que têm muita visibilidade, que elas comecem a se posicionar. Isso eu acho incrível. A gente nunca teve tantos brasileiros brancos como hoje discutindo racismo.

    Qual foi o episódio de racismo mais marcante que você enfrentou?

    Aconteceu quando eu entrei em uma sala no aeroporto e uma pessoa achou que eu estava perdido e disse: “Isso aqui é a sala VIP do XXY”. Eu disse: “Sim, eu entendo. Tenho o cartão”. E a pessoa falou: “Não, não é qualquer cartão. É o cartão acima do X”. Eu falei: “Não te perguntei essa parte. Essa parte eu já entendi, também”. Isso é uma realidade. Pra quem nasce negro, a gente sofre agressão todo dia. Já fui a Florianópolis, e andei pela rua em Jurerê. Eu percebi os olhares que as pessoas tinham pra mim. “É gringo?”, “É haitiano?”, “O que é isso aqui?”. Não pertence. E eu falo: “Eu pertenço ao Brasil, sim”. Pergunto aos descendentes de europeus: “Quando é que os seus parentes chegaram aqui? Em 1800 e não sei quando, em 1950, fugidos da guerra?”. Pois é, a minha família já está aqui há cinco séculos.

    Acho que a maior experiência de racismo que eu tenho na vida, foi ter nascido em um lugar que me detesta.

    No discurso lendário de agosto de 1963, Martin Luther King dizia ter sonhado com uma sociedade justa, livre e fraterna. E você, qual é o seu sonho?

    O meu sonho é que as pessoas negras sejam vistas pela primeira vez como pessoas que podem contribuir para que essa sociedade justa, fraterna e igualitária possa existir. Enquanto o sonho do Marthin Luther King era uma sociedade que você colocou, no Brasil essa sociedade, pelos brasileiros, só pode ser construída se tiver uma pessoa branca na frente.

    Sempre faço essa pergunta para as pessoas: fecha os olhos e pensa no futuro, você conseguiu me enxergar no futuro de vocês? A maioria das pessoas não consegue ver um futuro limpo, bonito e com as pessoas pretas vivendo em paz. Talvez elas até imaginem nesse futuro, trabalhando pra elas, limpando, servindo.

    O país que eu quero é um país que pare de olhar para pessoas como eu como seres que devem ser tutelados. Esse é o meu sonho. O sonho do Brasil do futuro, eu queria ver pessoas negras fazendo parte da construção da narrativa de um país mais equânime. Não somente aqueles são vistos como grupos que a gente atira e mata, prende e esquece a história deles.

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