Um novo exame de sangue que combina sequenciamento de DNA com inteligência artificial promete mudar, nos próximos anos, a forma como médicos identificam problemas no fígado. Desenvolvido por pesquisadores do Johns Hopkins Kimmel Cancer Center, nos Estados Unidos, o teste conseguiu detectar fibrose hepática, as primeiras cicatrizes do fígado, geralmente silenciosas, em estágios iniciais, usando apenas uma pequena amostra de sangue.

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A pesquisa foi publicada em 4 de março de 2026 na revista científica Science Translational Medicine, uma das mais respeitadas da área. Os resultados ainda são preliminares: o exame precisa passar por testes clínicos maiores antes de chegar a consultórios ou hospitais brasileiros.

Mas o avanço, descrito pelos próprios autores como “um dos primeiros passos para diagnosticar doenças crônicas a partir do sangue”, é especialmente relevante em um país como o Brasil, onde a doença hepática gordurosa, principal causa da fibrose, afeta cerca de um em cada três adultos.

E qual o grande impacto no avanço? É simples, detectar cedo faz toda a diferença. “O melhor jeito para combater o câncer de fígado não é esperar ele aparecer, mas agir antes, para identificar a doença hepática que pode levar até ele”, disse Victor Velculescu, um dos autores do estudo.

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Como o exame funciona

Em vez de procurar apenas mutações específicas, os cientistas analisam fragmentos de DNA que circulam no sangue. Esses pedaços de material genético entregam o que está acontecendo no corpo, inclusive no fígado.

Diferentemente dos exames atuais de rastreamento do fígado, que incluem marcadores bioquímicos no sangue, biópsia hepática (invasiva), ultrassom ou ressonância magnética, a nova tecnologia se apoia em uma abordagem diferente: a análise de DNA livre de células (do inglês, cell-free DNA ou cfDNA).

O fato de não estarmos procurando por mutações individuais é o que torna este estudo tão poderoso“, afirmou Akshaya Annapragada, estudante de MD/PhD do laboratório do Dr. Velculescu e primeira autora do estudo. “Estamos analisando o fragmentoma inteiro, que contém uma quantidade enorme de informações sobre o estado fisiológico de uma pessoa.”

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Vale destacar que, quando identificada no começo, a fibrose tem chance de voltar atrás. Ajustes na rotina, uso de remédios e o tratamento na origem, podem dar ao fígado a chance de se regenerar. Logo, quando o quadro evoluiu para algo mais sério, como a cirrose, o estrago geralmente não tem mais volta.

Início dos testes

Pra alcançar alguns resultados, os pesquisadores avaliaram amostras de sangue de 423 pessoas, incluindo quem tinha e quem não tinha problemas no fígado. Com essas informações, eles desenvolveram um modelo capaz de identificar padrões ligados à fibrose.

O exame conseguiu detectar cerca de metade dos casos iniciais da doença hepática e acertou aproximadamente 78% dos quadros mais avançados. Já entre quem não tinha nenhum problema, ele indicou corretamente a ausência da doença em 83% das vezes.

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Testes e exames como esse, marcam o avanço da tecnologia na área da saúde. Identificando sinais bem antes dos diagnóstico, é possível ter um entendimento maior da gravidade, e um tratamento mais especializado. Para o avanço, é necessário que o exame seja avaliado em estudos maiores.

Por que o avanço é especialmente relevante para o Brasil

O peso desta pesquisa é ainda maior no cenário brasileiro. Segundo estudos recentes, incluindo dados da coorte ELSA-Brasil publicados pela comunidade médica nacional, cerca de 30% a 35% dos adultos brasileiros têm doença hepática esteatótica metabólica (MASLD, na sigla em inglês) — condição antes chamada de “gordura no fígado não alcoólica” e principal causa atual de fibrose no país.