A nutricionista Jéssica Santos, de 35 anos, relatou ter enfrentado cerca de 13 minutos de luta corporal contra o homem que invadiu seu apartamento e tentou estuprá-la em 23 de maio. Segundo ela, a reação começou assim que percebeu a presença do agressor e foi decisiva para impedir o crime. Durante o confronto, utilizou conhecimentos adquiridos em diferentes modalidades de artes marciais, como boxe, muay thai, jiu-jítsu e defesa pessoal. Com informações do g1.
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— Na hora, eu só queria saber de me defender. E aí, eu pratiquei muitos anos de boxe, de muay thai. Tenho uma vida muito ativa, eu sou nutricionista. Então, eu vivo esse mundo fitness. Então, tenho muita força e técnica. Não tenho tanta técnica, assim, no jiu-jítsu, foi o jiu-jítsu que me salvou, né? Já fiz aula de defesa pessoal, justamente, aula de como sair de um estupro — afirmou.
Entre as estratégias usadas para escapar, Jéssica contou que realizou um movimento de elevação pélvica para lançar o agressor para fora da cama e tentar alcançar o celular. O suspeito, identificado como Wellington de Oliveira Santos, foi preso em flagrante por tentativa de estupro.
Após o caso, a nutricionista compartilhou uma imagem ilustrando a técnica de defesa pessoal que considera fundamental para sua sobrevivência. O material explica que a elevação do quadril, conhecida também como “UPA”, pode proporcionar segundos preciosos para que uma vítima se livre temporariamente de uma tentativa de esganamento. Em seguida, seria necessário aplicar outras técnicas, já que o agressor pode retomar a agressão ou desferir golpes como socos.
Jéssica também revelou ter lesionado uma das mãos ao atingir repetidamente a boca do agressor, que usa aparelho ortodôntico.
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Registros das câmeras de segurança do condomínio mostram que Wellington entrou no apartamento às 8h37min. Treze minutos depois, às 8h50min, a vítima aparece correndo pelo corredor em busca de socorro.
— Eu briguei pela vida mesmo e, se fosse uma criança, se fosse um idoso ou uma mulher que não soubesse se defender, um pouco mais frágil, com certeza ele teria feito o pior. E pior: ele teria saído pela portaria — declarou.
Desde a agressão, a nutricionista passou a fazer acompanhamento psicológico, depende de medicação para dormir e deixou o apartamento onde ocorreu a invasão.
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Embora tenha sofrido diversos ferimentos durante o ataque, ela conseguiu impedir o estupro. Em um dos momentos da luta, chegou a aplicar um golpe conhecido como mata-leão para tentar escapar.
— Tem hora que é medo, tem hora que é ódio, tem hora que é força. Mas eu sei que briguei para sobreviver — afirmou.
O g1 tenta localizar a defesa de Wellington. Na audiência de custódia, ele pediu ao juiz, por quatro vezes, para não permanecer preso.
Como ocorreu a invasão?
As imagens de monitoramento indicam que Wellington entrou no condomínio às 8h22min aproveitando a saída de um morador. Conforme relatado pela vítima, o acesso ao prédio era controlado por reconhecimento facial.
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Sem ser notado pelos funcionários da portaria, ele atravessou a recepção, passou pela catraca e seguiu para os elevadores. Em seguida, foi registrado chegando ao 18º andar, onde fica o apartamento da nutricionista.
Naquela manhã, Jéssica estava sozinha. Seu namorado havia saído por volta das 7h para um evento escolar da filha. Como pretendia retornar mais tarde e não possuía as chaves do imóvel, deixou a porta apenas encostada para não acordá-la. Ela permaneceu dormindo no quarto, localizado no piso inferior.
Segundo a nutricionista, deixar a porta destrancada não era uma situação incomum. A confiança nos sistemas de segurança do condomínio fazia com que, eventualmente, adotasse a mesma prática em situações como o recebimento de encomendas.
Natural de Fortaleza (CE), Jéssica vive em São Paulo há cerca de um ano e meio e morava naquele apartamento alugado havia aproximadamente oito meses.
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Ela contou que despertou ao ouvir alguém entrando no imóvel e descendo as escadas. Inicialmente, acreditou que fosse o namorado, mas estranhou a forma cautelosa como a pessoa se movia.
— Eu achei estranho aquele excesso de cuidado para não me acordar. Quando vi que não era meu namorado, fingi que estava dormindo — relembrou.
Em seguida, o invasor colocou a mão sobre sua boca, ordenou silêncio e simulou estar armado.
— Ele botou a mão na boca, mandando calar a boca e fez a menção de que estava armado. Ele veio para cima de mim, e eu levantei da cama. Comecei a gritar, perguntando quem ele era. Imagina, eu estava acordando com um homem que eu nunca vi na minha vida.
De acordo com a vítima, o agressor a lançou sobre a cama, montou sobre ela e tentou retirar suas roupas, enquanto mantinha sua boca coberta para impedir pedidos de ajuda.
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Durante a ação, Wellington repetia a frase “Cala a boca, é fita dada”. Segundo Jéssica, ele também afirmou que a observava havia algum tempo, embora ela nunca o tivesse visto antes.
— Ele subiu em cima de mim, e eu fiquei tentando tirá-lo. Fiz uma elevação do quadril com muita força e consegui jogá-lo do outro lado da cama. Saí meio que de quatro, tentando pegar o celular que estava no criado-mudo do mesmo lado.
A luta se prolongou por aproximadamente 13 minutos. Nesse período, a vítima foi atingida por socos, teve os cabelos puxados, sofreu tentativas de sufocamento e chegou a ser derrubada da escada ao tentar fugir.
Em um dos momentos mais críticos, Jéssica conseguiu prender o agressor com as pernas e aplicar um mata-leão. Ainda assim, ele continuou tentando estuprá-la. Exausta, ela decidiu fingir que estava desistindo da resistência.
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— Eu já estava exausta. Pensei que o pior ia acontecer. Parei de bater com os braços, para tentar respirar, para ganhar fôlego e tempo. Só que eu não soltei a perna porque, se eu soltasse, eu sabia que ele ia me matar. Na hora em que eu soltei os braços, ele disse para eu não gritar, e ficou segurando a minha boca. Ele tentou me sufocar — contou.
A oportunidade de escapar surgiu quando o agressor se levantou.
— Quando ele levantou, já soltei a perna bem rápido e chutei com toda a força da minha vida, literalmente. E aí, consegui jogar ele na parede. E foi uma pancada muito grande.
A nutricionista ainda desferiu mais um soco, deixando o homem atordoado. Aproveitando a situação, correu escada acima e conseguiu deixar o apartamento.
— Foi uma cena de filme de terror — resumiu.
Corrida por ajuda
Assim que saiu do imóvel, Jéssica percorreu o corredor do andar batendo nas portas dos vizinhos e pedindo socorro. As câmeras registraram o momento em que ela deixa o apartamento enquanto o suspeito corre atrás dela.
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Segundo a nutricionista, a primeira pessoa a ajudá-la foi uma moradora.
— Ela não pensou duas vezes. Foi para cima dele para me defender — contou.
Com os gritos, outros moradores também saíram de seus apartamentos e conseguiram conter Wellington até a chegada da Guarda Civil Municipal.
Quando os agentes chegaram, encontraram o suspeito já imobilizado pelos vizinhos. Jéssica apresentava diversas lesões e foi levada para atendimento médico em um pronto-socorro da região.
O caso foi registrado na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Barueri como tentativa de estupro, lesão corporal e violação de domicílio.
A Polícia Civil apreendeu o celular do suspeito para investigar mensagens, contatos e eventuais conversas que possam indicar monitoramento da rotina da vítima ou participação de terceiros.
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O que disse o suspeito?
No dia seguinte ao crime, Wellington passou por audiência de custódia. Na ocasião, a Justiça converteu a prisão em flagrante em prisão preventiva.
Durante o depoimento, ele afirmou que havia saído para beber em um bar e, ao voltar para casa sob chuva, decidiu entrar em um prédio. Segundo sua versão, nenhum funcionário o abordou ou solicitou identificação.
Ele declarou ainda que pegou o elevador, escolheu um andar aleatoriamente e encontrou um apartamento com a porta destrancada. Ao entrar, disse ter encontrado Jéssica, que se assustou e começou a gritar.
Wellington negou qualquer tentativa de agressão ou estupro e afirmou não conhecer a nutricionista.
Antecedentes criminais
Documentos obtidos pelo g1 apontam que Wellington estava em livramento condicional quando foi preso.
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Em 2017, ele recebeu condenação de 11 anos e quatro meses de prisão por estupro, roubo com uso de arma, restrição da liberdade da vítima, violação de domicílio e constrangimento ilegal, em um caso ocorrido em 2015.
Em 2020, passou ao regime semiaberto. Já em julho de 2021, foi beneficiado com o livramento condicional.
O histórico também registra uma ocorrência de violência doméstica em 2025. Na época, a Justiça concedeu medidas protetivas após denúncias de invasão de domicílio, danos e agressões enquadradas na Lei Maria da Penha.
Possível responsabilização do condomínio
A advogada Silvana Campos, responsável pela defesa de Jéssica, sustenta que o condomínio deve responder pelos prejuízos causados à vítima em razão das falhas de segurança que permitiram a entrada do suspeito.
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De acordo com ela, as gravações demonstram que Wellington acessou o prédio sem qualquer abordagem, permaneceu por alguns minutos na área comum e passou sob a catraca sem sofrer intervenção dos funcionários.
Para a advogada, houve falhas em toda a cadeia de segurança, desde o ingresso do invasor no condomínio até a invasão do apartamento.
— Tudo teria sido evitado se houvesse uma segurança eficiente e uma portaria eficiente. Não adianta os condomínios divulgarem que possuem portaria e segurança monitorada se, quando necessário, elas não são efetivas — afirmou.
Silvana acrescenta que, mesmo após os pedidos de socorro da vítima, a administração não teria tomado providências imediatas, como o acionamento da equipe de segurança. Segundo ela, foram os próprios moradores que chamaram a polícia.
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A defesa da nutricionista avalia medidas judiciais para buscar indenização pelos danos sofridos e exigir mudanças nos protocolos de segurança do condomínio.
Até a última atualização da reportagem, o g1 não havia conseguido contato com a administração do condomínio.






