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    O passo a passo da investigação que colocou Temer na mira da Polícia Federal 

    Delações do dono da JBS e do doleiro revelaram os vínculos do presidente com presos na Operação Skala, deflagrada nesta quinta-feira (29)

    30/03/2018 - 04h11 - Atualizada em: 30/03/2018 - 06h36

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    Por Redação NSC
    (Foto: )

    Eram 19h18min de 4 de maio de 2017 quando tocou o telefone celular do presidente Michel Temer. Do outro lado da linha, seu ex-assessor Rodrigo Rocha Loures buscava informações sobre a edição de um decreto que renovaria, por 70 anos e sem licitação, as concessões do setor portuário.

    — Aquela coisa dos 70 anos lá pra todo mundo parece que está acertado — disse Temer.

    A conversa durou dois minutos e 27 segundos, tempo suficiente para colocar o presidente da República na mira de uma investigação que, nesta quinta-feira (29), resultou na prisão de alguns de seus amigos mais próximos. Por determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso, estão na cadeia o advogado e ex-assessor José Yunes, o coronel aposentado da Polícia Militar de São Paulo João Baptista Lima Filho, o ex-ministro da Agricultura Wagner Rossi, e os empresários Celso Grecco, dono da empresa Rodrimar, e Celina Torrealba, uma das donas do grupo Libra, beneficiados pelo decreto.

    Batizada de Skala pela Polícia Federal (PF), a operação cumpriu 13 mandados de prisão temporária, além de ordens de busca e apreensão e condução coercitiva. Segundo Barroso, as medidas tem o objetivo de evitar "risco concreto de destruição de provas" em esquema de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Dos principais alvos do inquérito, apenas Temer restou incólume à ação policial.

    As principais informações que culminaram na deflagração da Skala foram fornecidas em dois acordos de delação premiada. Enquanto a colaboração da JBS revelou os vínculos de Temer com a Rodrimar, os depoimentos do doleiro Lucio Funaro esclareceram as ligações do grupo Libra com o entorno do presidente.

    O fio condutor das irregularidades é o decreto assinado em 10 de maio de 2017. Na ocasião, Temer atendeu ao intenso lobby empresarial, chegando a incluir na nova normas trechos inteiros sugeridos pela Associação Brasileira dos Terminais Portuários (ABTP).

    Em Brasília, as relações do presidente com o setor são conhecidas há pelo menos duas décadas – sua influência no porto de Santos, por exemplo, sempre foi notória e motivo de comentários maliciosos à boca pequena. Em 2011, o STF arquivou inquérito no qual ele era investigado por suspeita de receber propina da Rodrimar, que atua no porto de Santos.

    O nome do presidente estaria em planilha ao lado da cifra R$ 1,2 milhão, dos quais metade seria para "MT". No despacho que levou a PF às ruas, Barroso cita a planilha, ao afirmar que a sigla "MT" permite supor que recursos das empresas Libra, Rodrimar e Multicargo eram entregues ao "Excelentíssimo Senhor Presidente da República, Michel Temer".

    Apesar das suspeitas, Temer nunca havia sido implicado diretamente em qualquer denúncia envolvendo o setor portuário. Tudo mudou com a Lava-Jato.

    Executivo da JBS, Ricardo Saud contou à PF que Rocha Loures indicou Ricardo Mesquita, diretor da Rodrimar, como intermediário para receber suborno em nome do presidente e relatou interferência de Temer para liberar obras do grupo que haviam sido embargadas pela Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp). Ex-presidente da Codesp indicado por Temer, Wagner Rossi teria recebido mensalinho de R$ 100 mil da JBS a pedido do peemedebista. Saud contou ainda ter enviado R$ 1 milhão ao coronel Lima, mais uma vez atendendo solicitação de Temer.

    Operador de propinas no PMDB, Funaro também vinculou o presidente às relações incestuosas com o setor. Segundo o doleiro, Temer usou o ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para enxertar emendas benéficas à JBS, à Rodrimar e ao grupo Libra na votação da Medida Provisória 595/2012, que remodelava a legislação portuária. Ao complementar o depoimento, Funaro citou nominalmente quem recebia propina em nome do presidente.

    (Em relação) Ao Cunha, tenho 110% de certeza, e do Wagner Rossi, também tenho certeza. Ele (Temer) não deixava nada operacionalizado a uma pessoa só. Você vê, por exemplo, que, para receber dinheiro, ele tinha o José Yunes, e esse tenho certeza, depois vim a saber do coronel Lima — afirmou.

    Dos cinco personagens referidos por Funaro, somente Temer está em liberdade.

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