Se há uma lição que os últimos anos nos deixaram, é a de que o debate sobre vacinas mexe com as nossas estruturas emocionais, não deveria, mas é a realidade. Por isso, ao ler a manchete de que o Ministério da Saúde suspendeu temporariamente a aplicação da nova vacina da dengue do Instituto Butantan, o primeiro impulso de muitos pode ser o medo. Mas, como infectologista, meu papel aqui hoje é lhe pedir um voto de serenidade e explicar o que acontece nos bastidores da ciência.

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Nesta segunda-feira (8), o Ministério da Saúde acionou um botão de emergência perfeitamente previsto no protocolo científico. Após cerca de 500 mil doses aplicadas no país, o sistema de vigilância identificou 42 notificações de reações severas temporariamente próximas à vacinação, incluindo três internações e dois óbitos em investigação.

A primeira e mais importante informação é: suspensão não significa culpabilidade. Não há, até o momento, nenhuma comprovação de que a vacina tenha causado essas fatalidades. A interrupção é preventiva. É o que chamamos na medicina de “princípio da precaução”.

Para entender o porquê disso, precisamos falar sobre um conceito vital na ciência: a farmacovigilância.

O que é farmacovigilância?

É o monitoramento contínuo e rigoroso de qualquer medicamento ou imunizante após ele ser aprovado e começar a ser usado na “vida real”, fora dos laboratórios. Os estudos clínicos da vacina do Butantan foram exemplares, envolvendo mais de 11 mil voluntários ao longo de anos, demonstrando eficácia e segurança robustas.

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No entanto, quando um imunizante passa do ambiente controlado dos testes para a escala de centenas de milhares de pessoas, com históricos de saúde, genéticas e realidades clínicas completamente diferentes, reações raríssimas, que não apareceram antes, podem surgir.

Quando o sistema detecta um sinal de alerta, a conduta correta e responsável é pausar, analisar o histórico clínico dos pacientes, investigar possíveis fatores preexistentes e descartar falhas de lote ou aplicação. O fato de o Ministério da Saúde ter agido rápido não prova que a vacina é perigosa, prova que o nosso sistema de monitoramento é extremamente sensível e transparente. Nenhuma linha de sombra é tolerada.

E quem já tomou a dose única do Butantan, o que deve fazer? Não há motivo para desespero. O próprio Programa Nacional de Imunizações (PNI) reforça que quem recebeu a dose segue protegido contra os quatro sorotipos da dengue. A orientação técnica para quem se vacinou nas últimas três semanas é apenas manter a observação usual.

Caso surjam sinais de alarme como febre persistente, dor abdominal intensa, vômitos ou tontura, a recomendação é buscar atendimento médico para avaliação, um cuidado padrão para qualquer intercorrência de saúde. Vale lembrar, também, que essa pausa não interfere na campanha com o outro imunizante já oferecido no SUS para crianças e adolescentes.

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A ciência avança com cautela, dados e método. O Instituto Butantan, a Anvisa e o Ministério da Saúde estão debruçados sobre esses casos para nos trazer respostas exatas.
Sem alarmismo, sem pânico.

Por Sabrina Sabino, médica infectologista, formada em Medicina pela PUCRS, mestre em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professora de Doenças Infecciosas na Universidade Regional de Blumenau.