Ir e vir. Esse é direito garantido pelo artigo 5º da Constituição Federal de 1988 e, por quase 56 anos, a Ponte Hercílio Luz teve um papel fundamental para que os moradores de toda a região da Grande Florianópolis pudessem acessar a Ilha de Santa Catarina de uma maneira bem mais rápida que a utilizada antigamente, com barcos. Porém, no fatídico dia 22 de janeiro de 1982, a ponte, vista como um marco de tecnologia da época, precisou ser totalmente interditada.
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Mais de 27 mil veículos passavam todos os dias pela ponte, mostrando o quão importante ela era para a mobilidade urbana da região, já que a única alternativa a ela era a Ponte Colombo Salles, aberta já há cerca de sete anos. Com o fechamento da Hercílio Luz, então, a Colombo Salles passou a ser a única ligação entre a ilha e o continente.
Foi somente em 2006 que as obras de recuperação iniciaram, mas o que parecia uma esperança para a população catarinense, virou uma verdadeira novela. Em 2012, o engenheiro civil Wenceslau Diotallevy, se tornou fiscal da obras de restauração do principal cartão postal de Santa Catarina e, para se inteirar do passado na “velha senhora”, leu e releu documentos que contam o histórico da ponte.
Em conversa com o NSC Total, Wenceslau Diotallevy contou que, nos documentos, relatou-se exatamente o que aconteceu para levar ao fechamento da ponte. O que parecia ser uma manutenção comum na ponte, ainda em 1982, virou um verdadeiro susto. Isso porque enquanto a equipe estava em cima da ponte, houve um estalo muito forte na estrutura.
— Foi um susto. Os trabalhadores estavam na ponte, e aí deu aquela correria na ponte. O engenheiro responsável pela manutenção estava na torre e ele achou que a ponte ia cair. Esse evento foi um marco — disse.
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Depois disso, houve uma inspeção rigorosa na ponte, o que mostrou que uma das oito barras de olhal tinha se partido. Isso fez com que a Secretaria de Transportes e Obras acionasse o governador da época, Jorge Bornhausen, e solicitasse a interdição da ponte até que a situação pudesse ser controlada.
— A ponte foi paralisada porque ela poderia realmente cair — afirmou.
Ainda foram tentadas algumas alternativas, com a possibilidade de apenas veículos mais leves, como pedestres e bicicletas, passarem pela ponte, mas as soluções não perduraram por muito tempo, sendo interditada novamente em 1991, desta vez definitivamente.
Foi falta de manutenção?
Wenceslau explica que a ponte tinha alguns pontos em que a manutenção era rotineira, onde as equipes conseguiam ter acesso, como em algumas partes das torres. Entretanto, em algumas partes, não havia condições de fazer manutenção. Não tinha como trocar uma barra de olhal, por exemplo.
— Tem certas coisas que nós observamos pelo histórico. Tiveram alguns governos que fizeram manutenção, depois passaram alguns que não fizeram, mas tinham vários contratos de manutenção em alguns pontos da ponte — disse.
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Anos depois, obra serviu como aprendizado para a reconstrução
A obra de restauração se arrastou por muitos anos, iniciando oficialmente no 17 de fevereiro de 2006 e finalizando, oficialmente, quando a ponte foi de fato reaberta, no dia 30 de dezembro de 2019. Wenceslau explica que, durante a restauração, consultores internacionais, incluindo especialistas de renome mundial, visitaram a obra para aprender, principalmente, o que não funcionou na metodologia de construção de 1926.
Como a ponte ficou exposta por quase um século a um ambiente altamente agressivo, por conta da água do mar, principalmente, ela serviu como um caso de estudo real para observar problemas que a tecnologia e os programas de simulação da época da construção não conseguiam prever. Um dos pontos de aprendizado foi o comportamento das peças e os encaixes, com a análise de como o formato das peças influenciava no encaixe.
— Hoje até temos programas que talvez possam simular alguns possíveis problemas, mas naquela época não se tinham esses programas que podiam simular essas condições e o que podia acontecer no formato da peça ou na maneira que ela encaixa. Então foram descobertos e feitas algumas modificações e adaptações baseadas em resultados — lembrou.
Muitos engenheiros que passaram pela obra ficaram impressionados com o que foi feito em 1926, considerando a precariedade tecnológica daquele período.
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Imagens de satélite mostram transformação da Ponte Hercílio Luz ao longo dos anos
Quando aconteceu a reinauguração da Ponte Hercílio Luz
A Ponte Hercílio Luz foi reinaugurada no dia 30 de dezembro de 2019. Nas imagens de satélite, é possível ver a mudança na estrutura, que passou a ser de aço, e não mais de madeira, como era inicialmente quando foi inaugurada pela primeira vez, em 1926.
A reinauguração da ponte, tombada como patrimônio histórico, artístico e arquitetônico da cidade de Florianópolis, foi um marco para a cidade, reunindo cerca de 200 mil pessoas às vésperas do Ano-Novo. Naquele momento, a ponte foi aberta apenas para pedestres em ciclistas, sendo liberada para carros apenas em 2020.
















