Pai e filha se aposentaram no mesmo dia, nesta sexta-feira (15), após atuarem por anos no Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina (CBMSC). Iron e Léia participaram de grandes operações de busca durante a carreira, como nas tragédias de Brumadinho (MG) e Petrópolis (RJ). Ambos são cães labradores especializados em missões de alto risco e filho e neta do primeiro cão certificado internacionalmente do CBMSC, o Brasil — falecido em 2020. A aposentadoria foi realizada em Porto União, no Planalto Norte do Estado.

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Iron, com 10 anos, e Léia, de 7 anos e meio, foram aposentados em um ato simbólico que ocorreu na cerimônia de passagem de comando da OBM de Porto União. Os seus condutores e parceiros de binômio, cabo Josclei Tracz e David Canever, estavam presentes no encontro.

Apesar da aposentadoria, os animais vão continuar vivendo com as famílias bombeiras que sempre tiveram, porém deixam a escala, o serviço operacional e as buscas efetivas.

— Hoje, a Léia está comigo, na minha casa, com a certeza que ela deu o melhor por Santa Catarina, sabe? É merecido esse descanso. Ela ainda ama a busca, a sensação de encontrar algo, mantemos isso hoje, mas agora na brincadeira, sem os perigos da realidade, é um tempo merecido de recolhimento após tanto tempo servindo pela corporação — disse Canever.

Trajetória de pai e filha no CBMSC

Iron começou a carreira em Xanxerê, no Oeste catarinense, ao lado do cabo Josclei Tracz. A dupla passou oito anos na cidade, antes de serem transferidos para Porto União, onde completou os dois últimos anos de serviço.

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Em mais de uma década de atividade, o binômio, termo técnico para a dupla bombeiro e cão, atendeu mais de 70 ocorrências, conquistou sete certificações (uma delas internacional) e realizou três missões nacionais que entraram para a história da corporação.

Quando a barragem da Vale rompeu no município de Brumadinho, no dia 25 de janeiro de 2019, 272 pessoas morreram. O Corpo de Bombeiros Militar de em Minas Gerais pediu ajuda, e Santa Catarina enviou quatro forças-tarefa em revezamento, sendo 43 militares e sete cães.

Iron foi um deles, que participou de duas operações no estado. Na primeira equipe, que chegou em 30 de janeiro, Iron estava ao lado do cabo Tracz. Na quarta equipe, voltou, mas quase foi obrigado a abandonar a missão.

Um espinho perfurou a pata dianteira direita de Iron, o que exigiu cirurgia de emergência. A operação foi feita no hospital de campanha montado no local pelo CBMMG. O cabo Tracz, que além de condutor é médico veterinário, acompanhou o procedimento ao lado do cão.

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Iron foi o único cão ferido em mais de 50 dias de missão dos bombeiros militares catarinenses. Dez dias depois da cirurgia, ele estava de volta à ativa e a dupla ainda integrou a quarta equipe.

— Busca terrestre é o nosso maior serviço. Principalmente pessoas que se perdem pela mata. Agora nesse inverno, é comum pessoas mais velhas saírem, por exemplo, para colher pinhão e se perder na mata. Serviço de cães, instruções, a gente sempre fala isso: acionar cães, drones, os recursos. Além de saber a capacidade, a diferença que faz é extraordinária. — destaca o cabo Tracz.

Léia e Iron unidos em missões

Léia, de 7 anos e meio, vem de uma família de cães de busca. Neta de Brasil, filha de Iron e Malu, que também atua em diversas buscas no CBMSC, seu destino foi traçado quando ainda era pequena.

O cabo David Canever, da OBM de Canoinhas, no Planalto Norte, foi buscar Léia ainda filhote, em Xanxerê. Eles começaram juntos a fazer treinamento, adesão e conquistar as primeiras certificações.

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Léia, labradora de 7 anos e meio (Foto: CBMSC, Divulgação)

Em fevereiro de 2022, o CBMSC enviou oito militares e seis cães para apoiar a corporação do Rio de Janeiro na tragédia de Petrópolis, que matou mais de 200 pessoas em deslizamentos provocados por chuvas históricas.

Léia foi uma das enviadas e estava no mesmo binômio que Iron. Pai e filha, de batalhões diferentes do estado, atuaram no mesmo desastre. O grupo se concentrou no Morro da Oficina, epicentro do deslizamento.

— Ficamos 10 dias ali na região do Morro da Oficina, onde teve o deslizamento que levou ao soterramento de mais de 50 casas, com múltiplas vítimas. Trabalhamos muito ali. Mas existem, claro, as ocorrências diárias, que são um papel contínuo e que trazem muita gratificação — destacou o cabo Canever.

Ao longo da carreira, Léia respondeu a pelo menos 18 buscas oficiais documentadas em toda a circunscrição que vai de Porto União a Campo Alegre. Muitas operações foram realizadas em períodos noturnos, em áreas com trilhas e estradas, em busca de idosos, crianças, pessoas desaparecidas, perdidos em matas, entre outros.

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O vínculo bombeiro-cão

O Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina foi uma das primeiras corporações a adotar o modelo onde o cão de busca é levado para casa e integrado à família do condutor.

Os animais vivem, comem, dormem, brincam e treinam na casa dos seus condutores, que em pouco tempo de convivência também se tornam deles. Em serviço ou em folga, estão sempre disponíveis ou, no jargão militar, em QAP (na escuta).

— É um vínculo muito forte. Eu ia na casa do sargento Moisés, em Xanxerê, onde tinha uma ninhada de filhotes. Ia duas vezes por semana. Escolhi, peguei, levei pra casa, fiz o treinamento, passei nas provas de certificação com ele. É intensa a atividade e com cães tem um diferencial muito forte: não é só cuidar de você, tem que também cuidar do seu parceiro — revelou o cabo Tracz.

Iron e Léia são labradores, raça conhecida pelo olfato apurado, temperamento dócil, capacidade de se relacionar com humanos em situações de estresse extremo. Todos os cães operacionais do CBMSC vêm da mesma árvore genealógica e com cruzamentos planejados para minimizar predisposições genéticas como atrofia de retina e displasia de cotovelo.

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— Quando estavam os dois juntos em Porto União, eu e o Josclei trabalhamos com nossos cães lado a lado, treinando juntos, foi muito emocionante, pois era pai e filha juntos. Deu uma evolução muito grande para os dois, Iron e Léia, além do carinho que eles tinham entre eles — apontou o cabo Canever.

Confira a atuação dos cães do CBMSC