A violência contra mulheres e crianças não acaba no momento do abuso: essas agressões causam efeitos duradouros às vítimas e à sociedade, além de sobrecarregar o sistema de saúde. É o que aponta uma pesquisa publicada em janeiro de 2026 na revista The Lancet.
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A violência doméstica é apontada pelo estudo como o 4º principal fator de risco para saúde de mulheres entre 15 e 49 anos. Esse número cresce ao analisar a América Latina e o Caribe, onde a violência doméstica é apontada como o 3º principal fator de risco para a saúde dessas mulheres.
No Brasil, uma em cada 10 mulheres, com 15 anos ou mais sofreram violência do parceiro íntimo, aponta a pesquisa. Entre 1990 e 2023, 10% a 14% das brasileiras foram vítimas desse tipo de abuso. O dado coloca o país em um patamar intermediário a alto para violência doméstica.
As consequências duradouras da violência
Segundo o estudo, em 2023, cerca de 608 milhões de mulheres com 15 anos ou mais já haviam sido expostas à violência por parceiro íntimo. Além disso, 1,01 bilhão de pessoas relataram ter sofrido violência sexual durante a infância.
A violência cometida por parceiro íntimo correspondeu, em 2023, por 18,5 milhões de anos de vida perdidos por doenças, enquanto a violência sexual na infância resultou em 32,2 milhões de anos de vida impactados. Embora a violência doméstica provoque sérios danos à saúde física e mental das mulheres, o estudo aponta que os efeitos da violência sexual na infância podem ser ainda mais graves e duradouros. Em ambos os casos, a pesquisa aponta que esses abusos resultaram em mortes prematuras.
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Entre as mulheres que sofreram violência doméstica, os transtornos de ansiedade e a depressão são os mais recorrentes. Por outro lado, o abuso sexual na infância está fortemente ligado à automutilação, esquizofrenia e transtorno bipolar, aponta a pesquisa. Esse tipo de violência também é associado ao desenvolvimento de diabetes e asma na vida adulta, possivelmente causadas pelo estresse e processos inflamatórios no organismo, além de doenças infecciosas.
Como foi realizado o estudo
O estudo analisou a violência doméstica e a violência sexual entre homens e mulheres em 204 países, por idade e sexo, entre 1990 a 2023. Para isso, foram consultados bancos de dados globais em busca de informações sobre exposição à violência doméstica e à violência sexual e as consequências dessas agressões na vida das pessoas.
Para quantificar os anos de vida impactados pela violência foi realizada uma regressão de processo gaussiano espaço-temporal, aplicando ajustes de dados para levar em conta a heterogeneidade da mensuração.
Esses dados fazem parte do relatório “Carga de doenças atribuível à violência por parceiro íntimo contra mulheres e violência sexual contra crianças”, desenvolvido pela Rede de Colaboradores do GBD (Global Burden of Disease) e pelo IHME, o Instituto de Métricas e Avaliação de Saúde da Universidade de Washington.
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Soluções apontadas pela pesquisa
De acordo com pesquisadores, apesar de ter amplos efeitos na saúde, a violência contra mulheres e crianças ainda não é compreendida pelos gestores públicos como os principais impulsionadores da sobrecarga do sistema de saúde.
Segundo a pesquisa, atualmente, menos de 1% de toda a ajuda internacional é destinada ao combate a estes abusos. O relatório enfatiza que a violência doméstica e a violência sexual na infância ainda são vistas, na maioria dos casos, como “questões sociais ou criminais”, ao invés de serem reconhecidos como grandes ameaças à saúde pública comparáveis a outras doenças
Os resultados da pesquisa indicam um “apelo urgente à ação” e os autores argumentam que os sistemas de saúde precisam ser fortalecidos para identificar e apoiar as vítimas, integrando serviços de saúde mental e suporte social.
Eliminar a exposição a esses riscos tem o potencial de evitar milhões de mortes prematuras e anos vividos com incapacidade todos os anos, aponta o estudo. A violência doméstica foi responsável pelo comprometimento da qualidade de 18,5 milhões de anos de vida e por 145 mil mortes apenas entre mulheres. Já a violência sexual na infância comprometeu a qualidade de 32,2 milhões de anos de vida e foi responsável por 290 mil mortes em ambos os sexos.
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De acordo com o artigo, o investimento em prevenção é visto como essencial não apenas para os direitos humanos, mas para a sustentabilidade econômica e o desenvolvimento das nações, devido ao impacto da violência na produtividade e no bem-estar humano.
*Sob supervisão de Nicoly Souza

