A pesca com botos em Laguna, no Sul de Santa Catarina, reúne pescadores artesanais e golfinhos em uma parceria que acontece há mais de 100 anos. Reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil e considerada rara no mundo, a prática depende de características ambientais muito específicas da região.

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Essa interação ocorre principalmente na região da Barra de Laguna, onde pescadores utilizam tarrafas enquanto observam o comportamento dos botos. Quando os animais cercam os cardumes e fazem um movimento característico na superfície da água, os pescadores interpretam o gesto como um sinal para lançar as redes.

Pesquisas publicadas na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) indicam que a cooperação aumenta as chances de captura de peixes, uma vez que os botos conduzem cardumes de tainha em direção à costa.

Enquanto a rede afunda, os golfinhos mergulham por mais tempo e usam a ecolocalização para capturar os peixes desorientados. No entanto, isso só acontece quando os pescadores entendem o sinal e lançam a tarrafa no momento certo, demonstrando que a relação vai muito além da captura de peixes.

“Trata-se de um saber-fazer tradicional enraizado em territórios específicos, transmitido entre gerações e continuamente recriado pelas comunidades que dele participam”, afirma o parecer relatado pelo conselheiro Bernardo Issa, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).

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Com o passar das gerações, muitos pescadores desenvolveram vínculos afetivos com os animais e continuam indo até a lagoa para observá-los mesmo quando não há pesca. Há relatos, inclusive, de pescadores que ajudam botos mais jovens a aprender a prática.

Pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que estudam a pesca cooperativa, registraram situações em que pescadores lançaram a tarrafa mesmo sem peixe, apenas para incentivar um boto considerado inexperiente.

Botos ajudam pescadores a conduzir cardumes de tainha durante a pesca cooperativa em Laguna (Foto: Ronaldo Amboni, Divulgação)

Do lado dos botos, a alimentação é apenas uma das vantagens. O professor Pedro Castilho, coordenador do Laboratório de Zoologia da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), explica que os animais poderiam se alimentar normalmente no mar, como outros golfinhos da mesma espécie.

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Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores é que a atividade também envolva interação social e algum tipo de estímulo associado ao comportamento de pesca cooperativa. Segundo Castilho, o momento pode até representar uma forma de estímulo ou prazer para os animais.

Por que a pesca cooperativa ocorre no Sul de SC

A pesca cooperativa entre pescadores e botos depende de condições ambientais muito específicas. A interação ocorre principalmente em áreas estuarinas (regiões de encontro entre água doce e salgada) com águas mais calmas, onde cardumes de tainha se concentram e permitem que os botos conduzam os peixes em direção à margem.

No Sul do Brasil, além de Laguna, esse cenário aparece com maior frequência na foz do Rio Tramandaí (RS). Ocasionalmente, o fenômeno também é observado nos estuários dos rios Araranguá, no Sul do Estado, e Mampituba (RS).

Segundo publicação da revista Cadernos NAUI – Dinâmicas Urbanas e Patrimônio Cultural, ligada à UFSC, o comportamento também é aprendido socialmente entre os botos e costuma ser transmitido de mãe para filhote ao longo das gerações, fortalecendo e contribuindo para a continuidade do fenômeno na região.

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