O Brasil tenta equilibrar dois extremos de uma mesma crise financeira em 2026, mas a estratégia em discussão parece sinalizar apenas para a superfície do problema. De um lado, o Palácio do Planalto articula o programa “Desenrola 2.0”, que pretende usar R$ 17 bilhões do FGTS para resgatar 81 milhões de brasileiros da inadimplência. Do outro, o Estado lida com uma dívida pública bruta que já ultrapassou os 78% do PIB. O impasse reside no fato de que o plano foca na reabilitação do crédito para as famílias, mas ignora as causas estruturais que mantêm as contas públicas no vermelho.

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Juros e o estoque da dívida

O crescimento da dívida pública brasileira não é resultado apenas de novos gastos, mas do custo de manutenção dos compromissos atuais. Segundo o Banco Central, os juros nominais foram os principais responsáveis pela expansão do endividamento em 2025. A projeção do Tesouro Nacional é que esse índice chegue a 83,6% do PIB até o encerramento deste ano.

O cenário expõe uma divergência entre a equipe econômica e o mercado. Enquanto o Ministério da Fazenda relaciona o custo da dívida à taxa Selic, analistas argumentam que os juros permanecem altos devido à ausência de controle sobre despesas obrigatórias. Sem a geração de superávit para abater o estoque da dívida, a confiança do investidor é afetada, o que pressiona o Banco Central a manter as taxas para conter a inflação.

FGTS como solução temporária

A liberação do saldo do FGTS para quitar débitos de cartão de crédito e cheque especial é vista por técnicos como uma medida de curto prazo. O plano mira trabalhadores com renda de até cinco salários mínimos, oferecendo descontos agressivos para a quitação de dívidas.

Apesar do potencial de reinserção desses cidadãos no mercado de crédito, a proposta recebe críticas técnicas. Em entrevista à CNN, a economista Juliana Inhasz, do Insper, destacou que utilizar o saldo do fundo para pagar contas de consumo reduz a reserva de segurança do trabalhador. Além disso, especialistas alertam para a diminuição de recursos disponíveis para o financiamento habitacional.

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Gastos obrigatórios e o déficit

Analistas como Fabio Giambiagi, da FGV, avaliam que o governo prioriza ações de impacto imediato e evita reformas que enfrentem o crescimento das despesas fixas. O déficit primário registrado em 2025 indica que, mesmo com o aumento da arrecadação, o Estado mantém um nível de gasto superior à sua receita.

Sem mecanismos que limitem o avanço das despesas com previdência e pessoal, o país corre o risco de manter o desequilíbrio fiscal. O plano em análise pode devolver o poder de compra no curto prazo, mas o custo de vida tende a permanecer pressionado caso as causas da dívida pública não sejam enfrentadas.

* Sob supervisão de Jean Laurindo