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ATITUDES

Por causa do coronavírus, países da Ásia reforçam seu controle

Essas atitudes são um sinal preocupante para os Estados Unidos, a Europa e o resto do mundo, que ainda lutam contra um surto crescente

15/04/2020 - 17h25

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Por The New York Times
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*Por Motoko Rich

Na China, os voos internacionais foram cortados com extrema severidade, e os estudantes chineses no exterior se perguntam quando poderão voltar para casa. Em Singapura, os cidadãos que acabaram de voltar devem compartilhar os dados de localização de seus telefones com as autoridades todos os dias para provar que estão aderindo às quarentenas ordenadas pelo governo.

Em Taiwan, um homem que tinha viajado para o sudeste da Ásia foi multado em US$ 33 mil por ir a um clube quando deveria estar em casa. Em Hong Kong, uma garota de 13 anos, que foi vista em um restaurante usando uma pulseira de rastreamento para monitorar quem está em quarentena, foi seguida, filmada e, posteriormente, atacada on-line.

Em toda a Ásia, países e cidades que pareciam ter controlado a epidemia de coronavírus estão subitamente reforçando o controle de suas fronteiras e impondo medidas de contenção mais rigorosas, temendo uma onda de novas infecções vindas de outros lugares.

Essas atitudes são um sinal preocupante para os Estados Unidos, a Europa e o resto do mundo, que ainda lutam contra um surto crescente: o sucesso de qualquer país na contenção pode ser tênue e talvez o mundo permaneça em uma espécie de confinamento indefinido.

Mesmo quando o número de novos casos começa a cair, barreiras de viagem e proibições em muitos lugares podem persistir até que se encontre uma vacina ou um tratamento. O risco, caso contrário, é que a infecção possa ser reintroduzida, especialmente dada a prevalência de pessoas assintomáticas que podem, sem saber, carregar o vírus com elas.

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Após um aumento recente nos casos ligados a viajantes internacionais, China, Hong Kong, Singapura e Taiwan impediram a entrada de estrangeiros. O Japão barrou visitantes da maior parte da Europa e está considerando negar a entrada de viajantes de outros países, incluindo os Estados Unidos. A Coreia do Sul impôs controles mais rigorosos, exigindo que estrangeiros fiquem em quarentena nas instalações do governo por 14 dias após sua chegada.

"Os países têm realmente lutado para colocar em prática suas próprias soluções domésticas, e estas são insuficientes para um problema de saúde global transnacional", disse Kristi Govella, professora assistente de Estudos Asiáticos da Universidade do Havaí, em Manoa.

"Mesmo os países que foram relativamente bem-sucedidos na gestão da pandemia são tão seguros quanto os elos mais fracos do sistema", afirmou ela, acrescentando que, na ausência de cooperação entre os países, "fechar fronteiras é uma das maneiras pelas quais os governos podem controlar a situação."

O vírus, que surgiu na Ásia e se espalhou para o Ocidente, corre o risco de retornar. Cidadãos preocupados com surtos na Europa e nos Estados Unidos correram para casa depois de se verem nos novos epicentros da pandemia.

Quase imediatamente, países e cidades da Ásia começaram a ver um aumento de novos casos, muitas vezes detectando passageiros infectados em aeroportos enquanto passavam por exames de saúde. Hong Kong, que vinha relatando novos casos diários em dígitos únicos, de repente viu novos casos subirem para até 65 em um dia. No Japão, onde as infecções permaneceram relativamente controladas, os casos começaram a aumentar no mês passado em Tóquio, à medida que os viajantes retornavam do exterior.

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Para tentar conter o fluxo de infecções, os governos aumentaram o controle de suas fronteiras.

A Coreia do Sul, que tem sido elogiada globalmente por achatar a curva rapidamente após um pico explosivo precoce de infecções, inicialmente exigiu que viajantes de alguns países fizessem quarentena. A lista foi depois ampliada para incluir o mundo inteiro.

O Japão começou com quarentena para os viajantes, mas agora barra aqueles que vêm da maior parte da Europa. Está discutindo mais proibições, inclusive para viajantes dos Estados Unidos.

China, Hong Kong, Singapura e Taiwan simplesmente fecharam suas fronteiras para praticamente todos os estrangeiros.

"Acreditamos que, na situação atual da epidemia, minimizar as atividades desnecessárias de entrada e saída é uma medida responsável e necessária para proteger efetivamente a vida, a segurança e a saúde física de todos os chineses e estrangeiros", declarou Liu Haitao, diretor-geral de controle e gestão de fronteiras da Administração Nacional de Imigração na China.

Até alguns residentes estão tendo dificuldade de voltar para casa. Na China continental, onde os líderes estão ansiosos para declarar o fim do pior dos surtos que começaram lá, os novos controles de fronteira forçaram a maioria das companhias aéreas estrangeiras a reduzir sua quantidade de voos para lá a um por semana. Os preços das passagens dispararam e as reservas são constantemente canceladas.

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Alex Fei, estudante chinês em uma universidade no Canadá, tem lutado para voltar. Seus voos foram cancelados duas vezes – uma depois que Hong Kong proibiu transferências por meio do seu hub, e outra quando a companhia aérea suspendeu um voo direto de Vancouver para Xangai.

Fei disse que talvez não tenha escolha a não ser permanecer no Canadá. "As mãos dos estudantes estrangeiros estão atadas por enquanto", disse ele.

Os cidadãos que retornam à Ásia são frequentemente colocados sob vigilância rigorosa enquanto cumprem seu tempo de quarentena. Em alguns casos, os governos estão usando ferramentas da justiça criminal para aplicá-la.

Hong Kong, uma cidade chinesa semiautônoma, inicialmente conseguiu conter o início do surto local de coronavírus com medidas rápidas, como o fechamento de escolas e escritórios do governo e restrições aos viajantes da China continental.

Mas, à medida que estudantes e expatriados voltavam da Europa e dos Estados Unidos em março, as autoridades alertaram que uma nova onda de casos importados estava começando a sobrecarregar os hospitais. A líder de Hong Kong, Carrie Lam, impediu a entrada de todos os não residentes em 19 de março, e os residentes que retornam são agora testados na chegada.

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Durante a permanência forçada de 14 dias em casa, eles usam pulseiras de rastreamento, e seus movimentos são monitorados por um aplicativo de smartphone.

A tecnologia é uma ferramenta fundamental para impor quarentenas. Na China, aqueles que voltam passam 14 dias em hotéis designados pelo governo e enviam suas temperaturas diariamente para comitês de bairro no WeChat, um serviço de mensagens. Em Taiwan, o governo usa o rastreamento de localização em telefones celulares e a ronda policial à moda antiga: os policiais visitam as pessoas em casa se elas saírem ou desligarem o celular.

Filia Lim, de 50 anos, disse que as medidas de quarentena em Singapura foram uma "dor de cabeça" porque ela normalmente viaja muito para seu trabalho em recursos humanos. Mas ela afirma estar "agradecida" ao governo pelo monitoramento de quem volta do exterior.

"O vírus se espalhou principalmente porque as pessoas não percebiam que tinham os sintomas, e houve algumas que ignoraram descaradamente esses sintomas e interagiram com muita gente, apesar da orientação de autoisolamento dada pelo governo", disse ela.

A punição por quebrar as regras da quarentena pode ser dura. Um singapuriano de 53 anos que violou a ordem teve seu passaporte invalidado, informaram as autoridades de imigração.

O Japão diz oficialmente que aqueles que quebram a quarentena podem ser presos por até seis meses ou multados em até 500 mil ienes, cerca de US$ 4.600.

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Mas o governo japonês confia que os que estão em quarentena permaneçam enclausurados. Ao retornar de países da lista proibida, os residentes assinam uma promessa afirmando que permanecerão no mesmo lugar por 14 dias e ficarão longe do transporte público. Se saem para comer, são orientados a usar uma máscara e "ser rápidos".

Sean Sierra, de 30 anos, suboficial da Marinha dos EUA estacionado na Base Naval de Yokosuka, no Japão, disse não ver um fim à vista. Depois de um destacamento recente em um navio em Singapura, ele foi obrigado a ficar de quarentena em casa no Japão por 14 dias quando voltou.

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Embora ele tenha completado seu período de isolamento, toda a base está agora fechada no local. "Vamos ficar presos aqui por um tempo", contou Sierra. Ele disse que sua sogra havia planejado visitá-lo em duas semanas, mas que a quarentena "coloca um freio em todos os planos".

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