“Toc. Toc. Toc. Santo Antônio, Santo Antônio, se estais dormindo acorda. Se estais acordado, responda pela boca de alguém o nome da pessoa com quem vou me casar”. Quando o relógio marca meia-noite entre os dias 12 e 13 de junho, um ritual curioso ganha vida em frente à Paróquia Santo Antônio dos Anjos, em Laguna, no Sul de Santa Catarina. Diante das portas fechadas da igreja, mulheres em busca do verdadeiro amor repetem a antiga tradição popular ligada ao santo conhecido como casamenteiro

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A prática é apenas uma das diversas crenças e costumes que atravessam gerações na cidade que tem Santo Antônio dos Anjos como padroeiro. Entre bilhetes com pedidos, flores do andor guardadas como relíquias e histórias sobre a famosa “paradinha” durante a procissão, Laguna preserva um conjunto de tradições que misturam fé, esperança e cultura popular. Confira em detalhes abaixo.

Quais as tradições na cidade que tem Santo Antônio como padroeiro

Em 13 de junho, Dia de Santo Antônio, Laguna celebra o padroeiro, enquanto mantém vivas tradições populares, revelando como a figura do Santo Casamenteiro se tornou parte da identidade cultural lagunense.

O amor vem por desconhecidos

Uma das tradições mais famosas acontece justamente na virada para o dia 13 de junho. Após repetir três vezes a frase direcionada ao Santo diante da porta principal da igreja, quem realiza a simpatia deve passar as próximas 24 horas atento às conversas ao redor.

A crença popular diz que o nome ouvido casualmente em diálogos entre desconhecidos pode revelar a identidade do futuro companheiro. Segundo a tradição, nomes mencionados por familiares ou amigos não entram na “contagem” da simpatia.

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A famosa “paradinha” do santo

Outra tradição incorporada ao imaginário lagunense é a chamada “paradinha” da imagem do santo durante a procissão.

Segundo os relatos populares, caso o andor parasse em frente a uma residência onde houvesse uma moça solteira, o casamento estaria próximo. Os mais antigos contam que Santo Antônio dos Anjos já teria “desencalhado” muitas mulheres que aguardavam por um matrimônio.

A imagem de Santo Antônio dos Anjos percorre as ruas de Laguna durante as celebrações em homenagem ao padroeiro da cidade (Foto: Núcleo de Turismo, Reprodução)

A crença, no entanto, vinha acompanhada de um presságio menos desejado: se a parada acontecesse diante de uma casa sem moças em idade de casar, acreditava-se que uma morte poderia ocorrer entre os moradores.

Para evitar a má sorte, famílias costumavam convidar sobrinhas, parentes ou conhecidas solteiras para aparecerem às janelas durante a passagem da procissão. 

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Bilhetes e flores marcam demonstrações de fé

Além das simpatias relacionadas ao amor, outras tradições demonstram a devoção dos fiéis ao padroeiro de Laguna. Após o encerramento das festividades e da procissão, muitos devotos recolhem flores utilizadas no andor de Santo Antônio dos Anjos, guardando-as como lembranças especiais e símbolos de fé.

Outra prática ainda presente é a colocação de bilhetes com pedidos nos nichos da imagem do santo, antes de ela retornar ao altar-mor da igreja. Nos pequenos papéis, os mais diversos desejos são confiados ao padroeiro, em gestos marcados pela esperança.

Estudos sobre o Santo e tradições

A estudiosa das manifestações religiosas lagunenses Nair Ulysséa registrou, na obra Três Séculos na Matriz, costumes curiosos relacionados às celebrações de Santo Antônio.

Segundo ela, muitos devotos prometiam participar de todas as novenas utilizando a mesma roupa, como forma de alcançar a graça desejada. Há relatos de que algumas pessoas repetiam até mesmo as mesmas peças íntimas ao longo das trezenas.

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Por outro lado, jovens solteiras seguiam uma tradição diferente: compareciam às novenas usando um vestido novo a cada noite, acreditando que assim aumentariam as chances de casamento ainda naquele ano.

A fama de Santo Antônio como intercessor nos assuntos do coração também aparece em registros históricos da cidade.

Em uma publicação do jornal O Albor, de 13 de junho de 1908, o articulista que assinava sob o pseudônimo Bento Rosado relatou, em tom bem-humorado, receber cartas de moças lagunenses pedindo ajuda para convencer os organizadores da festa a fazer com que a procissão parasse diante de suas casas.

A festa que atravessa gerações no Sul de SC

Enquanto as simpatias e tradições populares continuam despertando curiosidade e sendo passadas entre gerações, a Festa de Santo Antônio dos Anjos reforça, ano após ano, a devoção dos lagunenses ao padroeiro da cidade.

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Em sua 349ª edição, a festa reúne milhares de devotos, moradores e visitantes na Igreja Matriz e nos arredores do Centro Histórico de Laguna. Além da programação religiosa, o evento também se tornou um espaço de encontro da comunidade, com atrações culturais, apresentações musicais e gastronomia diversificada.

“Para todos nós da coordenação e para os festeiros, a Festa de Santo Antônio é a alma da nossa cidade e um pilar da nossa identidade. Mais do que um evento, são momentos de profunda religiosidade e espiritualidade que fazem parte da tradição de cada família lagunense”, afirmou Mário Ricardo Bongiolo, festeiro e coordenador da 349ª Festa de Santo Antônio.

Neste sábado (13), Dia de Santo Antônio, a programação inclui Missa Solene celebrada pelo bispo Dom Adilson Pedro Busin, transladação da imagem do padroeiro pelas ruas da cidade, celebração da trezena e apresentações musicais. 

Já no domingo (14), a festa chega ao fim com a tradicional procissão pelo Centro Histórico, a Missa Solene de Encerramento, o Adeus Antônio e o corte do tradicional bolo de 13 metros.

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Muito além de casamenteiro

Apesar da fama popular relacionada aos assuntos do coração, Santo Antônio dos Anjos ocupa um papel de destaque na tradição católica. Reconhecido como Doutor da Igreja, o Santo nasceu em Lisboa, em Portugal, no ano de 1195, com o nome de Fernando de Bulhões y Taveira de Azevedo. Após sua morte, em 1231, nas proximidades de Pádua, na Itália, passou a ser conhecido também como Santo Antônio de Lisboa ou Santo Antônio de Pádua.

Conhecido popularmente como santo casamenteiro, Santo Antônio dos Anjos também é reconhecido pela Igreja Católica como Doutor da Igreja (Foto: Elvis Palma, Divulgação)

Ainda jovem, ingressou na Ordem dos Cônegos Regulares, período em que aprofundou os estudos em Filosofia e Teologia, em Coimbra, até ser ordenado sacerdote. Dotado de grande inteligência, memória admirável e forte zelo apostólico, encontrou na espiritualidade franciscana o caminho para viver plenamente sua vocação.

Inspirado pelo testemunho dos missionários franciscanos mortos em Marrocos, Santo Antônio decidiu integrar a Ordem dos Frades Menores, atraído pelo ideal de pobreza e pela dedicação à evangelização. Embora tenha tentado seguir para o Marrocos como missionário, uma doença o obrigou a retornar. Foi nesse contexto que teve contato com São Francisco de Assis, que reconheceu seus dons e o incentivou a colocar seus conhecimentos a serviço da formação dos frades.

Conhecido por suas pregações e pelo testemunho de vida, Santo Antônio dedicou-se à propagação do Evangelho e ao combate a doutrinas consideradas divergentes dos ensinamentos da Igreja à época. Reconhecido por sua dedicação à evangelização e pelo exemplo de vida cristã, tornou-se um dos Santos mais venerados pela Igreja Católica.

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