O vazio ainda impera no coração da jovem Luana da Rocha. Um ano depois da morte dos pais, a joinvilense segue lidando com o luto diariamente enquanto luta por justiça. Everaldo da Rocha, 53 anos, e Janaina Moreira Soares da Rocha, 46 anos, eram duas das 21 pessoas que estavam no balão que pegou fogo e caiu em 21 de junho do ano passado, em Praia Grande, no Sul catarinense. Oito pessoas morreram no acidente.
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Luana estava com os pais no passeio e sobreviveu ao acidente. Um ano depois, a estudante de Direito relembra com detalhes a sequência de falhas que podem ter causado a tragédia. Entre eles, cita a falta de regulamentação do balonismo, orientações incompletas da empresa antes e durante a decolagem, falta de transparência do piloto enquanto o balão pegava fogo.
Quatro meses após o ocorrido, o inquérito policial que apurava possíveis responsáveis pelo acidente foi encerrado sem indiciar nenhuma pessoa. O fato causou revolta nas famílias. Entretanto, um mês depois, o Ministério Público solicitou a reabertura da investigação. Um ano depois após a queda do balão, famílias ainda aguardam por justiça.
— A gente vai fazer o possível para que a justiça seja feita. Isso não vai trazer meus pais de volta. Isso não vai preencher o vazio que eu sinto. Mas eu acredito que a gente precisa que a justiça aconteça, que a justiça flua, porque não tem responsável. Aparentemente é isso que eles mostram pra gente todo dia que passa e não tem um responsável — afirma a estudante de Direito.
Dia do acidente ainda na lembrança
Everaldo e Janaina sempre foram aventureiros, gostavam de conhecer novos lugares e de curtir o tempo com a família. Por isso, decidiram fazer uma coisa inusitada: praticar balonismo.
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— Balonismo era uma coisa que a gente nunca tinha feito, a gente também não conhecia. Então, como era um feriado prolongado que a gente conseguiu adequar uma cidade próxima, então a gente foi até lá em família mesmo, para fazer a viagem — lembra Luana.
Colocaram na bagagem a vontade de ver a cidade do alto enquanto sentiam o vento bater no rosto e viajaram de Joinville para Praia Grande.
Na semana do passeio, Luana conta que a agência escolhida reuniu os viajantes em um grupo e passou algumas informações como, por exemplo, de que o balão não decolaria em caso de chuva. Mas, no dia do passeio, em 21 de junho de 2025, o sol raiou em Praia Grande.
— Acordamos bem cedo na pousada que a gente ficou e eles já mandaram logo no início da manhã, também no grupo de WhatsApp, que estava tudo tranquilo, que o clima estava tranquilo, que a gente conseguiria fazer o voo normalmente — recorda.
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Luana recorda que foi de ônibus até o local onde seria a decolagem, mas alguns instantes depois, a equipe da agência decidiu que não iria conseguir voar daquele ponto. Então foram para outro lugar. Neste novo endereço, Luana viu as cores de outros balões no céu e já se imaginou viajando também.
— Estava um sol lindo, vários balões voando, maravilhoso. Hoje a gente vê que é uma coisa que não estava normal, mas quando nós chegamos lá, todos os balões já estavam voando e os nossos não. Então a gente demorou muito para decolar e depois, posteriormente do acidente, a gente viu que isso também era uma coisa que não estava adequada, que tem um horário específico, porque depois o vento começa muito forte, então já não estávamos no horário adequado e os outros balões já estavam tudo fluindo normalmente — cita.
Quando a família de Luana e outros turistas entraram no balão, a agência não teria explicado muitos detalhes sobre os procedimentos. Enquanto outros dois balões da empresa voaram, o que os joinvilenses estavam ficou “para trás”. Entretanto, o instrutor disse que aquilo era normal e tranquilizou os viajantes. Ainda assim, Luana recorda que foi difícil para conseguirem fazer o balão sair do chão.
Até que, algum tempo depois, o balão voou. Pouco tempo depois, a tragédia teve início. Luana explica que só se deu conta que um incêndio tinha atingido o balão quando já estava no chão.
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Em um instante, Luana estava acompanhada dos pais, curtindo o passeio. No minuto seguinte, precisou pular do balão em chamas.
— Foi tudo muito rápido, tanto que eu não troquei nenhuma palavra com a minha mãe ou meu pai. A única coisa que eu lembro foi quando o instrutor mandou todo mundo abaixar. A minha mãe falou assim “meu Deus”, mas a gente não trocou nenhuma palavra. Em nenhum momento eu entendi o que estava acontecendo, não entendi que era fogo, não entendia que estava se incendiando o balão, então não teve nenhuma troca de conversa — lembra Luana sobre a última vez que viu os pais.
Conforme a estudante, o instrutor não deixou claro para os turistas que se tratava de um incêndio. Luana conta que ouviu ele bater o pé e uma pessoa perguntando “quer um casaco?”, mas ela não tinha entendido que essas ações tinham ocorrido para apagar o início das chamas.
Neste momento, ele informou que iria pousar e que, quando pousasse, as pessoas deveriam pular.
— Só que em nenhum momento a gente entendeu a gravidade do que estava acontecendo. Em nenhum momento a gente entendeu que o pouso teria que ser feito com urgência e que todo mundo teria que sair do balão.
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Quando o balão chegou perto do solo, Luana pulou. Ela caiu no chão e rolou. Caída, ela sentiu o balão passando próximo de suas costas e um calor intenso que vinha dele. Foi aí que ela percebeu do que se tratava: um incêndio.
— A partir desse momento, do calor do fogo, eu entendi que era fogo. Eu não vi mais nada, não vi ninguém pular, não vi ninguém ser ejetado do balão. Quando eu consegui ver novamente, porque também caí e fui rolando, o balão já estava muito alto e de lá de cima eu vi uma pessoa pulando, então eu não tinha noção do que estava acontecendo até o momento em que vi realmente o fogo lá em cima — conta.
Embora todos os anos cerca de 8 mil voos ocorressem somente na cidade do Sul de Santa Catarina nos últimos anos, a atividade era oferecida com base em um regulamento considerado brando por muitos pilotos. Na época, havia outro modelo de regulamentação, mais rigoroso, mas nenhuma empresa tinha essa habilitação no Brasil, segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Em outubro do ano passado, porém, a atividade ganhou novas regras.
Balonismo ganhou novas regras após acidente
As novas normas fazem parte de um processo regulatório dividido em três etapas, aprovado no fim de outubro de 2025, e que deve ser concluído até 2028. A fase atual define critérios mínimos para balões, pilotos e empresas operadoras. Entre as exigências estão:
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- Balões poderão ser certificados, ter autorização experimental (Cave) ou cadastro como equipamento de aerodesporto;
- Equipamentos não certificados precisarão de laudo técnico de engenheiro aeronáutico ou mecânico registrado no Crea;
- Todos deverão ter altímetro, indicador de combustível, rádio, extintor, sistema de desinflagem rápida, alças de apoio e seguro obrigatório (Reta);
- Balões sem certificação poderão transportar até 15 passageiros;
- Pilotos precisam da Licença de Piloto de Balão Livre (PBL) válida; quem ainda não tem poderá solicitar autorização excepcional mediante exames e CMA de 2ª classe;
- Operadores devem elaborar plano de voo, seguir regras para áreas não cadastradas e orientar passageiros antes da decolagem.
As prefeituras também passam a ter responsabilidade na regulamentação. Cidades onde há operação comercial de balões, como Praia Grande, deverão:
- Se cadastrar na ANAC;
- Informar e autorizar áreas de decolagem;
- Auxiliar na fiscalização;
- Comunicar irregularidades;
- Manter centros de informações meteorológicas.
A intenção é integrar o poder público local na rotina de segurança dos voos.
A nova normativa foi construída em conjunto com diversos órgãos, explica Fabio Fagundes, gerente de Operações da Aviação Geral da ANAC. Ele cita o Ministério do Turismo, Sebrae/SC, associações de balonistas e também pilotos.
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— A sociedade está envolvida nessa operação. Então, tivemos algumas sessões de consulta pública, reunião pública, reunião participativa, audiência pública com todos esses atores para a gente buscar essa primeira norma de transição — cita.
A ideia é que a normativa fosse segura e possível para os operadores e equipamentos existentes, além de serem atendidos alguns aspectos adicionais, como a relação de habilitação dos pilotos e inspeções realizadas nas aeronaves.
De acordo com Fagundes, em sete meses já são 159 balões que passaram por essas inspeções e 145 já estão vinculados a algum operador já cadastrado pela ANAC. São também 88 operadores cadastrados para fazer as operações comerciais, tanto pessoas físicas quanto jurídicas.
— A gente tem expectativa que até o final do ano a gente vá para a fase dois. Estamos trabalhando em um novo Regulamento Brasileiro de Aviação Civil, específico para o balonismo, e esse regulamento vai passar pela consulta pública ao longo do segundo semestre. A expectativa é que no final deste ano ou no ano que vem a gente já inicie a fase dois. Existe uma expectativa de que, os balões que hoje passam por uma inspeção, eles receberão uma autorização operacional. E existe essa expectativa que os balões, à medida que forem acabando a sua vida útil, sejam substituídos por balões certificados pela ANAC ou por outra autoridade de aviação civil mundial — cita.
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Fagundes também cita o balonismo como um potencial de fonte de renda e emprego no Brasil, desde que atendida todas as suas regras de boas práticas.
Movimento após um ano e adaptação às novas regras
Silvia Boni é empresária e uma das fundadoras da primeira escola de balonismo do Sul do Brasil. Para Silvia, as empresas estão ainda passando pela adaptação às novas regras, mas que elas têm trazido muita segurança para a atividade.
— É um pouco difícil para a gente que não estava acostumado a preencher tantos documentos. Agora, quando o piloto vem pra cá e ele vai preencher o diário de bordo, (diário) de cesto, (diário) do balão completo e vai preencher a civil digital dele na ANAC. Então, é uma parte teórica, mas a gente está se adaptando e a gente agradece por isso, porque isso está trazendo muita segurança para o balonismo — relata.
Segundo conta, todos os balões passaram por uma vistoria pela ANAC. Com isso foi necessário incluir um extintor a mais e foi emitido um laudo que tem validade de um ano. Depois ele precisa ser renovado e toda vistoria é feita novamente.
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— A gente tem dois extintores nos balões. Além disso, todos os maçaricos, mangueiras, o envelope, o cesto, tudo passou por uma uma vistoria periódica, muito minuciosa, do fabricante do balão. Também mensalmente os balões passam por uma vistoria da Secretaria de Turismo.
Quanto ao movimento das atividades, Silvia relata que que aos poucos está recuperando, sendo as movimentações mais intensas em feriados.
— Todas as pessoas que estão vindo deixam bem claro que estão vindo pela segurança que o balonismo traz hoje, pela segurança que eles sentem nas notícias que eles vêm recebendo — disse a empresária.
Como está a investigação um ano depois
Com a reabertura do processo, o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) informou que os procedimentos relacionados ao acidente seguem em andamento e tramitam sob segredo de justiça, por determinação judicial, o que impede a divulgação de informações detalhadas sobre as investigações.
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“Atualmente, o caso é objeto de diferentes frentes de atuação e apuração. Na esfera criminal, o MPSC acompanha as investigações destinadas a esclarecer as circunstâncias do acidente e apurar eventuais responsabilidades. Uma das diligências requisitadas pela Promotoria de Justiça para o aprofundamento das apurações ainda não foi concluída, razão pela qual as investigações permanecem em andamento”, citou o órgão em nota.
Na esfera cível, prosseguem as análises relacionadas à proteção dos direitos dos consumidores e às consequências decorrentes do fato. Além disso, há procedimento em tramitação no âmbito do Ministério Público Federal (MPF), em razão de competências específicas relacionadas ao caso.
Em razão do sigilo judicial vigente e visando preservar a efetividade dos trabalhos, não é possível fornecer outras informações neste momento, finalizou a nota do MPSC.
Na espera por justiça, Luana exige também leis mais duras para que o balonismo deixe de ser uma atividade sem regulamentação e que outros acidentes não mais aconteçam. Por enquanto, o que fica é a saudade e as lembranças de parte da vida acompanhada dos pais, além do luto, que foi transformado em luta.
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