A recusa de parte dos eleitores brasileiros a responder às pesquisas de intenção de voto é um fator de peso para entender a diferença entre os números dos levantamentos de véspera do 1º turno dos institutos, como Datafolha e Ipec, e os resultados finais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

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Essa é a avaliação de Clifford Young, presidente da unidade americana da empresa global de pesquisas Ipsos e professor da universidade Johns Hopkins, em Washington, onde dá aulas sobre análise da opinião pública.

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Quando requisitada, a Ipsos realiza pesquisas eleitorais, mas não apresenta os resultados publicamente.

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— Existe um tipo de eleitor que está presente no Brasil e também nos EUA e na Europa. Em geral, homem e de classe média baixa. Ele perdeu a esperança no sistema e quer quebrá-lo. Para esse eleitor, é melhor explodir tudo e começar do zero — afirma o especialista, que já trabalhou na Ipsos do Brasil e acompanha a realidade do país há pelo menos 20 anos.

Segundo Young, esse eleitor não acredita nos institutos de pesquisa e, por isso, rejeita participar dos levantamentos — essa recusa, segundo os pesquisadores, entra no pacote das “não respostas”.

Esse perfil antissistema, de acordo com Young, alinha-se aos candidatos definidos por ele como “não tradicionais”, em geral da direita. No Brasil, vota em Jair Bolsonaro (PL); nos EUA, escolheu o republicano Donald Trump; na França, optou por Marine Le Pen, do Reunião Nacional.

No caso brasileiro, a “não resposta” dessa fatia mais radicalizada do eleitorado, estimada por ele em 3% da população, levou as pesquisas do 1º turno a uma sub-representação do percentual daqueles que pretendiam votar em Bolsonaro.

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Na pesquisa de véspera do Datafolha, com margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou menos, o atual presidente registrou 34% do total (36% dos votos válidos); no Ipec, com a mesma margem, ele também obteve 34% do total (37% dos votos válidos). Nas urnas, Bolsonaro conquistou 43,2%. A abstenção alcançou 20,9%.

Young pondera que se trata de uma hipótese e que estudos detalhados deveriam ser realizados nos próximos meses para uma avaliação mais refinada desse descompasso das pesquisas de véspera em relação aos resultados do TSE.

— Neste momento, no mundo como um todo, o eleitor mais importante a ser compreendido pelos institutos de pesquisa é justamente aquele que é quase impossível achar. Todas as pesquisas no Brasil sofrem com as ‘não respostas’ — diz o presidente da Ipsos. 

Para Orjan Olsen, diretor da Analítica Consultoria e ex-diretor do Ibope, a hipótese de Young soa plausível. 

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— É possível que tenha havido um movimento de ‘não respostas’ no bolsonarismo mais raiz, e isso influenciou as pesquisas do 1º turno — afirma.

A “não resposta” dos entrevistados pode ter contribuído para essas diferenças de números, mas não estaria entre os fatores principais, de acordo com Luciana Chong, diretora do Datafolha.

Segundo Chong, é bastante provável que tenha emergido nas horas finais um voto útil pró-Bolsonaro oriundo dos eleitores que antes declaravam preferência por Simone Tebet e, principalmente, por Ciro Gomes. 

— Essa é uma eleição presidencial diferente, com dois candidatos muito conhecidos. E prevalece uma guerra de rejeições, em que o antipetismo e o antibolsonarismo demonstram bastante força — diz ela.

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Chong também reitera que a “pesquisa de véspera não pode ser lida como prognóstico” do resultado das urnas.

Para ela, hoje não existem dados em quantidade suficiente para decifrar esse eleitor que se recusa a responder pesquisas:

— Ainda precisamos entendê-lo melhor.

Em artigo publicado no início deste mês no Washington Post, o advogado especializado em legislação eleitoral Mark R. Weaver escreveu que os institutos de pesquisas dos EUA deveriam estar mais atentos ao que ele chama de “eleitores submersos”, em geral pró-Trump.

“Falo regularmente com institutos de pesquisas e com as chefias das campanhas e ouço um lamento comum: os eleitores de Trump desconfiam das pesquisas e da mídia que as divulgam e simplesmente não participam, por protesto ou por paranoia”, escreveu Weaver.

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Ele citou como exemplo uma pesquisa recente na Carolina do Norte, que mostrou empate na disputa no Senado entre o republicano Ted Budd e a democrata Cheri Beasley. O mesmo levantamento indicou que 40% dos entrevistados diziam ter diploma universitário, em contraste com os números oficiais do estado, que alcançam 32%.

Um índice expressivo de “não respostas” da pesquisa explicaria essa diferença, segundo o autor.

Em análise publicada há dois anos, Geoffrey Skelley, do FiveThirtyEight, site agregador de pesquisas de opinião, disse que existem sinais de que os levantamentos realizados nas eleições recentes dos EUA tenham sido, em alguma medida, influenciados pelas recusas de eleitores.

Mas o texto resulta inconclusivo: “Não sabemos o quão difundido é o problema de não resposta nas pesquisas”.

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*Por Naeif Haddad. de São Paulo, para Folhapress

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